Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
Reflexões Filosóficas Motivadas Pela Vinda de Ahmadinejad
O governo Lula e a nossa diplomacia são bastante pragmáticos e penso que, se fosse apenas provocação aos USA, ele não viria, não. A questão que move essa visita é que existem negócios a fazer com o Irã. Quem pode com o pragmatismo econômico, não é mesmo?
Penso que, se ele tiver mesmo a bomba atômica, isso equilibra o cenário internacional e fará com que o Irã não seja invadido a partir do Iraque, Israel ou do Afeganistão. Parece especulação, mas o complexo industrial-militar não se prende a um liberal como Obama. Age quase que por moto contínuo. Se for interessante que invadam o Irã, o complexo mobilizará seus recursos para invadi-lo; se a escassez de petróleo forçar, ocorrerá uma invasão.
Esse tipo de questão poderia ser pensado com a filosofia política; no entanto, a filosofia política de nosso tempo está viciada, absolutamente alienada ao repetir clichês de Hannah Arendt tais como o conceito de totalitarismo. Meu professor, José Chasin, escreveu um artigo revendo esse conceito, mas sem sucesso. Trata-se de uma praga: a última Veja tachou até mesmo Robespierre de "inventor do totalitarismo". Esse conceito confuso faz com que seja necessário atacar a obra de Hannah Arendt em bloco: detratadora sofisticada do marxismo, tal como provei em um artigo chamado Observações sobre a crítica de Marx em Hannah Arendt, Arendt também me parece equivocada ao ver banalidade em Eichmann. Ela parece ter tolamente acreditado que Eichmann era um burocrata dobrado pelo desejo de obedecer e que qualquer um de nós, cidadão comum, pode de repente tornar-se "MAL". Ora, Eichmann era um nacionalista absolutamente fanático! Como pode Arendt ter acredito em sua defesa naquele tribunal? Até mesmo Eli Wiesenthal não concorda com ela. Aliás, que negócio é esse de mal em si? Deve-se tentar ir para além do bem e do mal!
Outra enorme confusão: desde então, usa-se os conceitos de Arent assim: a Espanha de Franco era autoritária, a Inglaterra é democrática, a URSS era totalitária. Imperialismo, para Arendt, foi só no século XIX. Para Edward Said, Arendt foi teórica comprometida com o imperialismo, pois ela eximia as democracias imperialistas de hoje em dia de qualquer continuidade daquilo que fizeram no século XIX; para ela, imperialismo não era "etapa superior (e parece, insuperável) do capitalismo"...
Em primeiro, façamos um desvio nietzschiano. O que Nietzsche diria desse contexto? Devemos abstrair Heidegger, para quem Hannah Arendt tornou-se morada do ser, na acepção ginecológica do termo. Nietzsche diria que os judeus deixaram a moral dos escravos e de vítimas do imperialismo alemão hitlerista e adquiriram a moral dos senhores, bebendo o leite de loba dos USA e da Inglaterra, aprendendo que o bom é ser amigo do imperador. E Israel fez-se base americana e inglesa no Oriente Médio. O difícil será cair se o império cair. O que é horrível mesmo é que as ex-vítimas, ao desejarem proximidade com o império, viram verdugos: os israelenses construíram muros para cercar as regiões habitadas pelos palestinos, muros que deram a essas regiões aspectos de...guetos! Os próprios palestinos escrevem nesses muros: bem-vindos ao GUETO!
Aliás, hoje se pergunta para quê o julgamento de Eichmann. Nos anos 90, os multiculturalistas afirmaram que toda nação é comunidade imaginária, construída com base em mitos e ficções, entre as quais as respectivas literaturas nacionais. E se aplicássemos essa teorização a Israel, quais seriam seus mitos fundadores? Um deles seria a narrativa bíblica. O outro seria o fato histórico da Shoah interpretado de uma determinada maneira, daí a necessidade do julgamento de Eichmann, praticamente um dos atos fundadores.
Mas vamos refletindo. Enquanto isso, bem-vindo Ahmadinejad, viva a revolução islâmica!
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Maysa, Cash, Brokeback, etc
No sábado seguinte o Supercine revelou O Segredo de Brokeback Moutain, o "filme do caubói viado", como dizem os detratores. Eles pescavam baiacu, dizem. Anyway, esse filme já está na história do cinema. Vi Ghiraldelli falar sobre esse filme. Ele repetia a palavra gay especulando sobre epistemologia gay, pragmatismo gay, filosofia gay, algo assim. E terminava tudo sendo anti-gay. Ele curte é a ontologia dos Bee Gees e sexualmente e politicamente ele é Nabokov, Nabokov, Nakobov. Como Caio Túlio Costa, que dizia que a Madonna emite tantos sinais hiper-sexuais que ela é broxante. Mas o filme Brokeback é sobre ser autêntico na vida, afastar a má fé. Carpe diem.
Maysa começou bem, vejo na web. Maysa foi citada no Deus da Chuva de Mautner. Maysa e seu uísque existencial. Escuto Maysa e o mundo está cada vez mais caindo, cada vez mais na fossa, cada vez mais Maysa. Chutei o balde, o móvel: ne me quitte pas. Brel com Maysa, Bélgica triste com saudade bossanovística. Fissura ôntica, como dizia Caio Fernando Abreu. Gerald versus Zeca, aliado de John que é Direto da Redação onde Rui Martins indiretamente eu acho que critica Laerte que critica Reinaldo e a web balcaniza-se. War for Territory, dizia o Sepultura. Warfare state, dizem em Manhattan e aí rola a Connection.
segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008
Testemunho de Pierre Doury: Abril em Jenine
Testemunho de Pierre Doury: Décima Terceira missão Civil em Defesa do Povo Palestino, 18 e 19 de Abril de 2002 (Parte 1)
Traduzido por Lúcio Emílio do E. S. Júnior
(Nota: este texto é um depoimento escrito por Pierre Doury, professor de História na cidade francesa de Toulose e militante comunista. Pierre fez parte dessa missão organizada com a finalidade de enviar civis a cidades palestinas conflagradas, para que pudessem fazer relatórios e tentassem ajudar a contar ao mundo a história de cidades como Jenine, devastada pelos tanques israelenses. Esse depoimento faz parte do livro Abril em Jenine, inédito no Brasil e me foi enviado pelo próprio autor, que reside hoje na ilha de Réunion).
Dizem que a memória mais tenaz, a última a apagar-se, é a memória dos odores. Eu creio que, do ano de 2002 em Jenine, guardarei a lembrança do odor. O cheiro doce e enjoativo da morte e da guerra, um odor de coisas podres ao sol mesclado com o da carne humana
Nas imediações do lugar, as primeiras casas destruídas com as paredes carbonizadas me recordaram a terrível razão de nossa presença nesse lugar, quando já tinha me deixado embriagar pela beleza das paisagens no caminho. Corremos até a entrada do campo: a cidade segue sob o toque de recolher, quase ninguém conseguiu entrar em Jenine, e ignoramos totalmente a atitude que o exército de Israel terá se nos encontrar. Cruzamos com uma equipe de repórteres mexicanos, me perguntam e digo em espanhol que é horrível, que o exército queria quebrar o povo palestino, mas que não conseguiram. No entanto, nesta altura ainda não tinha visto nada!
Quando enfim consegui entrar, as primeiras que nos receberam foram as mulheres. Aplaudiram-nos, desejaram-nos boas vindas em árabe, responderam a todos os nossos “salam alsikum”. Querem levar-nos a suas casas, mostrar em que estado ficaram, mas sorrimos comiserados e fomos rapidamente para o centro do campo, o nosso ponto de encontro com os amigos do outro grupo. Quanto mais nos aproximamos desse ponto, mais impressionantes são os sinais da destruição. E finalmente chegamos a um lugar totalmente desolado, onde as paredes estão de pé, mas não tampam a luz, onde o chão está coberto de escombros. Penso em imagens de terremotos vistas na TV. Estou aturdido, um estado em que tudo me parece irreal, parece que seguramente uma defesa de minha mente. Uma frase volta e meia me aparece na cabeça e é uma frase do judeu sobrevivente do nazismo Primo Levi: “o que alguns homens fizeram a outros homens...”