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sábado, 2 de abril de 2011

Blognovela Revista Cidade Sol: Episódio: "junta os papéis da tua peça que eu tenho um esquema no Ministério da Cultura"

(Anônimo e Francinny debatem os rumos da Companhia Milkshakespeare no palco em um ensaio aberto, transformando o próprio debate sobre a Lei Rouanet um ato da peça).

Francinny: Anônimo, será que isso vai dar certo?

Anônimo da Bilheteria: claro que vai, Francinny.

Francinny: Mas...não sei. Eu sempre disse que a Cia. Milkshakespeare é contra a tirania do estado. Sempre foi uma companhia libertária, anárquica. Receber dinheiro do estado, agora, na crise...

Anônimo da Bilheteria: Qualé, Francinny. Você sabe que quem escolhe é o mercado, não o estado.

Francinny: Mas quem paga é o contribuinte. Quem paga são professores miseráveis, trabalhadores da educação, pobres, miseráveis do Brasil.

Anônimo: Quem falou em Brasil? Menina, estamos em El Senor. Podemos continuar falando o que sempre falamos, que somos contra toda tirania do estado, governos, totalitarismos.

Francinny: Mas...e se alguém descobrir?

Anônimo (colocando as mãos na cintura): Escuta aqui, meu amor e revolução. Já cortamos vários atores no ajuste teatral. A coisa não pode continuar assim, senão você vai vender limão no sinal, fia. Não podemos montar Amleto com dois clowns e uma árvore seca, sacou?

Alguém da platéia: Eu já vi essa peça! É Esperando Godard.

Francinny: Sai fora, meu filho, que mané, nem me fala. Eu hein, engordar...(Volta-se para o Anônimo): Ah, não sei, fico me sentindo meio dividida, sabe.

Anônimo: Pois é, menina. Mas vê se te junta. E Junta os papéis da tua peça que eu tenho um esquema no Ministério da Cultura.

Francinny: Não tem clima, bicho. Vê o que fizeram com a Betânia agora, quase foi linchada.

Anônimo: É que Betânia e o Caetano não precisam da rede. Hoje eles são ricos. A única rede que eles precisam é a de deitar.

Francinny: Não conhece a rede e faz projeto para falar todo dia nela?

Alguém da platéia: Betânia vagabunda!

Anônimo: Não há nada além de moralismo udenista aqui!

Francinny: Não gosto de Reinaldo Azevedo, mas gosto de Jabor.

Anônimo: Jabor não rola, menina, ele não vai querer atuar na peça, o passe dele é alto.

Francinny: É preciso rever essa lei Rouanet. Com ela, medalhões ficam ganhando lucros fáceis. É que não existe política para a cultura, na prática, o mercado escolhe e o estado é quem paga, é contribuinte.

Anônimo: Gente, mas quem inventou esse negócio de ensaio aberto deveria ser um torturador astuto ou um coprófago. Fechem as cortinas que eu preciso falar com a diretora em particular, hein!

(Platéia sobe ao palco, joga tomates, grita).

Francinny (corre para recolher os tomates): Nooosa, pelo menos hoje a macarronada vai ter molho, geente!!! Obrigado, obrigado (Tenta fazer um leve gesto para agradecer, mas a chuva de tomates se adensa, o que obriga ela e Anônimo a saírem pela coxia).

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Blognovela Penetrália: Beat But Nonsense, O Império Contra-Acata

(Segundo andar de sobrado, pequena cidade do interior. Lúcio reúne alguns detritos que ganhou do cenário de Caminho das Índias: turbantes velhos, batas, incenso fedorento. Em meio aos cacarecos desse segundo andar sujo, surgem velhos fantasmas já aniquilados em outras blognovelas, pois a blognovelha penetrália já morreu e a blognovela revista cidade sol que deveria ser nova ainda não nasceu e surgem sintomas mórbidos por todos os lados).


Monólogos da Vagina: se um dia o nome que me foi dado for por alguém utilizado. Ninguém vai precisar do meu nome. Nem eu. Mas aqueles cujo nome representam algo além do nome, esses são símbolos, são avatares. O eu roubam, para esses, é algo além do nome, é simbólico, o trabalho, conteúdo. Quem pode roubar-me de mim? Não, ninguém pode. O pobre fica mais pobre, pois o que foi roubado nunca nomeará, pois esse nome e esse corpo não lhe pertencem. ISSO NÃO TE PERTENCE MAIS. Mais fica aquele que tem o nome, pois nada lhe real lhe será tirado – nem será dado. Ficou claro? Fui de mim...


Lúcio (espantado): Agora vou ficar só olhando essa conversa entre vocês fantasmas. Essa blognovela era para ter acabado quando o blog penetrália mudou para revista cidade sol. Mas não deu. Mas então o elenco, para mim, morreu. O Réquer ficou de diretor, mas ele é péssimo diretor, então tentamos conseguir o Giane M., mas não deu, ele cobra caro e está noutra.

A Cruz de Cruz e Sousa: Ah, Monólogos da Vagina, beijos loucos nas suas asas, nas suas vergonhas molhadinhas, eu te abençôo! Ah, que sonho ser dirigido por Giane M., de Não Trepe com Esses Caras, Mãe!

O Fantasma do Pai de Hamlet: O blindado M50 tem dados facilmente identificáveis, Hamlet. Poucas pessoas sabem de meu projeto, inclusive eu. Você vai poder passar por cima de seu tio e de sua mãe com uma potência do motor, velocidade de boca. Na boca de sua mãe, você explodirá um projétil, projétil na boca do canhão. Na boca de seu tio usurpador, a blindagem é choban ou sanduíche? Quais tipos de aço são usados no exército podre da Dinamarca? Há algo de Dinamarca nesse reino de podres! Nem tudo, como você vê, lhe pode ser revelado.



Fantasma de Oswald de Andrade: Sim, sim, a saclonagem é surrealista. Não sei porque a dúvida. A saclonagem deve pedir pedágio à plagicombinação, uma vez que isso é tudo culpa do canto do passarinho que canta tuíste.


Fantasma do Pai de Hamlet: Hamlet, qual a espessura da blindagem? Qual a freqüência do tiro de canhão de Fortimbrás? Qual mira Ofélia utiliza, laser, rádio-frequência ou telescó-pica? Qual a profundidade que Shakespeare pode atingir usando snorkel? Qual tipo de projétil utiliza o canhão BeckHETT, AT? Etc. E mais uma dezena de segredos.


O HEAUTONTIMOROUMENOS (um estranho fantasma entra em cena): Sou fantasma de mim sentado. Boa tarde! Lembram da polêmica do pé de alface? Não comerei da alface a verde pétala. Nem da cenoura as hóstias desbotadas. Deixarei as pastagens às manadas. E a quem maior aprouver fazer dieta.


A Cruz do Cruz & Sousa: Crux! Cruz crux clã! Não vou questionar a pesquisa, mas ali consta que um par de sandálias havaianas custam em média $21,00. Comprei semana passada por $12,90.


Monólogos da Vagina: a pessoa se utiliza do nome de Pessoa, Pessoa é um artista, admira o artista, odeia o artista, vomita o artista, vomita a própria cabeça. Sofre dupla personalidade, tripla, Álvaro de Campos, Alberto Caieiro, etc. heterônimos. HEAUTONTIMOROUMENOS. A solução, Psicologia. A vantagem é jurídica, a solução, psicológica. O nome canta tuíste, é triste e é preciso pagar as contas. Sim, devolva o nome que seus pais te deram. O nome é o patrimônio maior do cidadão e não pode ser tomado por gente ESTÚPIDA, gente HI-PÓ-CRI-TA! Gente que mente. Gente desequilibrada psicologicamente. Gente é para brilhar. Gente é para dançar. Tuíste. Tou lúcida, não estou louca.


Fantasma do pai de Hamlet: Agora diz isso para o Hamlet. Eu dou minha palavra de Oficial e Cavalheiro que li o pedido de desculpas de Hamlet para o Fantasma de Oswald de Andrade. Oswald é mesmo o rei do plágio! Quando da formatura na AMAN, recebi além do Espadin de Oficial, o título de Oficial e Cavalheiro, e esse título nem a Cruz do Cruz & Sousa poderá me tirar.


Monólogos da Vagina: Gente ESTÚPIDA! Gente HIPÓCRITA! Loucos, loucos. Sua loucura, Lúcio, a sua loucura não é lúcida, Lúcifer. Querer se aproveitar da credibilidade do Fantasma de Oswald de Andrade, da Cruz de Cruz & Sousa e do Fantasma do Pai de Hamlet! Absurdo! Gente NOJENTA, desequilibrada, ansiando por dar VISIBILIDADE às suas existências MEDÍOCRES. A sua loucura, Lúcifer.


Lúcio: Você ´tá louca, Monólogos. Minha loucura é minha consciência, que está aqui na hora da decisão.


Fantasma do Pai de Hamlet: Você abriu seu blog, fechou, seu blog é sua cidadezinha do interior, bota interior nisso, é o interior de você, é o seu interior de você, bota MG, Oswald, Hamlet, é o rei do plágio. O rei do plágio tinha linque, depois não teve mais. Oswald teve uma fase em que era pura propaganda descara de cunho esquerdista. Ponta de Lança, ah, Ponta de Lança, achei.



Alf, o Eteimoso do Vanguarda Antropofágica: Cuidado, GENTE, que eu não danço tuíste. Tem gente ociosa dançando tuíste. Meu advogado no Brasil vai entrar na justuíste.



Cruz de Cruz & Sousa: Alf, tá plagicombinando teu nome, imagem e textos. Seu tuíste é seu blog, que é sua cidadezinha interior, seu castelo de Kafka, suas ruínas tristes onde Pedro ensinou Cristo a negar Wagnernietzsche por três vezes...seu pseudotuíste vai dançar. É gente cretina e criminosa. Mete na justiça esse vagabundo! Novamente!



Alf, o Eteimoso da Vanguarda Antropofágica: Sr. Lúcio.... mais...falar...qualificada...obra...obrar...obrar...acaba de sair...meu nome...retire...retire...divulgação...pediria...não...não...ADULTO...pare...par..e...meu nome...minha foto...retire, retire...achar, eu tenho como te achar. Teucu21 está te seguindo no tuíste.

Monólogos da Vagina: A Cruz de Cruz & Sousa não dança tuíste.

Fantasma do Pai de Hamlet: Não se dirijam a mim como rei da Dinamarca.

Fantasma de Oswald de Andrade: Não se dirija a mim como Oswald nem Glauber.

HEAUTONTIMOROUMENOS: Quem escreve nunca alcança, como disse o Antônio Siúves. Escreva cada vez mais. Meu advogado te adora, teu psiquiatra te ama, pois você é um nada ou não é ninguém? Deixe o seu nada crescer, aparecer.


Alf, o Eteimoso da Vanguarda Antropofágica: Pronto! O Fantasma de Oswald de Andrade pirou de vez e assumiu a identidade do Fantasma do Pai do Hamlet e dos Monólogos da Vagina e do HEAUTONTIMOROUMENOS e da Cruz do Cruz & Sousa e...a minha própria, do Eteimoso da Vanguarda Antropofágica!!! Que bobagem, Fantasma, saia dessa, já tinha notado no seu blog, que é a sua cidadezinha interior, seu castelo de Kafka, que você é obcecado pelos Monólogos da Vagina. Não dá para ser ninguém exceto você mesmo! Vamos fazer uma vaquinha para a terapia do Alf?


HEAUTONTIMOROUMENOS: Deus é fiel.


O Fantasma de Oswald de Andrade: Acho estranho, Hamlet não precisaria disso. É mais fácil discutir sobre um AUTOR morto, sobre um rumo na vida MORTO, a gente fala ALHO, o outro entende BUGALHO, outros entendem CEREJAS, doces como mel. Deuses e anjos se estranham nessa comédia DIVINA com os Monólogos da Vagina.

Monólogos da Vagina: Fantasma, qualquer um pode discutir sobre a MORTE. Mas usando sua própria foto. A morte tem FOTO? A morte tem nome, a morte do autor é viva ou morta? Se alguém usa um fantasma de um AUTOR morto e bota ele para dançar tuíste, as opiniões ali são do Fantasma dançando tuíste, não são? Não é curandeirismo, não é macumba, é Chico Xavier trabalhando numa parceria AUTORIZADA.



Fantasma de Oswald de Andrade: Os Monólogos têm razão, é a livre plagicombinação, mas usando tuíste não, não é educado dançar tuíste, nem é educado olhar a foto da MORTE. Ela não tem nome, não tem foto. Antes de usar a OBRA de um AUTOR MORTO deve-se pedir AUTORIZAÇÃO de um AUTOR no CENTRO ESPÍRITA, pois não podemos perturbar os MORTOS nem depois da MORTE DO AUTOR. Pelo tuíste, constava como extensão Oswald de Andrade. Não, não pode. Temos que fazer a nossa própria história, famosos ou duendes da morte. Um lixeiro, um fantasma é tão importante na ordem social quanto um artista conhecido. O que vale é ser bom na profissão que escolhemos.


Lúcio (recolhe-se a um canto, triste e solitário, imaginando uma maneira de acabar com a blognovela penetrália e afugentar os fantasmas): É, para dançar tuíste exige a gente ficar o dia inteiro conectado, leva tempo.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Texto do blog do Guzik

Oi, pessoal. Taí um texto do blog do escritor Alberto Guzik: http://os.dias.e.as.horas.zip.net/
Pelo que entendi lá no facebook, ele não se recuperou ainda (foi uma cirurgia de câncer no intestino) e agora está no CTI.



14/02/2010

a solução do enigma

devo uma explicação aos meus leitores sobre os enigmas que semeei no blog ao longo das últimas seis semanas. muitos já mataram a charada. outros ainda não. explico então. vou ser amanhã submetido a uma cirurgia do aparelho digestivo. uma cirurgia de porte, pelo que me explicou o médico que fará a operação. ficarei alguns dias, ou algumas semanas, distante deste espaço. podem ter certeza de que vou sentir muita muita falta destes meus dias e destas minhas horas. mas são aquelas esquinas da vida que não podemos nem temos como evitar. sempre tive uma saúde ótima, fora uma coisinha aqui, outra ali, nada de muito relevante. mas eis que de repente vi-me surpreendido por uma doença que requer cirurgia. e que exige um período razoávelmente extenso de recuperação. certamente quando voltar a escrever aqui, vou ter muitas novidades a contar. serão aventuras de outro tipo, não artísticas, nem por isso menos essenciais. bem ao contrário. peço aos meus leitores a paciência necessária. aguardem o tempo de maturação que será necessário para que eu saia do casulo em que vou entrar amanhã. ou, para usar a imagem que empreguei muito há algumas semanas, que aguardem o fim da minha travessia (de ida e volta) do rio letes, e também o término de minha viagem ao reino de hades. estou muito cercado de afeto, de amor, de boas energias, de bons fluidos. com muita luz em meu espírito eu me despeço temporariamente de todos vocês, desejando que, enquanto eu estiver longe, a vida de todos floresça do mais belo e prazeroso e frutífero dos modos. dionisos será meu guia nessa viagem, que nada terá de teatral, mas será profundamente vital. evoé!!!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

El Topo, Jodorowsky

Encontrei essa dica de filme lendo Verdes Vales do Fim do Mundo, do Antônio Bivar, diretor de teatro que passou um ano em Londres entre 1970 e 71 e escreveu esse livrinho encantador, depois de ter convivido com Caetano Veloso, Jorge Mautner, Julinho Bressane, Sganzerla e visto shows de Grateful Dead e outros conjuntos daquele tempo. Ele não gostou desse filme. Eu adorei, é, digamos, um faroeste metafísico, farsesco e psicodélico, por essas imagens aí:



segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Sobre o Vazio Teatral II--Eis as questões...

Fiquei matutando, durante a noite, as questões pontuadas pelo professor de Teatro aí embaixo.

1) Ele quis ser o transparente possível em sua montagem de O Processo, de Kafka. No entanto, essa montagem não é transparente, pois O Processo é romance e não peça. Trata-se de um experimento autoral, sim, já realizado por Gerald Thomas, por exemplo. Para tanto, seria importante assumir um olhar autoral no Segundo Caderno, na forma cênica, etc. O olhar não é óbvio e Kafka tb não. Se mesmo assim cobraram a angústia kafkiana e o autor fez humor com Kafka, então não se está, aqui, tão longe dos escorregadios dogmas do teatro carioca. E se o malemolente teatro carioca é dogmático, o que será do alto clero da Igreja Católica e da magistratura brasiliense?

2) O autor se disse conservador e ficou temeroso em relação ao futuro de Bilontra, assim como em relação a seu próprio futuro. Porque ele sabe que a tendência é que fiquemos mais presos aos anos de formação com o passar do tempo. E ele é preso a cânone: afinal, é tão importante para um aluno entender bem o Ésquilo quanto fazer pastiche do estilo de Beckett, o que, afinal, é muito bom exercício de estilo se for bem conduzido -- aí o papel do mestre, do condutor das ovelhas do rebanho...

3) O papo do Afonso de ovelhas-guia me deixou intrigado, principalmente porque se relaciona com o fato da carta estar ligada a um movimento internacional para restabelecimento das peças compreensíveis e do cânone do sistema numa perspectiva anti-sistema. Ou entendi mal? Afonso é lobo solitário, pelo que deu a entender em sua resposta, mas um lobo solitário pode guiar uma ovelha desgarrada que entra em choque, ao mesmo tempo, com as chanchadogmas do teatro rebolado karyoka e as hipóteses da academia. Aliás, alguém da academia não pode começar "limpando a área". Deve pesquisar a área, ler e ter conhecimento das interpretações de Kafka, optando por uma delas, citando as demais. Mas começar "limpando a área"...Isso não seria um efeito meio "Hitler Reichstag 1933?" Ele também começou "limpando a área". Claro que sei que o diretor de Bilontra não teve essa intenção. Mas a interpretação é importante e só faço esse paralelo para ressaltar isso.

domingo, 28 de dezembro de 2008

Sobre o Vazio Teatral (do Blog do Afonso)

Publico acima uma postagem do blog do Afonso Romano e pergunto: os festivais de teatro contemporâneo não aceitam peças "compreensíveis"?



AGORA O "VAZIO" TEATRAL
Enviada por as 23:22 - 27/12/2008


NOTA: ESTA CARTA RETRATA UM MOVIMENTO QUE NÃO É SÓ BRASILEIRO, MAS INTERNACIONAL, E ESTÁ SE ALASTRANDO EM VÁRIOS ESPAÇOS ARTÍSTICOS







Prezado Affonso Romano de Sant\'Anna,

Sou diretor teatral no Rio de Janeiro e professor na Escola de Comunicação da UFRJ. Consideradas apenas essas duas qualificações, teria eu todos os motivos para discordar de suas idéias em "O Engima Vazio", e mesmo dedicar o precioso horário de meus ensaios (teatrais) e aulas a difamar seu livro e o pensamento que ele expressa. Milito, afinal de contas, em dois campos dogmáticos da "contemporaneidade": o teatro carioca e academia brasileira.

O que ocorre comigo, no entanto, é exatamente o oposto: encontro em sua obra (e nas entrevistas a respeito dela) a sistematização de muito do que venho percebendo como artista e formador de outros artistas (sou professor de direção teatral), tanto em relação à própria criação

artística quanto à crítica que dela se faz. Por um lado, sofro na pele a discriminação de propor, como encenador, um teatro de clareza e respeito à inteligência do público; por outro, como docente,perturba-me a constante batalha contra o que meus pares semeam irresponsavelmente na cabecinha indefesa dos bacharelandos, um bombardeio de "pós-isso", "des-aquilo" e outras variações aleatórias de prefixos que tentam dar novos significados às coisas velhas, ou a coisa nenhuma.

Dirigi recentemente espetáculo adaptado de "O Processo", de Kafka, que esteve em cartaz no Maison de France. Kafka é, de certa forma, um "Duchamp" da literatura, no sentido de que sobre ele já se teorizou muito mais do que o próprio escritor desejaria. "Limpar a área" de toda a impostura analítica sobre o tcheco foi esforço constante na construção da peça, de minha adaptação. Procurei contar a história que no romancese conta, sem lançar declaradamente o "meu olhar" sobre a obra; ou melhor, fazendo isso na função de diretor que interpreta seu texto sob

forma cênica, e não no programa da peça ou na entrevista do "Segundo Caderno". Mas fui cobrado, pelo que se chama de "crítica teatral" no Rio, exatamente pela falta da "angústia kafkiana" e pela "heresia" deinvestir no humor de um autor "tão sombrio". Agora estou para estrear "O Bilontra", torcendo para que não haja, sobre Arthur Azevedo, carga tão pesada de "TIORIA" (assim mesmo, com "I"). Na faculdade, luto para que alunos-diretores procurem entender Ésquilo,já bastante complexo, antes de macaquearem Beckett. É tarefa árdua e ingrata, porquanto nas demais aulas muito se ouvem as doutrinações da "pós-modernidade" e da "des-construção", sem que ninguém tenha explicado o que é moderno ou como se constrói algo. Sou o "careta", o "ranzinza", o "ultrapassado". Tudo isso aos 43 anos; imagine quando eu completar 60! Parece que o sonho de cada estudante é emplacar uma vaga nos próximos festivais de "teatro contemporâneo", que invariavelmente recusam inscrição às peças compreensíveis.

Enfim, não lhe tomarei mais tempo com a descrição de atrocidades que já são de seu conhecimento. Escrevo-lhe somente para cumprimentá-lo por sua reflexão sadia e desejar-lhe um Feliz 2009.

E se quiser aparecer em "O Bilontra", a estréia é no dia 13/1, no Solar de Botafogo, onde aliás também está em cartaz a excelente "Traição" (produção com a qual não tenho nenhuma relação), de texto do Harold Pinter, falecido ontem como o último dos dramaturgos lúcidos...



Um abraço cordial,

José Henrique Moreira





José Henrique, meu caro:



Claro que gostei de sua carta, pela franqueza e pela lucidez. E você captou bem: a partir da crise evidente nas artes plásticas temos que proceder a uma análise de todo o sistema artístico atual. Não para voltar ao passado, mas para por no seu devido lugar as "in-significâncias" que pretendem passar por criatividade.

Neste sentido, tenho recebido emails e mensagens de artistas em várias áreas, alguns acuados, outros desiludidos, muitos revoltados, todos querendo resolver essa " aporia" em que nos metemos e que faz parte de uma questão maior que só pode ser encaminhada com uma análise crítica da modernocontemporaneidade.

Com clareza você assume o peso de estar "em dois campos dogmáticos da "contemporaneidade": o teatro carioca e academia brasileira". Este o desafio: pensar o sistema, a despeito do sistema, além do sistema, sem se enquadrar na "ideologia dominante". Lembro-me de uma frase do poeta alemão Enzensberger, que ironicamente retrata a pretensão de muita gente que conhecemos:entrando para o rebanho, muitos carneiros se julgam carneiros-guias.

Quem sabe está surgindo a ocasião e o espaço para uma discussão que interessa a muitos criadores dentro e fora do Brasil?



ARS

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Blognovela Capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

Blognovela Penetrália, capítulo 7 e fim: FOGO NOS TEATROS!

(Lúcio e o elenco restante da blognovela deslocam-se para um teatro mofado, no centro do Rio de Janeiro. Enquanto eles atuam, no fundo do palco passam ratos e baratas, MILHARES. Lúcio já sapateando, encontra-se com Mário, João Paulo e Mariana, personagens das propagandas do governo federal).

Lúcio: pessoal, reli algumas coisas e não encontrei o capítulo 1 dessa blognovela. Queria acabar tudo agora, mas como? Como acabar algo que não começou?

Mariana (andando em círculos e desviando das baratas e ratos): ora, você achou que isso aqui era os monólogos da vagina? Tende paciência! E esses bichos horrorosos aí?

Lúcio: todo teatro brasileiro tem.

Mariana: mas o que vejo no Brasil é de dar medo.

Lúcio: pode ir queixar-se ao Lula. Foi ele que inventou vocês, junto com a agência W/Brasil. Vocês vivem no mundo possível, enquanto eu vivo no mundo real, vocês são replicantes que inventei para implicar e praticar minhas implicâncias. Misery. Back to misery. Feliz o país que tem sua independência no sete de setembro. Lula tá contando com o pré-sal no cu da galinha.

Mariana: grosso! A Marisa tem tailleurs bonitos como os da Marta e...

João Paulo (chorando ao celular): buá, essa blognovela tem mesmo que acabar? Mas nem começou!

Lúcio: ela começou inspirada na blognovela do Gerald e nos monólogos que estão aqui nesse blog. Metablog.

Mário (entra empunhando uma guitarra, faz um solo, com uma banda de acompanhamento): agora eu não ouço mais a minha abelha amiga! Eu faço rock e não a escuto mais! Eu estou tocando na banda HORTA!

João Paulo (pára o choro subitamente): vamos comer queijo camembert?

Mariana: Onde você encontrou camembert?

João Paulo: ali nas cadeiras, estão todas de queijo camembert francês. E esse teatro nem é do circuito SESC, senão seria mais chique. Comeríamos sapo barbudo com pernas de rã com vinho de uvas PT light. Lula era um sapo barbudo que a elite devorou goela abaixo com a gula de quem come pernas de rã num restaurante chique. Aliás, esse papo me deu água na boca. Onde tem churrasco de rã em Sampa?

Mariana (eufórica): tão vendo, bem que o Lula disse que tá pintando uma nova classe média!

Mário: Ah, Mariana. Lula tá comemorando o pré-sal no sete de setembro para esconder nossa nudez transatlântica e a falta de projetos. Projeto de nação. Obras. PAC, saci, César Benjamin, PSOL.

Mariana (tá um tapa na orelha de Mário): pirou?

Mário: preciso tocar sempre a guitarra, senão escuto a abelha, ai (dá um tapa na própria orelha). Lula estava é fazendo politicagem eleitoreira.

João Paulo: Mariana, você deixou um refletor ligado. Pois é, não vamos ofender o nosso PAI indireto. Ele gosta tanto de metáforas familiares. Falava que tava construindo a casa no tempo do Fome Zero. Agora a casa é zero. Ruínas.

Lúcio: Não tenho nada com isso. Não tem. Não. Já leram Wayne Booth falando de Company, do Samuel Beckett. Imagine.

Mariana (nervosa e com pressa): gente, preciso desligar aquele refletor. Meu Deus. Não é para lá. Não é para lá. Meu Deus. Meus pés não me obedecem. Não gosto disso do Beckett, começa na terceira pessoa, depois entra o eu, parece confuso, parece meus pés.

Lúcio (sapateando intensamente): Hoje vou me curar de meu sapateado vivendo uma grande emoção. Vou trancar vocês, personagens de propaganda do governo federal, e vou matá-los nesse teatro. TRATA-SE DE UM PROTESTO CONTRA A SITUAÇÃO DOS TEATROS BRASILEIROS! AGORA FORAM VOCÊS, MAS NO FUTURO PODERÃO SER PESSOAS DO MUNDO REAL! PODEM OCORRER MORTES! MORTES! MORTES! FOGO NOS TEATROS BRASILEIROS!

(Lúcio corre, mesmo sapateando, e fecha os demais colegas dentro do teatro em chamas. Fumaça. Gritos. Pancadas desesperadas na porta fechada. Lá fora, enquanto o teatro arde em chamas matando João Paulo, Mariana e Mário, ele fica observando um painel de Portinari, monologa, ri, chora...)