domingo, 4 de outubro de 2009

Mercedes Sosa

Coroas para Henrique: Suicide Notes

Coroas para Henrique: Suicide Notes

Para Henrique Emidio

Ó homem elefante,
De corpo coberto de cicatrizes interiores.
O tempo passa devagar.
A cidade tentacular devorou o poeta.
Suas epístolas, seus coríntios, tudo boiando na sarjeta.
E o poeta um mendigo assaltado,
Certa mente suicida.
Elephant man, você me enganou com seus advérbios.
Prometeu blognovelas não cumpridas, além das vividas.
As palavras agora morrem na minha boca.
Vomito esses cadáveres só por amarga insistência.
Recolho suas próprias palavras para fazer o meu poema.
Te insulto para que você volte do abismo sujo de seu nada.
Pois em sua morte me recuso a acreditar.
Também não sou seu amigo.
Emocionalmente pesado,
Você sentia tudo muito profundamente.
Tudo que eu gostaria era te dar um abraço como num filme francês e chorar.
No céu de Minas passam anjos a jato.
& eles levam sua mente exilada no corpo de poeta
Ouvia atrocidades no rádio.
O dia em que as fórmulas fracassam chegou.
Seu corpo mais seu espírito não combinavam.
Cedo, muito cedo você voltou pra casa, pro nada, pro lugar de onde veio.
E agora nós sabemos que esse lugar não fica em Minas.
Você escapou como uma porção de água entre as mãos crispadas
Na fonte da vida.

sábado, 3 de outubro de 2009

A Flauta Vértebra

A todos vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

(tradução: Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

Carta para o Fernando e Anitha

Anitha, Fernando, pessoal:


Estou também triste de não ter feito nada, mas não saber o quê aconteceu também me entristece. Me consola o fato de que, olhando o blog dele outra vez, coletar poemas que dão a entender que ele não queria, explicitamente, ajuda de nós, amigos. Tinha essa ideia fixa com o suicídio, mas nunca nos disse: "eu me odeio e quero morrer", porque reagiríamos diante disso, conversaríamos, não é, e a ideia fixa, quem sabe, ficaria apagada, assim. Fiz o que estava ao meu alcance; ele gostou, quem sabe, até mais do James que de mim, tendo confidenciado ao James que estava mal. Nós o perdemos entre as mãos, como grãos de areia na praia. Mas que dá um desespero belo e aterrador ao ler o blog dele, onde todos os toques estão dados, unindo-se Torquato, Maiakóvski, Ian Curtis e outros...dá.

Morto, sim. Enterrado, está um pouco dentro de nós, também; só se enterrará totalmente com nossa morte, né. Fiz o que estava ao meu alcance, repito para mim mesmo. Ele me prometeu fazer uma blognovela, nunca fez, assim como prometi reproduzir os poemas dele no meu blog, nunca reproduzi. É triste, viu, é triste.


Lúcio,
lamento informar que a história é mesmo verdadeira, ele está morto e enterrado.
o Henrique era meu companheiro de birita e de algumas viagens pelo país. fui o primeiro a conhecer muitos de seus poemas, quando ele mesmo os lia nos bares que frequentávamos. além disso não foram poucas as noites que viramos de cara cheia discutindo os problemas do mundo e da vida, literatura, música, arte em geral...
mas agora isto é passado, a poesia dele permanecerá e não há muito mais que eu possa dizer sobre isso, posto que nem na época eu quis comentar e, como deve ter percebido, sequer citei este fato em meus blogs - não é uma questão de falta de consideração, ainda mais de mim que não via como apenas um artista e sim como um amigo; apenas acho que a vida é assim, não posso ficar lamentando para sempre, meu trabalho não é este.
por enquanto, posso lhe dizer que em breve surgirá um e-book reunindo seus melhores poemas, os quais estou ajudando a selecionar - é o melhor que posso fazer.
infelizmente, neste país, as pessoas ganham mais reconhecimento quando mortas que quando vivas, isso nós devemos lamentar.

abraço,
F.A.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Interlúdios

Que coisa mais triste. O cara estava morrendo mesmo. Ele nos avisou. E o James ainda tentou: você está é nascendo como grande poeta...Eu levei na brincadeira, disse que ele estava morre-EMO...


Domingo, 26 de Julho de 2009
INTERLÚDIOS
Não me dexem morrer, amigos, assim, tão solo
mas, por favor, deixem-me partir... Deixem
(não me venham com suas teorias)
porque sou também um vaso, uma árvore
e todas essas coisas têm sua estação
e seu tempo no espaço,
todas essas coisas passam
e meu tempo já passou da hora - há tanto tempo
flores já não circundam mais meus braços
musgos
se desejam mesmo me fazer um bem,
deem-me 7 golpes com um machado novo aqui
onde meu coração pulsa
Cortem o mal pela raiz
E se quiserem alguma cerimônia,
façam uma grande fogueira com meus restos
e lancem minhas cinzas ao mar.
Postado por Henrique Hemidio às 20:27 0 comentários
Sábado, 25 de Julho de 2009
INTERLÚDIOS
Nesse momento minha vida começa a terminar
como se ébrio de um veneno
meus órgãos se contraissem
e minha boca espumasse estes branquíssimos versos
Forças? Consumindo-se
Olhos crepitam e pululam,
não os vejo no abismo da lividez em que
minha outra face no espelho encara

Ai, se eu soubesse que o amor contido nesse frasco
fosse tão amargo
teria tomado tudo de um trago
e não estaria agora agonizando tanto... tanto.
Postado por Henrique Hemidio às 23:17 3 comentários
INTERLÚDIO
Celebro o grande poeta que fui, sou
e jamais serei enquanto ser
pois um poeta não deve existir de fato
como uma conjunção de ossos
senão na fantasia dos tempos
O poeta deve ser um mito
entre-linhas
Celebro, é com grande tristeza e enfado
o poeta que habitou meu corpo
como um corpo - estranho
o poeta que amou intransigível e desesperadamente
o farfalhar dos galhos no inverno
e o tresloucado murmúrio das orlas
e que por isso sucumbiu
no vazio
como as cinzas de um despedaçado tronco
Porque tudo é matéria e toda matéria sucumbe algum dia
até mesmo os espíritos mais sublimes.
Postado por Henrique Hemidio às 14:11 4 comentários
Quinta-feira, 23 de Julho de 2009

Lembrança de Morrer

LEMBRANÇA DE MORRER
Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.


E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.


Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;


Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.


Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!


De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.


Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!


Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.


Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!


Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—


Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!


Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!

Álvares de Azevedo

O Poeta não morreu: Para Henrique

Oi, pessoal. Fui ao blog do Henrique Emidio e, ao abrir, enfim, os comentários de um poema do Tzara, me deparei com a notícia de sua morte num hotel em Passos, no dia 11 de agosto desse ano. Reproduzo um poema dele de um post um pouco anterior. Não é possível, não é possível, nenhum amigo fez nem um post? Não encontro nada objetivo no google. Ah, não brinca não, Henrique.

Que o Henrique era triste eu já sabia. Eu lhe disse para lutar, lutar por reconhecimento, brinquei com ele que os poemas eram emo, emocionalmente pesados. Ele me disse que Sâo Paulo o estava tornando suicida.

Não acredito ainda em sua morte. "O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou..." Tomara que seja tudo uma brincadeira de mau gosto em que eu estou caindo...



que dizer da morte
que me espera
feito fera
na moita do caminho

Desses olhos que me espreitam
pelas frestas
desses dentes que me rangem
pelos trilhos

O que dizer da sina
se sou eu presa
por lei da natureza
dessa rota que me traça

dessa hora que me apressa
para o encontro
no fim do ponto
que toda linha passa

O que dizer desse ponto
?
de encontro
no fim da linha
Postado por Henrique Hemidio às 09:03 5 comentários

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