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terça-feira, 8 de junho de 2010

Alice

Alice

[Graças ao meu editor Fernando Gonzaga, descobri que esse conto meu dialoga com o conto Temporal Semáforo, da escritora hoje radicada no Canadá Rita Espechit.]




“Era capaz de arrancar da mente toda esperança humana/ Contra toda alegria, para sufocá-la, construí a primavera esquálida de uma besta selvagem”.
Arthur Rimbaud



Alice chega do trabalho cansada. Fecha a porta do apartamento de três quartos e um banheiro. O gato persa vem roçar-lhe os pés.
Ele se chama Roni e tem grandes olhos negros. Seu corpo é recoberto de pelos longos, de cor cinza carregado.
Alice está só, senta-se no sofá com Roni nos braços magros. Começa a acariciá-lo, frenética. De súbito se ergue, deixando o gato estirado no sofá. Ela vai até a janela.
O casal do apartamento vizinho faz amor. Alice sempre gosta de chegar do serviço e assistir.
Quando acabam, os dois amantes apagam a luz do quarto. Alice volta ao sofá e aos carinhos de Roni. Nesta hora Alice costuma recordar-se de seu amor fracassado, Seleiman Abdallah, um sírio-libanês naturalizado brasileiro. Alice lembra-se das noites em que Seleiman apalpava seus seios brancos e macios com fúria animal. Agora resta a dor da solidão absoluta. Seleiman tinha apenas vinte e dois anos, Alice já passara dos trinta...Ele acabou por abandoná-la subitamente, sem remorsos ou explicações, desaparecendo sem deixar vestígios. (Exceto algumas lembranças na mente de Alice, claro.)
A moça liga a tevê, assiste várias novelas, telejornais, programas de auditório...nada a deixa satisfeita, parece impossível. Ela corre ao quarto, apanha uma caixinha branca e vermelha. Retira de seu interior dois comprimidos róseos. Vai à cozinha e observa o branco dos azulejos, bebe um copo d’água para empurrar os sedativos goela abaixo. Agora vai ficar satisfeita, enquanto durar o efeito do anti-depressivo. Dez da noite desliga a tevê, vai tentar dormir na grande cama que enche um dos quartos. Enrolada em lençóis, olhando para a brancura da parede, Alice está inquieta. Olha o relógio: onze e quinze, onze e vinte, onze e meia, onze e quarenta; Alice não dorme.
Então corre até o banheiro e enche a boca de cápsulas brancas. Engole tudo olhando para o rosto pálido e ossudo no espelho. Agora sabe que dormirá.
Brota-lhe um sonho. Ela odeia sonhos, acredita que surgem por efeito das drogas. Naquela noite surge um mar de àguas sombrias. Parece um oceano de chumbo líquido. Acima um amarelo céu, das nuvens descem raios azulados e outros verdes. Paisagem suave, mas inquietante talvez devido ao sol, enorme esfera avermelhada que desliza entre nuvens como chumaços de algodão e derrama nelas o seu rubor. O sonho desaparece subitamente.
Na manhã seguinte, Alice acorda com os olhos embaçados e forte dor de cabeça. Sai correndo, ela tem que chegar rápido ao banco. Quando eufórica devido a um bom remedinho, compra mais para tomar depois pois a depressão não tardará. Roni observa tudo, deitado sobre uma almofada de veludo, com saudade, quem sabe, da Pérsia de onde vieram seus ancestrais ou do Egito, onde os gatos eram animais sagrados: se alguém matasse um a pena era a morte...
“Como está ela, doutor?”
“Em coma profundo.”
“E o prognóstico?”
“Coma profundo. Por tempo indeterminado. Não temos expectativas...Abusou dos remédios e não foi possível fazer a lavagem estomacal a tempo...A vizinha ouviu seu grito, mas demorou a entrar no apartamento. Lamento, lamento muito.”
Eu via Alice morrer aos poucos. Ela murchava como uma flor exposta ao sol do meio-dia. Seu olhar ausente, mente exilada, mãos magras e pele viscosa formavam um quadro deveras desagradável. Soube então que eu era a única pessoa que a visitara no hospital:
“Você é namorado dela?”
“Não...”
“Você conhece alguém da família dela, ou os colegas de trabalho?”
“Infelizmente não sei dizer nada.”
“E de onde você a conhecia?”
“Não me lembro, me desculpe.”
Somente com muito esforço me lembrei: eu a conhecia da farmácia onde eu trabalhava como uma criança gerenciando uma fábrica de chocolate. Comprávamos juntos amplos estoques e injetávamos aquela estranha química em nossos corpos. Um dia saímos e, enquanto comíamos batatas fritas, Alice me contou sua primeira tentativa de suicídio, com um revólver, na adolescência. “Agora sei que basta um tiro no céu da boca...”
Ela dizia isso com um ar displicente. Eu contei que já estivera internado numa clínica psiquiátrica devido a uns comprimidinhos. Ela me olhou como se eu fosse uma reencarnação de Buda. Pareceu-lhe uma iluminação, um caminho a ser seguido. Deu-me uma cópia da chave de seu apartamento. Almocei lá num domingo, degustando frango xadrez e rolinhos à primavera enquanto ouvia revelações: “Não tenho ninguém por mim neste mundo.” Então tive de sorrir: “Eu tenho e queria que todos morressem”. Continuamos comendo em silêncio.
Quando eu soube que o fim chegara para Alice, semanas depois, com um telefonema do hospital, fui direto ao apartamento onde ela vivera -- logo depois do expediente na farmácia. Roni aproximou-se, miando. Enquanto observava os espinhos e as flores vermelho-hemoglobina do jardim do apartamento que agora ficara aos meus cuidados, eu ia recordando meu poema em homenagem à Alice, que se chamava Um Abismo Cinzento:
Ela viu sol onde sombra havia
Onde havia o mar, viu desertos
Está agora vagando...Caindo num poço sem fundo...
Afogando-se em dor coagulada,
Ela que viu fogo onde gelo havia.
Ela viu o mar de chumbo líquido
Eu sei que existe, também já vi
& em suas ondas azul-metálicas
Viu a espuma-renda suave a bordar de branco
Uma face de um abismo cinzento.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Alice no Tribunal das Maravilhas

Lúcio Emílio do Espírito Santo

Os três bigodudos irromperam na sala de visitas, colocaram suas maletas de pelica sobre a mesinha de centro e fixaram os olhos nos olhos da assustada Alice. Ela mal pôde reparar a impecável gravata do mais grisalho, o primeiro a dirigir-lhe com firmeza a palavra. Até então Alice jamais pusera em dúvida a sua própria existência. Isso mesmo. O advogado grisalho lhe dizia seca e cruamente essa verdade.
— Alice, eu não sou mitômano. Alice, você não existe. Você não é você. Amanhã você deverá comparecer à Comissão Parlamentar de Inquérito e só há um meio de você se safar das acusações que pesam contra você. Negar, negar, negar. Aquilo é um tribunal político, entendeu? O mundo ali dentro não é o mesmo mundo daqui de fora. Mais parece a toca do coelho branco de olhos cor de rosa. A Alice que irá depor não é essa Alice...
Arquelau era o nome do habilidoso advogado, perito em escândalos políticos. Vangloriava-se de jamais haver perdido uma única ação judicial contra as mais engenhosas e milionárias roubalheiras. Na sua agenda, ao lado de prefeitos, deputados ou governadores, figuravam também nomes de burocratas de todo o país, empresários e golpistas de todo tipo, especialistas em saquear os cofres públicos. Há muito tempo, quando ainda lhe restava um pouquinho de escrúpulo, numa entrevista coletiva, deixara escapar aquilo que ele depois considerou uma grande asneira. Quando o repórter lhe perguntou se não tinha problemas de consciência pelo hábito de mentir tão descaradamente, afirmou que a culpa não era dele. Infelizmente, disse, a advocacia e a mitomania são irmãs siamesas.
Depois disso, passou a abominar a expressão mitomania. A primeira coisa que dizia a seus clientes, a quem deveria instruir na delicada arte de mentir, era um enfático eu não sou mitômano. Mas Alice não reparara na palavra estranha. Remoía absorta aquele “você não é você”, que o doutor Arquelau lhe metera na cabeça.
—Mas, doutor, eu sou apenas a mulher do Charles, sou casada com ele...
—Não, Alice, no plenário da Comissão Parlamentar, você é cúmplice do Charles, entendeu? Vocês não se casaram. Vocês formaram quadrilha. Esses carrões importados, o apartamento de 500 metros quadrados em Miami, as contas na Suíça e nas Bermudas, o jatinho, essa mansão aqui, não são fruto do trabalho. Isso é produto de roubo, de propina e de desvio de dinheiro público. Aquela respeitável dona de casa, dedicada esposa do Charles Jacaré, aquela mãe extremosa que toda manhã saía num BMW azul marinho, que fazia inveja ao pessoal do condomínio, Alice, essa mulher não existe mais. Quantos milhões de telespectadores estarão vendo a verdadeira Alice, cúmplice da maior camarilha de que se tem notícia neste país?
A transformação não podia fazer-se sem muita náusea, suores frios e desmaios. Charles Jacaré havia providenciado tudo, médico, remédios e até uma ambulância. Alice relutava em acreditar que teria que mentir. Depois de alguns minutos de silêncio, com o dedo em riste, pôs-se a esbravejar:
—O mentiroso é você, Arquelau. Você está mentindo. Vocês, advogados, são todos maníacos, falsos, fantasiosos...
Antes que a mulher desesperada pudesse porventura pronunciar a detestada expressão, Arquelau foi logo se antecipando:
—Mas, Alice, eu já disse que não sou mitômano!
Passava das dez horas da noite, quando Arquelau e seus assistentes deixaram a mansão dos Jacarés. Alice recolhera-se aos seus aposentos. Sentia-se um espantalho, um mulambo ambulante. Inadvertidamente, mirou-se no espelho de cristal que Charles fizera vir da Alemanha. Depois de algum tempo, a Alice do espelho foi se transformando num rei, de barbas ruivas e beca cinzenta. Impassível, perguntou com voz tonitroante:
—Que você sabe sobre o caso?
—Nada, respondeu Alice.
—Nada de nada? insistiu o rei.
—Nada de nada, disse Alice.
Não satisfeito, o rei tornou a perguntar:
—Alice, que sabe você sobre o caso?
Alice não se rendia. O dia já clareava quando, vencido pelo cansaço, o rei desfaleceu. A mulher também estava exausta e adormeceu, não sem antes pensar na Duquesa, ou seja, na moral que tudo isso poderia ter. Aí se lembrou da menina Alice, a garotinha que tanto gostava de ler histórias. Num suspiro dolente, concluiu:
—Alice, a do país das maravilhas, estava sonhando...e eu estou bem acordada.


Lúcio Emílio do Espírito Santo é coronel reformado da PMMG e autor do livro Entendendo a Nossa Insegurança.