quarta-feira, 23 de março de 2011

Carta ao Alex sobre o esquerdismo

Carta ao Alex


Camarada:


Gostei muitíssimo de seu texto sobre o Esquerdismo e gostaria de fazer
algumas observações a respeito dele. Nele você fala da dificuldade em
organizar a militância e fundar as células nas cidades do interior, assunto
que me interessa bastante. Em primeiro, gostaria de opinar sobre esse
assunto que o motiva a escrever, o esquerdismo tal como definido por Lênin.
Em primeiro, ao tratar dele, você reclama com razão de uma má vontade com as
eleições que se pode observar na resposta do holandês Anton Pannekoek em uma
carta em resposta a Lênin. O principal argumento de Pannekoek é que um russo
como Lênin, que viveu sempre sobre o absolutismo, não pode conhecer a
estrutura que é a democracia capitalista holandesa, que Pannekoek pretendia
desmontar a partir da base, sem participar de eleição alguma. No entanto,
para desmontar tal estrutura, concordo com Lênin que seria preciso lutar
dentro e fora dela, justamente pelo fato dela ser forte. Mas o fato é que
ali, Lênin fala a partir do ponto de vista de alguém que pode dar lições
sobre como conduzir a revolução, pois está à testa de uma revolução
vitoriosa. Não estando à testa de uma experiência bem sucedida, parte dessa
autoridade se esvai. Pode-se dizer que, hoje em dia, o esquerdismo é bem
mais disseminado do que o marxismo-leninismo tradicional.
O fato é que os grupos de esquerda passaram a chamar aqueles que deles
divergem de infantis, de imaturos, de forma muito livre (o que não é o caso
do seu artigo). Daí, a avaliação produziu um adjetivo, um julgamento moral,
que é algo que o artigo de Lênin traz muito sutilmente, como no título, onde
fala em “doença infantil”. Assim, surge uma metáfora medicalizante: o
esquerdista seria um doente, um infantil, um imaturo, um ignorante. A
direita apropriou-se dessa imagem para fazer dela a imagem de todo
comunista, como na frase boboca que faz orgulho a Churchill e foi citada por
Lula: “Quem não é socialista aos vinte anos não tem coração, quem não é
conservador aos cinqüenta não tem cabeça”. Assim, teríamos a fórmula de que
só se pode ser socialista sem cabeça e conservador sem coração. Mas é
justamente de “socialistas sem cabeça” que estamos tratando aqui.
A realidade é tão adversa que é preciso fazer mais do que um julgamento
moral: qual será a conformação social, econômica e psicológica que gera algo
tão insistente como a vontade de resolver as coisas sem paciência, sem
método, rápido demais, para chegar mais rápido ao futuro, ignorando um
conselho de um brilhante revolucionário como Lênin com um argumento
culturalista infundado como esse citado acima? É algo que não decorre da
experiência do stalinismo, pois existia antes dele. No entanto, essas
acusações a respeito dos supostos massacres de Stálin e sobre o stalinismo
real precisam ser respondidas, pois é o ataque que a mídia repete
diariamente, sempre que tem oportunidade. É um fardo ter que dizer isso, mas
a mídia dá a tarefa de defender as facetas positivas de Stálin, Mao e Pol
Pot ao repetir acusações insistentes contra eles. Sem encontrar na
militância comunista argumentos e respostas, é muito fácil que as pessoas
não queiram se envolver e busquem saída no esquerdismo, que busquem grupos
de “ação direta”, “autônoma”, opondo-se a partidos, supondo que a
centralização, a administração e a disciplina necessárias em qualquer
partido levarão faltamente ao dogmatismo cego e a novas repressões.
Não só as denúncias contra Stálin, que se voltam contra o socialismo como um
tudo, ajudam a empurrar as pessoas para o esquerdismo, assim como os
acontecimentos dos anos 60 levaram essa vaga ainda mais adiante. O
esquerdismo apresentou-se justamente enquanto alternativa para o conflito
entre USA e URSS. O comportamento da chamada “nova esquerda”, embora
apresente uma problemática nova e que precisa ser estudada, tinha muitos
pontos em comum com os grupos que Lênin critica.
Assim sendo, coloco um outro desdobramento do problema: o marxismo, que
possibilita aos trabalhadores a consciência revolucionária, é um tipo de
explicação do mundo que está muito mais acessível aos intelectuais, à
pequena burguesia letrada do que aos operários e camponeses. Não é
transmitido pelo senso comum, não é facilmente transmissível de pai para
filho. Implica em estudos, leituras, participação em sindicatos ou partidos.
Tendo origem na pequena burguesia, o intelectual precisa revolucionar seu
pensamento para atingir as posições proletárias. Mas o intelectual muitas
vezes imagina que já sabe tudo o que precisa saber, que com seus
raciocínios, sem muita pesquisa, esforço e prática, chegará à conclusão de
qual é a ação correta, daí a pressa e a impaciência, que faz com que as
experiências bem sucedidas e a voz de um militante mais experiente não sejam
escutadas.
Creio que é pode ser essa contradição que reside na base dos variados
esquerdismos. O anarquista sonha então em acabar logo com o estado sem
passar pela ditadura do proletariado de Lênin, supondo que a teoria de Lênin
e Stálin da revolução em um só país seria violentar a teoria de Marx, só
porque ele não criou essa teoria, supondo que ela criada somente para que
pudessem justificar o fato de que detinham poder.
Não idealizamos o proletário e digamos que o contrário também existe: o
proletário que tem resistência à teoria por ela ter de ser aprendida junto a
pessoas de origem pequeno-burguesa. Ele supõe que uma teoria marxista também
seria pequeno-burguesa e que também visa explorá-lo.
O PT é um exemplo curioso. Esse partido em sua origem criticava tanto as
revoluções socialistas quanto trabalhistas anteriores, mas adotava uma
plataforma revolucionária com a finalidade de superá-las. Enquanto tanto o
PDT quanto o PCB confiaram que existia uma “burguesia nacional progressista”
comandando a transição, o PT crescia e triunfava em sua radicalização
esquerdista de um partido dos trabalhadores, “sem patrões”, mas não porque
avaliasse seriamente que essa burguesia com um projeto nacional capaz de
enfrentar o imperialismo não existia, mas porque essa estratégia era
proveitosa no momento. Assim, na prática creio que sempre foi,
majoritariamente, um grupo social-democrata de direita, com fraseologia de
esquerda. A plataforma democrático-popular era adotada não por convicção,
mas para competir com os demais partidos de esquerda. Atentemos para isso,
portanto: a violenta competição entre as organizações de esquerda, que faz
com que organizações adotem essa ou aquela política ditadas pela necessidade
de competir, mas sem acreditar a fundo nelas.
Aliás, derrubada a URSS e com a burguesia internacionalizando-se em último
grau nos anos 90, derrotados o PCB e Brizola, o PT passa a se aliar com os
patrões. Passou de um início esquerdista para a senilidade neoliberal, tendo
em comum ter tido sempre como inimigos os setores da burguesia que desejavam
um projeto nacional, setores esses que praticamente deixaram de existir a
partir das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso. Então estamos
vivendo o flagelo de ter que um partido de esquerda de massas, que unia
sindicalismo, intelectuais rompidos com o trabalhismo e a URSS e os setores
progressistas da Igreja Católica, passando de um comportamento “esquerdista”
a neoliberal. Após conquistado o estado, o partido prosseguiu mantendo sua
base na esquerda e ampliando-a para a direita ao adotar posições mais
conservadoras. O fim da URSS, a respeito de cujo projeto diziam não se
interessar, mostrou-se, no entanto, determinante no comportamento que
assumiram posteriormente.
Creio que numa situação tão desfavorável quanto é a de fundar um partido em
pequenos municípios conservadores, onde um militante fica extremamente
exposto, existem várias precauções que precisam ser tomadas. Não é a questão
de fazer treinamento para a luta armada, mas não é descabido que o partido
promova cursos de defesa e segurança pessoal para seus militantes.
A grande proprietária espiritual das populações interioranas é a Igreja
Católica. Outra fonte de informação determinante é a televisão. Em ambas a
discussão política aberta e explícita não existe, mas uma visão política é
transmitida indiretamente e naturalizada, em ambas existe quase que uma
totalização conservadora, uma verdadeira lavagem cerebral. Nesse contexto
profundamente adverso, creio que o militante precisa se inserir nos espaços
que estiverem disponíveis, sejam eles uma Comunidade Eclesial de Base ou uma
torcida organizada.
E, finalmente, creio que no interior o comunista deve lidar com todos
pequenos grupos esquerdistas que encontrar, buscando cooperar com eles e
entender o meio onde está participando, buscando atenuar justamente a
competição entre as organizações de esquerda.

Em diálogo com o seguinte texto:

http://saojoaodelpueblo-pcb.blogspot.com/2011/03/infantilidades-dos-comunistas.html

quinta-feira, 3 de março de 2011

Blognovela revista cidade sol: Invasão Brega

(Cenário: novo ensaio no castelo de El Senor)

Horácio (tenso): Olha o Petrossaubrás aí, geeente! O povo escolheu a Globo, isso é globalização plim plim...

Francinny (com voz entediada): Não, Horácio, é com mais calor. O Petrossaubrás tá com dois navios para invadir o castelo de El Senor, tem rebeldes contra você, você tem que passar mais emoção, tá muito travado...

Brisa: Avisa a estréia que vou estar lá...

Francinny: Isso aqui não é sonho de uma Noite de Verão, não, ta, é Amleto.

MNC: Amuleto? Amuleto, jóias, pedras, é comigo mesmo.

Francinny: MNC, até você aqui? Mas você não está no elenco. Olha, vou mudar a música, tá tocando uma música chata...

Marcelo (chega com a cabeça do palhaço Ronald Mcdonald´s nas mãos): Tupi...or not Tupi. That is the Question.

Francinny: Ih, tenta outra frase, isso é clichê.


Marcelo (concentrado): Eu, mistura de grego e tapuia...

Francinny (faz uma careta): Mande o Nelson Rodrigues se danar, já estou cheio dele.

Marcelo (olhando para a diretora com ar de deboche, volta a olhar para a cabeça do clown): Amo tudo isso...

Francinny: Que coisa brega, de jeito nenhum...

Embaixador inglês furioso com o wikileaks 1: Brega? Brega? A invasão vai começar em Brega.

Marcelo (bem comicozinho): Já tou sabendo há muito. O Fidel já comentou e vai vazar no wikileaks.

Embaixador inglês furioso com o Wikileaks 2: Em breve, com apoio das suecas, vamos por as mãos naquele rapaz e ele vai ver, o maldito.

Francinny (colocando um cd no aparelho): Isso aí, vai começar a invasão brega!

(Entram os atores Fernando e Sorocaba): Tá tá tá tá
Tô nervoso, tô passando mal
Quem mandou eu não te dar moral?
Tô suando frio...
Tá tá tá tá
Não acreditei quando falou
Que desencanou do nosso amor
To sofrendo aqui, volta pra mim.(2x)

(Entra Osryka Yourself): Faça o favor, Francinny, abaixe essa música e entre em contato com o elenco em Londres, na Inglaterra.

Francinny: Como assim?

Osryka Yourself: Hein? Ainda não sabe? O Anônimo que cuida da bilheteria avisou que eles não levaram todo o dinheiro não, eles foram fundar a Milkshakespeare na Inglaterra! Foi o último desejo do Fantasma do Rei Luís. Ele deu uma exclusiva para mim e para o Einsenhower. Aliás, ele me disse que agora vai ganhar a vida fazendo aparições para executivos e ganhando duzentos mil...

Francinny: Que ótima notícia! É a melhor notícia desde que ouvi falar da montagem de Lílian de Ipatinga em Curitiba! Então liga a teleconferência aí.

Osryka Yourself: Pois é, mas se o jornaleco Time Out criticar, você senta o pau, viu? Não ligue para imprensa imoral dessa ilha subdesenvolvida. (Sai).

(Aparece o rosto de uma Ofélia toda descabelada, falando para um jovem Hamlet e logo em seguida para a platéia em El Senor): Você não deu valor para o que tinha em casa. You´re bold but boorish. Você é inteligente, mas burricido. Agora fundei a Milkshapeare aqui em Londres, mas enquanto isso tou atuando no filme Matadoras de Vampiras Lésbicas. Me encontrei! Adorei ser uma vampira lésbica, agora quero viver longe de você!!!

Hamlet cantarola (em Londres, junto com os atores Fernando e Sorocaba):

Passei, flagrei, olhei
E vi o que não queria ver
A tremedeira me tomou
Quase que na hora enfartei
Ela é o cara que chegou
Juntinho com você na balada?
Bem que você me avisou
Pra eu dar valor no que tinha em casa.


Francinny (voltando-se para a Cia Milkshakespeare em El Senor, a essa altura reunida para assistir a teleconferência): Nossa, eles se superaram! Foi uma verdadeira invasão brega dos Elsenorianos em Londres! Vamos ter que fazer muito para poder superá-los aqui em El Senor!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Blognovela revista cidade sol: Reconstrução Revolucionária




Local: castelo latino-americano de El Senor

Companhia: Milkshakespeare

Apoio: cadeia de lanchonetes Hamletdonald´s


Personagens


Horácio: ator burguês devoto do mercado e amigo do falecido rei Fernando II

Marcelo: ator fanfarrão de classe média que diverge de Horácio e apóia Eisenhower da Silva.

Asryka Yourself e Eisenhower da Silva, um casal burguês dono do teatro El Senor e da franquia de lanchonetes Hamletdonald´s.

Francinny, uma gentil mulher e diretora da peça Milkshakespeare

Fantasma do rei Luís Hamlet

Fernando e Sorocaba: atores que estão encenando a peça Milkshakespeare

Petrossaubrás, príncipe da Noruega e dono da empresa Atlantis, associado a Eisenhower da Silva e Asryka Yourself.

Dois embaixadores ingleses indignados com o wikileaks

Dois coveiros sem terra

Um capitão do exército

Cozinheira

(Cenário cafona na companhia Milkshakespeare. O teatro está visivelmente decadente e sujo. Horácio está encenando uma passagem de Hamlet. Na platéia quase vazia, visivelmente estão só uns gatos pingados. Francinny, Einsenhower da Silva e Asryka Yourself estão na plateia).


Horácio: Acabo de escutar o galo cantar...(Ouve-se um celular na platéia. Horácio volta-se para a platéia, enfurecido. A peça para. Acendem-se as luzes na platéia). Ele berra: PUTA QUE PARIU!


Marcelo (saindo da coxia indignado): Nunca antes nesse teatro extraordinário...


Francinny, diretora da peça Milkshakespeare (dirige-se ao palco a partir da plateia): CALMA, CALMA, vamos voltar ao trabalho! Apaguem essas luzes! Ei, vocês! Vamos ter mais educação? Desliguem seus celulares. Ao trabalho, Horácio!

Fernando (ator da peça Milkshakespeare, encara a diretora com ar desafiador): Todo dia seu teatro é exatamente igual.

Sorocaba: Sua psicologia tá um tanto quanto errada.

Francinny (irritadíssima): Enquanto atores, vocês são excelentes cantores sertanejos! Agora voltem ao trabalho e...

Cozinheira (entrando no palco esbaforida): Senhora! Senhora! Parte do elenco fugiu!

Francinny: O quê?

Cozinheira: Estamos só nós, coveiros, cozinheiras...Vamos ter que tomar conta do teatro.

Francinny: Ora, ora. Tomar conta, por que?

(Entram os dois coveiros sem terra. Um deles encara Francinny com seriedade): A crise nos atingiu, senhores! A cadeia Hamletdonald´s retirou seu apoio. O teatro faliu! Hamlet, Ofélia, Laerte, todos fugiram para Londres com o dinheiro da bilheteria, por medo de não serem pagos! Nossa única solução é gerir o teatro nós mesmos!

(Todos falam ao mesmo tempo, entrando em polvorosa. Fim da primeira cena da blognovela).

Quadro: Um Réquiem para o Imperialismo, de Magaiver. Fonte: coletivo cultural rosa da povo. http://coletivorosadopovo.blogspot.com/2010/11/tela-um-requiem-para-o-imperialismo-de.html#comments

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Novos Microcontos

Sexo

Fiz com uma freira. Bom? Divino!

Flash

Minicoito.Vai ser bom. Não foi?


Sadomasoquismo

Masoch: me bate! Sade: não bato!

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A Vida Alheia: e se Adorno tivesse um celular?

Essa postagem busca apenas pontuar algumas questões para os brasileiros que
estudam Adorno e a teoria crítica. Siderados pela crítica de Adorno a
Stravinski e ao jazz, trocando confidências em alemão, deslumbrados com
Schoenberg, eles não têm criticado as novas tecnologias representadas pelos
celulares e a internet e os produtos da indústria cultural tais como as
telenovelas. A recepção de Adorno tem deixado de lado contribuições de
teóricos e pesquisadores tais como José Ramos Tinhorão, Gilberto
Vasconcellos e Glauber Rocha. E, sem isso, o estudo da indústria cultural tem
sido mero jogo aristocrático de elite, restrito às universidades.
O celular ou telefone móvel generaliza-se na era do capital também móvel
pelo mundo e na voga da razão comunicativa. Embora favoreça a razão
comunicativa, o celular provoca um retrocesso nas boas maneiras, assim como
favorece o uso invasivo ou irracional do telefone. Por fim, com a proliferação dos
celulares, o diálogo fica praticamente impossível. O diálogo é interrompido
pela chamada insistente dessas pequenas sereias do inferno.

Embora a terceira geração do Instituto de Pesquisa Social em Frankfurt, hoje
em dia, escute Bob Dylan após o corte com a razão negativa realizada por
Habermas, mesmo Dylan é insuportável uma vez transformado em música de fundo
para um celular. E, se antigamente utilizava-se músicas para fundo no
celular, cada vez mais o celular é que determina os rumos da canção popular,
com as canções de massa reiterando sem cessar: “beijo, me liga”, “amor, por
favor, não desligue o telefone”. Não se vende mais um telefone, mas sim a
luxuriante troca de mensagens que se pode fazer através do telefone. No
entanto, essa troca torna a vida dos próximos insuportável, pois se dá
dentro do cinema, no teatro, no trabalho, durante uma palestra, etc. E o
pior é que, nesse mundo idílico do sexo verbalizado, irrompeu há alguns anos
o telelumpen: o trabalhador degradado pelo liberalismo que cai no submundo
do crime e, a partir do presídio, comete crimes através do celular. E os
crimes do telelumpen são justamente a perversão da linguagem do amor
telefônico: o bandido afirma que seu filho foi seqüestrado e logo em seguida
ouve-se a voz de um outro deles que dramatiza, claramente influenciado pelas
telenovelas: “pai, eu te amo”. Se o padrão da Globo é classe média, então a
classe média está sendo vítima, através do celular, de crimes inspirados em
sua própria estética de classe.

O celular opera, então, com o fetiche: compra-se um celular para
possibilitar o sexo oral. As telenovelas operam com um esquema semelhante.
Elas nascem e se apropriam da teorização de esquerda do realismo crítico
enquanto intervenção na realidade, tornando-o realismo reacionário. Assim como
as “pegadinhas” da TV mostram atores encenando e os passantes têm suas
reações à situação, que tomam como real, registradas e exibidas para criar
constrangimento, ao mesmo tempo, as telenovelas recriam a realidade através
de amplos painéis sociais, reduzindo qualquer conflito de classe a um
conflito entre “pobres” e “ricos”.

O principal assunto da novela é o dinheiro, em torno do qual tudo gira. A
solução para a desigualdade social e a luta de classes é casar com um homem
ou mulher rica. Os defeitos de um homem ou de uma mulher são facilmente
compensados pelo acesso à sua conta bancária, na verdade bem mais cobiçada
do que sua cama. Na ética prostituta da telenovela, uma aula de violino é
desculpa para um encontro sexual extraconjugal. Por trás desse tipo de
situação está a disposição estrutural para colocar toda a cultura para
render dinheiro, desprezando tudo aquilo que, nela, não servir para esse
propósito. Quem não puder se prostituir é “múmia”, no entender desse tipo de
programa televisivo. Como diz o grande jornalista Laerte Braga, que deve ser
urgentemente estudado pelos teóricos da indústria cultural brasileira, o
lema das telenovelas e do BBB é “o bordel em sua casa”.

A apresentação realista e naturalista das novelas, assim como todo o esforço
mercadológico em torno delas, convida a tomarmos a representação enquanto
espelho de nossas vidas e mais, a considerarmos aqueles personagens como pessoas do mundo real. A telenovela mobiliza as fantasias das massas, exercendo enorme impacto sobre a vida cultural do País. Aliás, a telenovela praticamente destruiu o cinema e o teatro do Brasil, arrasando, através do mercado, com todas as tradições e linguagens que não a dela. Mesmo as leis de incentivo à cultura do estado subvencionam abertamente produtos com essa estética.

Nos últimos anos, com o surgimento de novas mídias, a telenovela perdeu
parte de seu impacto cultural. O seu lucro é baseado na venda não só dos
produtos nos comerciais, mas na venda de produtos dentro da ficção: vende-se
produtos apresentados durante as cenas quanto nos intervalos comerciais, por
isso a televisão dá tanto lucro. Para isso, nessa ficção cada vez mais os
objetos ganham uma presença mais viva que os atores. Uma vez num
restaurante, ganha enorme destaque o nome do restaurante, suas mesas e
cadeiras e a refeição. Aliás, as telenovelas operam de forma gastronômica:
tanto as refeições são apresentadas de forma bem atraente, intencionando
produzir o desejo de comer, com os atores e atrizes ganhando também uma
apresentação semelhante, com seus corpos apelando para fantasias sexuais e
masturbatórias. O nome de um galã como Gianechinni torna-se, mais do que um
nome, um adjetivo que é sinônimo de “bonito”: “ele não é Gianechinni”.

Como quem trabalha em televisão é glamourizado, nasceu ao redor das televisões
toda uma indústria de revistas repugnantes que se ocupam, sem nenhum
escrúpulo, da vida alheia, mas em especial da vida dos famosos, roubando e
invadindo, de forma altamente predatória, sua vida privada, infernizando
suas vidas com uma punição que responde ao fato de terem dinheiro e fama numa
sociedade como essa. E bem que poderiam adotar o slogan: “a vida alheia é mais
interessante do que a sua”, uma verdadeira apologia criminosa da alienação coletiva.

Os atores que fazem a novela e todos que aparecem na televisão passam a
dispor de um enorme capital simbólico, passam a ser “celebridades”, ou seja,
alguém que dispõe de capital simbólico devido à sua visibilidade.

A telenovela, ao entrar em crise, produziu um subproduto diretamente
articulado ao celular: o show de realidade, Big Brother Brasil. Nele,
telefona-se para eliminar um participante e o programa aufere lucros com isso. O reality show encena o drama de um “campo de concentração”, um drama nacional: nossas prisões são campos de concentração para pobres. O drama de um Auschwitz onde o cárcere possibilita a lazeira do consumismo e onde se tem de falar alto para que sua voz possa ser captada pelos microfones. O microfone manda na voz do participante e a edição da realidade com a estética da telenovela, as ligações de celular e o veneno de Bial modelam seu destino, sua vida e sua
morte dentro do “campo”.

Cada cidadão, despido de culpa coletiva, liga para eliminar um “judeu”, ou melhor, um participante, que então vai para a câmara de gás da realidade. Lá fora, o aguarda a sentinela kafkiana e caucasóide chamada Pedro “Bial”, cujo nome é uma variação alemã de “azul”. É o “kapo” Pedro “Blau” que destila o seu Azul da Prússia verbal.

A grande diversão, após a novela, é reencenar um dos grandes acontecimentos de nossa era, tornado agora um mito exaustivamente explorado pelo cinema norte-americano e muito repetido para poder justificar o martírio do povo palestino: Auschwitz. Aos sobreviventes do BBB e de Auschwitz sempre se faz a mesma pergunta: “o que você aprendeu?” Respeitarei muitíssimo mais o deputado federal do PSOL Jean Wyllys quando ele tiver a coragem de, como uma personagem do filme O Leitor, d responder a essa pergunta assim: “Não aprendi nada, os campos (e o BBB) não eram terapia. Se quiser aprender alguma coisa, não vá aos campos (e não veja o BBB)”. Como reencenação de um grande drama de nossa era, o slogan do BBB poderia ser: "a solução final ao alcance de um toque do seu celular".

Após a decadência das novelas, se seguirá a decadência do formato reality
show
e isso se dará com rapidez maior do que se deu com o produto “telenovela”.
Será necessária, no futuro, uma campanha para que a sociedade se
“destelevise”, assim como os estudos de Foucault produziram a luta
antimanicomial: será preciso também uma luta contra a máquina-desejante e alguém vai ter que também abrir um capítulo para a televisão em um novo volume de A História da Loucura. Aliás, os foucauldianos e deleuzianos precisam dizer que a
grande lição do Big Brother é que uma grande empresa de televisão é hoje
também uma das instituições que buscam o controle total, até mais do que
escola, o presídio e o hospício. Faltou a Foucault o insight de que a prisão
onde tudo se podia ver, o panóplio holandês, deu nos campos de concentração
nazistas e, na atualidade, na prisão de consumo do Big Brother Brasil.

[Esse artigo é meu, mas quem quiser ler outras análises adornianas e derridianas, recomendo arquivoscriticos.blogspot.com]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Microcontos na Piauí

Bilhete
Batom no espelho: amanhã estarei morta.


Quaresma
Jesus? Diabo? Não! Sou advogado dele.


Guerra
Teatro de operações: Gerald dirige tanque.








http://revistapiaui.estadao.com.br/blog/concurso/post_310/Participantes_da_edicao_de_dezembro.aspx

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Leite Derramado: "Encasquetei que precisava enrabar o Xyko"

Reescrita imaginária de um trecho de Xyko por Edney Silvestre após perder o Jabuti:


“Durante um período, para você ter uma idéia, encasquetei que precisava enrabar o Xyko. Eu estava com dezessete anos, talvez dezoito, o certo é que já conhecia mulher, inclusive as francesas. Não tinha, portanto, necessidade daquilo, mas do nada decidi que ia enrabar o Xyko. [...] Só me faltava ousadia para a abordagem decisiva, e cheguei a ensaiar umas conversas de tradição senhorial, direito de primícias, ponderações tão acima do seu entendimento, que ele já cederia sem delongas”.

Xyko é xyk. É preciso pôr a teoria da indústria cultural adorniana contra Xyko. Xyko vem com tudo no governo Dilma.