quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Artigo de Dugin sobre Dostoyevskiy

 Um antigo artigo de Alexander Dugin;


Alexander Dugin
AXE É O NOME DO MEU
(Dostoyevskiy e a metafísica de São Petersburgo)

O AUTOR QUE ESCREVEU A RÚSSIA

O principal escritor da Rússia é o romancista Fyodor Mikhaylovich Dostoyevskiy. A cultura russa e a mentalidade russa se acumulam para ele, como se em algum ponto mágico. Todo o anterior antecipa Dostoyevskiy, todos os seguintes resultados dele. Sem dúvida, ele é o maior gênio nacional da Rússia.

A herança de Dostoiévski é imensa e quase todos os investigadores concordam com a importância central de seu romance "Crime e Castigo". Se Dostoiévski é o principal autor da Rússia, "Crime e Castigo" é a principal obra da literatura russa e o texto fundamental da história russa.*

Consequentemente, não há nada de acidental ou arbitrário nisso, e não pode haver. Certamente este livro deve conter algum hieróglifo misterioso, no qual todo o destino russo está concentrado. Decifrar esse hieróglifo equivale a conhecer o insondável mistério russo.


A TERCEIRA CAPITAL - A TERCEIRA RUSS

O romance se passa em São Petersburgo. Este fato, em si, tem um significado simbólico. Qual é a função sagrada de Petersburgo na história da Rússia? Compreendendo isso, nos aproximamos da posição de Dostoiévski.

São Petersburgo assume um significado sagrado apenas em comparação com Moscou. Ambos os capitais estão ligados entre si por uma lógica cíclica, por um fio simbólico. A Rússia teve três capitais. A primeira - Kiev - era a capital de um estado nacional, etnicamente uniforme, situado na periferia do Império Bizantino. Essa formação da fronteira norte não desempenhou um papel civilizacional ou sagrado muito importante. Um estado comum para os bárbaros arianos. Kiev é a capital da etnia russa.

A segunda capital - Moscou - é algo muito mais importante. Ele assumiu um significado especial no momento da queda de Constantinopla, quando Russ se tornou o último reino cristão ortodoxo, o último império cristão ortodoxo restante.

Daí segue: "Moscou é a Terceira Roma". A ideia do Reino na tradição cristã ortodoxa tem um papel escatológico especial: o Estado, ao reconhecer a plenitude da verdade da Igreja, é, segundo a Tradição, o obstáculo no caminho do "filho da ruína", o obstáculo ao advento da o "Anticristo".

O Estado Cristão Ortodoxo, reconhecendo constitucionalmente a verdade do Cristianismo Ortodoxo e a influência espiritual do Patriarca, é o "catechon", ou "dissuasão" (da segunda Carta do Apóstolo São Paulo aos Tessalonicenses). A introdução do Patriarcado na Rússia tornou-se possível apenas no momento em que o Império Bizantino caiu como um reino e, conseqüentemente, o Patriarca Constantinopolitano perdeu seu significado escatológico. Pois este significado está concentrado não apenas na hierarquia da Igreja Cristã Ortodoxa, mas no Império que reconhece a autoridade dessa hierarquia. Daí segue o significado teológico e escatológico de Moscou, de Moscou Russ. A queda do Império Bizantino significou, na visão apocalíptica do cristianismo ortodoxo, a aproximação do " adiar o momento em que sua chegada se torna um fenômeno geral, universal. Moscou desde então é a capital de um Estado essencialmente novo. Não um Estado nacional, mas soteriológico, escatológico, apocalíptico. A Russ de Moscou, com seu Patriarca e Rei Cristão Ortodoxo (ou Czar), é uma Russ absolutamente diferente da de Kiev. Não está mais na periferia do Império, mas é a última fortaleza da salvação, a Arca, o terreno aberto para a descida da Nova Jerusalém. "Não haverá o quarto". adiar o momento em que sua chegada se torna um fenômeno geral, universal. Moscou desde então é a capital de um Estado essencialmente novo. Não um Estado nacional, mas soteriológico, escatológico, apocalíptico. A Russ de Moscou, com seu Patriarca e Rei Cristão Ortodoxo (ou Czar), é uma Russ absolutamente diferente da de Kiev. Não está mais na periferia do Império, mas é a última fortaleza da salvação, a Arca, o terreno aberto para a descida da Nova Jerusalém. "Não haverá o quarto". é um russo absolutamente diferente do kievano. Não está mais na periferia do Império, mas é a última fortaleza da salvação, a Arca, o terreno aberto para a descida da Nova Jerusalém. "Não haverá o quarto". é um russo absolutamente diferente do kievano. Não está mais na periferia do Império, mas é a última fortaleza da salvação, a Arca, o terreno aberto para a descida da Nova Jerusalém. "Não haverá o quarto".

São Petersburgo é a capital da Rússia que vem depois da Terceira Roma. Em certo sentido, esse capital não existe, não pode existir. "Não haverá uma Quarta Roma". São Petersburgo estabelece a Terceira Rússia. Terceiro pela qualidade, estrutura e sentido. Não é um estado nacional, nem uma arca soteriológica. É uma estranha quimera titânica, o país 'post mortem', a nação que vive e se desenvolve em um espaço que está além da história. Petersburgo é uma cidade de "Nav" ("a encarnação da morte", russo antigo), uma cidade do outro lado. Daí segue a assonância do rio Neva (no qual está situada Petersburgo) e do Nav. A cidade do luar, da água, das construções estranhas, alheias ao ritmo da história, à estética nacional ou religiosa. O período de Petersburgo da história russa foi o terceiro sentido de seu destino. Aquele era um tempo de russos especiais, de outros além da arca. Os velhos crentes foram os últimos a embarcar na arca da Terceira Roma pelo fogo batizado que entregou suas cabanas junto com eles às chamas.

Dostoiévski é o escritor de Petersburgo. Ele não é inteligível sem Petersburgo. Mas a própria Petersburgo permaneceria no estado virtual e ilusório sem Dostoiévski. Dostoiévski o reviveu, tornou atual essa cidade enigmática, tendo revelado seu sentido (só então existe alguma coisa, quando seu sentido se mostra por si mesmo).

Somente em Petersburgo aparece a literatura russa. O período de Kiev é o período das lendas épicas. O período de Moscou é o tempo da soteriologia e da teologia nacional.

Petersburgo traz a literatura para a Rússia, o rudimento profano do que costumava ser um pensamento nacional valioso, o traço exaltado do que se foi. A literatura é um invólucro, um pontinho superficial de ondas siderais, um vácuo que geme de desespero. Dostoiévski atendeu tanto a esse apelo ao vazio que tudo o que se foi, apagou, esqueceu foi, por assim dizer, ressuscitado em seu heroico fazer espiritual.

Dostoiévski é mais do que literatura. Ele é teologia, lenda épica. Portanto, sua Petersburgo busca a ideia, o sentido. Volta-se constantemente para a Terceira Roma. Ele examina agonizantemente as fontes da nação.

O personagem principal de "Crime e Castigo" chama-se Raskolnikov, sendo uma referência direta ao Cisma (ou "Raskol"). Raskolnikov é um homem da Terceira Roma, "geworfen" (ou "jogado") em navi Petersburgo. A alma sofredora, que por uma estranha lógica de repente se encontrou após a autoimolação no labirinto úmido das ruas de Petersburgo, paredes amarelas, estradas molhadas e céus cinzentos sombrios.


A CAPITAL

O enredo de "Crime e Castigo" é um análogo estrutural de "O Capital" de Marx: a profecia da próxima Revolução Russa. Foi simultaneamente um rascunho para uma nova teologia, uma teologia do abandono de Deus, que se tornaria o principal problema filosófico do século XX. Essa teologia poderia ser chamada de "

A história é extremamente simples. O estudante Raskolnikov percebe nitidamente a realidade social como uma revelação do mal, uma sensação especial que é tão característica em alguns ensinamentos escatológicos gnósticos.

O cianeto de potássio da civilização. A degeneração e o vício florescem onde se perdem as conexões orgânicas, os significados espirituais e as espirais anagógicas das hierarquias que ascendem desimpedidas ao céu. A percepção da realidade profana. A perda insuportável da "Terceira Roma". O horror antes do encontro com o elemento universal do Anticristo, com Petersburgo. Raskolnikov adivinha absolutamente corretamente que o pólo simbólico do mal é uma feminilidade pervertida (Kali). Esse é o maldito capital de empréstimo da religião, que iguala os vivos aos mortos e cria monstros. Essa é a decadência, a degradação do mundo. Tudo isso é a velha usurária, a Baba-Yaga do mundo moderno, a Mulher-Inverno, a Morte, a assassina. Fora de seu lugar sujo ela tece a teia de Petersburgo, enviando por suas ruas negras Luzhins,

As labutas do submundo envolvem tabernas e bordéis, antros de miséria e ignorância e escadarias e portais mergulhados na semi-escuridão. Por causa de sua feitiçaria senil, Sophia, a sabedoria de Deus, se volta para a lamentável Sonechka com o bilhete amarelo. O centro da roda do mal de Petersburgo é encontrado. Rodion Raskolnikov completa o reconhecimento ontológico. Certamente, Raskolnikov é um comunista. Embora esteja mais próximo dos socialistas-revolucionários, dos narodniks. Certamente, ele está familiarizado com os ensinamentos sociais contemporâneos. Ele conhece línguas estrangeiras e poderia ter se familiarizado com o "Manifesto" de Marx ou mesmo com "O Capital". O importante está no início do "Manifesto": "...um espectro vagueia pela Europa...". Isso não é uma metáfora, é uma definição precisa daquele modo especial de ser que surge depois que uma sociedade se torna profana, depois da "morte de Deus". A partir desse momento, estamos no mundo dos fantasmas, no mundo das visões, quimeras, alucinações, das tramas navi.** Para a Rússia, isso significa "viajar de Moscou a Petersburgo", a encarnação na cidade às margens do Neva, na a cidade-fantasma. Esta encarnação nunca poderia ser completa.

O espectro comunista torna toda a realidade fantasmagórica. Instalado na consciência do aluno, que busca o Logos perdido, ele o mergulha em uma corrente de visões distorcidas: ali um velho libertino arrasta uma adolescente bêbada para algum lugar; ali Marmeladov chora de partir o coração, depois de ter vendido o último xale de sua amada para conseguir dinheiro para o álcool; lá o demoníaco Svidrigaylov, o enviado da eternidade da teia, que está sob a proteção do velho usurário, se aproxima da irmã pura de Rodion. Mas isso é uma ilusão? O fantasma, tendo possuído a consciência, de fato livra a inconsciência. A realidade revelada é assustadora, intolerável, mas verdadeira. É mau entender o mal? É uma ilusão revelar o caráter ilusório do mundo? É loucura perceber que a humanidade vive de acordo com as leis da má lógica? O fantasma do marxismo, o narcótico da revelação, o chamado gnóstico à revolta contra o maligno Demiurgo... A dor sangrenta dessas feridas é mais aguda do que a imagem de um salão bem iluminado, cheio de casais bem vestidos, girando no dança.

Raskólnikov, matando a velha velha, comete um gesto paradigmático, realiza um Ato ao qual, de forma arquetípica, se reduz a Práxis tal como o marxismo a percebe. O Ato de Rodion Raskolnikov é o ato da Revolução Russa, o resumo de toda a literatura social-democrata, narodnik e bolchevique. Trata-se de um gesto fundamental da história russa que só surgiu depois de Dostoiévski, tendo sido preparado muito antes dele em enigmáticos pontos iniciais do destino nacional. Toda a nossa história é dividida em duas partes - antes do assassinato do velho usurário por Raskolnikov e depois do assassinato. Mas sendo um momento fantasmagórico e supertemporal, ele lança flashes para frente e para trás no tempo. Manifesta-se nas revoltas camponesas, nas heresias, nas rebeliões de Pugachov e Razin, na cisão da Igreja Cristã Ortodoxa (Cisma, Raskol), no advento do tempo sombrio (os eventos no início da Rússia do século XVII), em toda a metafísica complicada, multi-estágio e insaciável do Assassinato Russo, que se espalhou desde a profundidade do nascimento eslavo inicial até o Terror e Gulag. Qualquer mão levantada sobre o crânio de uma vítima era impelida por uma explosão apaixonada, vaga e profunda. Foi a participação na Escritura Comum e sua filosofia. Killing and Death aproxima a Ressurreição dos Mortos. Foi a participação na Escritura Comum e sua filosofia. Killing and Death aproxima a Ressurreição dos Mortos. Foi a participação na Escritura Comum e sua filosofia. Killing and Death aproxima a Ressurreição dos Mortos.

Nós, russos, somos uma nação abençoada. Portanto, todas as nossas manifestações - sublimes e surradas, graciosas e aterrorizantes - são santificadas por sentidos sobrenaturais, pelos raios da cidade sobrenatural, são lavadas pela umidade transcendente. Na abundância da Graça nacional, o bem e o mal se misturam, fluem de um para o outro e, de repente, a escuridão se ilumina, enquanto algo branco se torna um mero inferno. Somos tão incognoscíveis quanto o Absoluto. Somos uma nação divina. Mesmo nosso Crime é incomparavelmente superior à virtude de algum outro.


NÃO "MATA NÃO"

Entre meados do século 19 e o início do século 20, a consciência russa estava estranhamente possuída pela compreensão de um dos dez mandamentos - "não mate". Eles discutiram como se fosse a essência do cristianismo. Teólogos, revolucionários e terroristas o repetiam constantemente (Savinkov era louco por esse mandamento), assim como humanitários, progressistas e conservadores. Tanto o tema quanto a argumentação em torno dele foram tão importantes que afetaram, de forma considerável, toda a consciência russa moderna. Embora o significado dessa fórmula tenha desaparecido com o advento dos bolcheviques, ela ressurgiu no final do período soviético e começou a assombrar os cérebros dos intelectuais com força renovada. "Não matar" não é exatamente um mandamento cristão e do Novo Testamento, mas é o judaico e do Antigo Testamento. Esta é uma parte da Lei, a Torá, que regula, como um todo, as normas exotéricas, externas, sociais e éticas da vida popular israelense. Esse mandamento não tem nenhum significado especial. Você pode encontrar algo análogo na maioria das tradições, em seus códigos sociais. No hinduísmo, o equivalente é chamado de "ahimsa", "não-violência". Este “não matar”, assim como os demais parágrafos da Lei, regulam a liberdade humana, direcionando-a para o riacho que, segundo o espírito da Tradição, pertence à melhor parte, ao seu “lado direito” . Além disso, é significativo que "não matar" não tenha nenhum sentido metafísico absoluto. Assim como todas as estátuas exotéricas, este mandamento serve apenas com os outros para manter a existência coletiva em ordem e para evitar que a comunidade caia no caos ("A Lei nada cometeu", segundo São Paulo Apóstolo). Em princípio, se compararmos a realidade veterotestamentária com a moderna, a fórmula "não matar" corresponde aproximadamente à inscrição "é proibido fumar", afixada no foyer do teatro. Fumar no teatro não é permitido, não é bom. Quando alguns espectadores tensos começam a fumar, é um estado de emergência para os lanterninhas. Essas pessoas são condenadas pela opinião pública e submetidas à repressão dos servidores da justiça. segundo São Paulo Apóstolo). Em princípio, se compararmos a realidade veterotestamentária com a moderna, a fórmula "não matar" corresponde aproximadamente à inscrição "é proibido fumar", afixada no foyer do teatro. Fumar no teatro não é permitido, não é bom. Quando alguns espectadores tensos começam a fumar, é um estado de emergência para os lanterninhas. Essas pessoas são condenadas pela opinião pública e submetidas à repressão dos servidores da justiça. segundo São Paulo Apóstolo). Em princípio, se compararmos a realidade veterotestamentária com a moderna, a fórmula "não matar" corresponde aproximadamente à inscrição "é proibido fumar", afixada no foyer do teatro. Fumar no teatro não é permitido, não é bom. Quando alguns espectadores tensos começam a fumar, é um estado de emergência para os lanterninhas. Essas pessoas são condenadas pela opinião pública e submetidas à repressão dos servidores da justiça. é um estado de emergência para os lanterninhas. Essas pessoas são condenadas pela opinião pública e submetidas à repressão dos servidores da justiça. é um estado de emergência para os lanterninhas. Essas pessoas são condenadas pela opinião pública e submetidas à repressão dos servidores da justiça.

É muito significativo que o Antigo Testamento esteja cheio de desafiadora não observância desse mandamento. O assassinato está por toda parte. É cometido não apenas por pecadores, mas também por homens justos, reis, soberanos ungidos e até mesmo profetas. O aluno favorito de Elias, o profeta Eliseu, era especialmente severo: ele não tinha misericórdia nem mesmo dos pequenos inocentes. Eles mataram durante as guerras, mataram nativos e estrangeiros, mataram criminosos e aqueles que mataram, mataram mulheres. Eles não tiveram piedade de crianças, idosos, goyim, profetas, idólatras, feiticeiros, sectários, parentes. Muitas coisas foram destruídas. No Livro de Jó, Yahweh - sem nenhuma razão especial, exceto uma controvérsia bastante superficial com Lúcifer - trata de forma sádica seu próprio homem escolhido e virtuoso.

Quando este último, coberto de lepra, fica indignado com isso, Jahwe o intimida com dois monstros geopolíticos***: a terra chamada Behemoth e o mar chamado Leviatã, ou seja, Jahweh o mortifica também no sentido moral. A investigação bíblica moderna prova de forma convincente que o texto original do Livro de Jó chega ao seu fim no auge da tragédia, e o fim ingênuo e moralista foi acrescentado pelos levitas muito tempo depois, que ficaram aterrorizados com a natureza rígida e primordial daquele mais arcaico de fragmentos do "Antigo Testamento".

Em outras palavras, no contexto judaico de onde foi tirado diretamente o mandamento de "não matar", ele não tem nenhum caráter absoluto nem nenhum significado especial.

Não houve controvérsia sobre esse tema e, aparentemente, nenhuma reflexão foi feita com qualquer propósito expresso. Isso não quer dizer que o mandamento nunca foi levado em consideração. Foi: eles tentaram não derramar sangue sem propósito. Eles também tomaram cuidado com o tribunal rabínico. Se alguém foi morto em vão, uma punição se seguiu. A lei habitual. O mandamento ordinário. Nada especial. O padrão de conduta humana. No cristianismo tudo é diferente. Cristo é o cumprimento da Lei. A Lei termina com ele. A missão da Lei é cumprida. Em certo sentido, é removido da agenda. Exatamente "removido", mas não revogado. Os problemas espirituais passam para um plano radicalmente diferente. A partir de agora começa o Pós-Lei, a era da Graça. "A proteção da Lei é superada". A rigor,

Até mesmo o primeiro mandamento de adorar o Único Senhor é superado pelo Novo Testamento, pelo Preceito do Amor a Ele. Através da Encarnação, o Logos-Deus traz relações absolutamente novas entre o Criador e toda a criação, e entre as próprias criaturas. A partir de então tudo se passa sob o signo do Emanuel, pela fórmula benéfica, “Deus está conosco”. Deus não está em algum lugar distante, Ele desempenha não apenas o papel de Juiz e Legislador, mas também o papel de Amado e Amado. O Novo Mandamento não rejeita os dez anteriores, mas os torna desnecessários.

A humanidade do Novo Testamento é fundamentalmente diferente da antiga, judaica (ou pagã). Ele carrega o sinal do Amor transcendente. É por isso que a dicotomia da Lei - "adorar - não adorar", "singular - plural", "roubar - não roubar", "seduzir - não seduzir" e, finalmente, "matar - não matar" - não faz sentido não mais.

Na santidade cristã, todos os meios são expressos positivamente. O novo homem não precisa de regras aqui, ele vive para uma coisa - o Amor sóbrio, eterno e não diluído, permanecendo em oração e contemplação. Aqui, não existe apenas "matar não". Os santos cristãos ririam de tal cautela, pois neles a dualidade já foi abolida, a barreira entre o eu e o não-eu foi esmagada. Além disso, eles querem ser mortos, aspiram a sofrer, anseiam pelo martírio. No entanto, a valiosa vida cristã não tem nenhuma relação com os antigos Dez Mandamentos. Eles são superados de uma vez por todas no sagrado batizado. Além disso, há apenas a realização da Graça.

Mas vamos considerar um cristão não na santidade, não na vida monástica, não no ascetismo e na vida eremita. A ideia estabelecida pela ordem do Antigo Testamento será válida para ele? Não. Ele é batizado, o que significa nascido do alto, e consequentemente Deus também está com ele. Dentro, mas não fora. Portanto, mesmo sendo pecador, também o indigno vive além do velho, no novo ser, na corrente da luz imerecida da Graça. Observar ou não a legislação do Antigo Testamento nada tem a ver com a essência íntima da existência cristã.

Claro, é mais conveniente para uma sociedade lidar com aqueles que são obedientes e observam as regras. Para uma sociedade cristã também. Mas tudo isso não tem nenhuma medida comum com o sacramento da Igreja, com a vida mística do crente. Aqui começa o elemento mais interessante. Um cristão, ao transgredir algum mandamento do Antigo Testamento, de fato demonstra que não completou em si mesmo a natureza misteriosa do Homem Novo, a personalidade potencial lançada pelo Espírito Santo na fonte batismal.

Mas quem pode se gabar de ter alcançado a deificação total? Quanto mais alguém é santo, mais mesquinho, pecaminoso, terrível ele parece a si mesmo diante da face da Trindade Brilhante. Consequentemente, como no caso dos yurodivy ("os tolos de Deus") que menosprezavam o aspecto humano, a queda pode ser, paradoxalmente cristã, um sacramento.

Observar os Dez Mandamentos não é fator decisivo para um cristão ortodoxo. Só uma coisa é importante para ele: o Amor, o Novo - absolutamente Novo - Testamento, o Testamento de Amor. Os Dez Mandamentos sem Amor é o caminho para o inferno. E se o amor é, então eles não têm mais significado. Tudo isso estava claro para os intelectuais russos radicais. No livro de Boris Savinkov, "The Pale Horse", um terrorista chamado "Vanya" (um personagem literário, inspirado por Ivan Kalyayev) diz antes de cometer um assassinato: "E o outro caminho - o caminho de Cristo para Cristo... Ouça, se você ame muito, ame de verdade, então você pode matar, não pode?"

E ainda -

"... é preciso passar por um tormento de cruz, é preciso decidir fazer tudo isso por amor e por amor. Mas absolutamente por amor e por amor... Então eu vivo, e para quê? Talvez eu viva para minha morte -hora. Eu oro: Senhor, me dê a morte em nome do amor. Você não pode orar por assassinato, pode?".

Savinkov viveu, pensou, escreveu e assassinou depois de Dostoiévski. Mas nada é adicionado a Raskolnikov. Raskólnikov mata não apenas pelo bem da humanidade (embora também por ela), ele mata pelo amor. Para passar pelo sofrimento, ele tem que morrer, matar a morte em si e nos outros. Ivan Kalyayev, assim como o próprio Savinkov, são pessoas profundamente russas, profundamente cristãs ortodoxas, profundamente "dostoievskianas": tendo um caráter evidentemente divino, junto com toda a nação, e repletas de um pensamento cristão ortodoxo, paradoxal e elevado, um comparação que torna insípidos os mais refinados e profundos esquemas filosóficos ocidentais. Os russos não formulam uma teologia, eles a suportam, a vivem por toda a vida. Esta é a teologia, vindo pelos poros, pela respiração, pelas lágrimas, através do sono e caretas de cólera. Através do tormento e da tortura. Através do elemento úmido e sangrento, carnal e espiritualizado da Nova Vida.

Com amor e pelo amor de amor, pode-se fazer tudo. Isso não significa que se deva fazer tudo e que todos os mandamentos devam ser revogados, rejeitados. Em hipótese alguma. Deve-se apenas demonstrar com a própria vida e gestos que existe - e isso é o principal - outra medida de ser, a nova luz, a luz do Amor.

O local do assassinato do velho usurário é São Petersburgo. Portanto, este é o lugar do Amor na Rússia, locus amoris.

Rodion levanta duas mãos, dois signos angulares, dois plexos tendinosos, duas runas sobre o crânio murcho de inverno da Capital. Em sua mão há um item grosseiro, grosseiro e grosseiro. Com este item, o ritual central da história russa e do mistério russo é cometido. O fantasma se materializa, o momento sai do sistema do tempo terreno (Goethe teria enlouquecido imediatamente, ao ver qual momento de fato parou...). Duas teologias, dois testamentos, duas revelações se encontram no ponto mágico. Este ponto é absoluto.

Machado é o seu nome.


LABRIS

A curta genealogia do machado.

As hipóteses mais brilhantes sobre este item - sua origem e seu simbolismo - foram avançadas por Herman Wirth, um gênio científico alemão e especialista na esfera da pré-história humana e das letras antigas. Wirth mostrou que o machado duplo era o símbolo primordial do ano, do círculo, de suas duas metades, uma após o solstício de inverno, a outra antes dele. O machado padrão (não duplo) simboliza correspondentemente uma metade do ano, como regra a primavera, a metade ascendente.

Além disso, o uso utilitário de um machado para cortar árvores, também de acordo com Wirth, guarda uma relação com o simbolismo anual, pois a Árvore na Tradição significa Ano. Suas raízes são os meses de inverno, sua coroa são os de verão. Portanto, o corte de árvores está correlacionado, no contexto simbólico primordial das sociedades sagradas, com o advento do Ano Novo e o fim do antigo.

O Machado é simultaneamente o Ano Novo e o instrumento com o qual o velho é destruído. Simultaneamente é um instrumento cortante, dividindo o Tempo, cortando o cordão umbilical de sua extensão no ponto mágico do Solstício de Inverno, quando se dá o maior Mistério de morte e ressurreição do Sol.

A runa no antigo calendário rúnico representando o machado era chamada de "thurs" e era dedicada ao deus Thor. Caiu nos primeiros meses do ano novo. Thor era o Deus do Machado ou seu equivalente simbólico, o Deus do Martelo ou Miollnir. Com este Machado-Martelo, Thor esmagou o crânio da Serpente do Mundo, Irmunganthr, que flutuava nas águas inferiores da escuridão. Novamente o óbvio mito do solstício, conectado com o ponto do Ano Novo. A Serpente é o Inverno, o frio, as águas baixas do ano Sagrado, para onde desce o sol polar. Thor, aqui ele é tanto o Sol quanto o espírito do Sol, supera as garras do frio e liberta a Luz. Nos estágios posteriores do mito, a figura da Luz do Sol é dividida em duas - o salvador e o salvo - e depois em três com a adição do instrumento de salvação, o machado.

A inscrição mais antiga do sinal do machado nas antigas cavernas paleolíticas e esculturas rupestres foram analisadas por Herman Wirth à luz de todo o ritual e estrutura do calendário. Ele traçou a incrível constância do proto-sentido do machado através das mais diferentes culturas e idiomas, tanto por idade quanto por localização geográfica. Mostrou a relação etimológica e semântica das palavras que significam 'machado' com outras noções simbólicas e assuntos mitológicos, que também estão associados ao mistério do Ano Novo, a meio do Inverno, o Solstício de Inverno.

Especialmente interessantes são as indicações de que o significado simbólico de "machado" é estritamente idêntico a dois outros itens de palavras-hieróglifos antigos: "labirinto" e "barba".

O "Labirinto" é um desenvolvimento da ideia de uma espiral anual, girando para o Ano Novo e logo começando a se desenrolar. "Barba" é apenas a luz do sol masculino na metade outono-inverno do círculo do ano (o cabelo como um todo são os raios do sol). Portanto, no círculo rúnico, outra runa - "peorp" - parece um machado, mas significa barba. No meio do Labirinto vive Minotauro, o monstro, o touro-humano, o equivalente a Irmunganthr, a Serpente do Mundo e... a velha usurária. Dostoiévski descreveu o antigo sujeito mitológico, o paradigma secreto de uma sucessão simbólica, o ritual primordial, que nossos ancestrais praticaram por muitos milênios. Mas isso não é apenas um anacronismo ou fragmentos descoordenados do inconsciente coletivo.

Os russos são a nação abençoada e a história russa é o resumo da história mundial. Para nós, como um imã temporal, espacial e étnico, o sentido do destino dos séculos gravita com progressão crescente. A Primeira e a Segunda Roma foram apenas para a Terceira aparecer. O Império Bizantino foi a profecia da Santa Russ. A Santa Russ, de maneira apocalíptica, atraiu-se para a cidade fantasma chamada São Petersburgo, onde o maior profeta da Rússia, Fyodor Dostoyevskiy, apareceu. A cena de seu romance principal, "Crime e Castigo", se passa no labirinto das ruas de Petersburgo e os personagens principais do romance são os personagens principais da Rússia. Entre eles, os mais importantes são Raskolnikov, o usurário-velho e o machado. Além disso, o machado é a viga que conecta Raskolnikov com o usurário-velho. Consequentemente,

Raskolnikov divide a cabeça da velha capitalista. O próprio nome "Raskolnikov" ("Raskol" significa literalmente "dividir") indica o machado e a operação que ele faz. Raskolnikov realiza o ritual do Ano Novo, o mistério do Juízo Final, a celebração da ressurreição do Sol.

O capitalismo, rastejando para a Rússia do oeste, do lado do pôr do sol, representa carnalmente a serpente mundial. Seu agente é a velha aranha, tecendo uma teia de escravidão usurária. Ela também faz parte.

Raskolnikov traz o machado do Oriente.

O machado do sol nascente, o machado da Liberdade e do Novo Amanhecer.

O romance deveria ter terminado de forma triunfal com a plena justificação de Rodion. O crime de Raskolnikov é a punição do usurário. É proclamada a era do machado e da revolução proletária. Mas... forças adicionais entraram no caso. O investigador Porfiriy acaba sendo especialmente insidioso. Aquele representante da jurisprudência kafkiana e do pseudo-humanitarismo farisaico inicia uma complicada intriga para difamar o personagem principal e suas ações aos olhos do próprio Raskolnikov. Porfiriy, da maneira mesquinha com que manipula os fatos, conduz Raskólnikov por um labirinto cego de dúvida, nervosismo e perturbação mental. Ele não apenas tenta colocar Rodion na prisão, mas procura suprimi-lo de uma forma espiritual. O personagem principal deveria ter tratado aquela escória da mesma forma que tratou a velha: "Esmague o crânio da serpente". Mas nosso personagem se mostra incapaz de se recompor... Então, o resto do tecido do mito também se revela desvendado. Raskolnikov, de acordo com o cenário primordial, deveria ter tirado a Sabedoria-Sophia do bordel, como o gnóstico-Simon fez com Helena. Até a cena da recitação da narração evangélica sobre a ressurreição de Lázaro permaneceu da versão original: Sophia, resgatada pelo Amor e ao ser libertada da escravidão usurária propaga a ressurreição universal. Mas aqui, por algum motivo, ela se junta a uma conspiração com o "adorador humanitário da serpente", Porfiriy. Ela começa a sugerir uma ideia a Raskolnikov: que a velha, ela disse, deveria ter sido poupada, que ela "não era um piolho trêmulo". A sociedade do amor aos animais, incluindo a serpente mundial da escuridão total.

Como tudo isso pode ser explicado?

Dostoyevskiy era um profeta e tinha o dom da clarividência. Ele previu não apenas a revolução (o golpe de machado na cabeça), mas também sua degeneração, sua traição, sua colocação no mercado. A Sophia do socialismo gradualmente se degradou em hesitações farisaicas humanitárias. Porfiriys penetrou no partido e minou os fundamentos do reinado escatológico do país soviético.

Primeiro eles desistiram da revolução permanente, depois dos expurgos, e então Sonya, sob o disfarce dos últimos intelectuais soviéticos, novamente começou a reclamar do mais tolo - "não matar"... E o sangue jorrou como um rio. Este não era o sangue de velhas usurárias, mas de crianças realmente inocentes.

Existe uma versão virtual de "Crime e Castigo", que tem um final absolutamente diferente. Tem a ver com o novo e próximo período da história russa. Até agora vivemos a primeira versão. Mas agora isso acabou. O novo mito está encarnando, a espada escarlate de Boris Savinkov está queimando as mãos de uma nova Rússia jovem, a Rússia do Fim dos Tempos.

Axe é o nome dessa Rússia.



NOTAS

* Notemos desde já que muitos dos conceitos deste artigo são sugeridos pela leitura da interessante obra de V. Kushev, "730 steps", na qual o autor analisa o paradigma de "Crime e Castigo ".

** Stirner escreveu em "Ideologia Alemã": "Mensch, es spukt in deinem Kopfe!", o que poderia ser traduzido aproximadamente como: "Cara, é a sua cabeça que é assombrada por fantasmas". Em relação à tradução exata do verbo alemão "spuken", é derivado de "der Spuk" (um fantasma) e é análogo ao francês "hanter" e ao inglês "to hall". O padre Seraphim indicou-nos uma analogia interessante, lembrando que em russo antigo existia o verbo "stuzhati", que significa o mesmo que o alemão "spuken" - ser vencido pelos maus, ser possuído pelos seres invisíveis. Jacques Derrida em seu texto "Hamlet e Hécuba" (1956) apontou a semelhança entre o drama de Shakespeare e o "Manifesto" de Marx. Em ambos os casos tudo começa com o fantasma, desde a espera de sua aparição. Derrida aponta justamente que "o momento dos fantasmas não pertence ao tempo habitual". Em outras palavras, o tempo no mundo dos fantasmas não tem nenhuma medida comum com o tempo do mundo humano. Está intimamente ligado à própria essência de Petersburgo, a cidade fantasma, vivendo além do tempo sagrado da história russa em algum sono sutil, tontura sideral. Esta é a eternidade fantasmagórica de Svidrigaylov. Esta cidade "holandesa voadora", suas luzes, seus candelabros, suas velas e lâmpadas e seu Iluminismo nada mais são do que as luzes de St. Elm, a luminescência fictícia de uma quase existência pantanosa. Stuzhalyy gorod, a cidade assombrada, la ville hantee... O lugar da insanidade, doença, febre, perversões, vício e..

*** Na geopolítica moderna, Leviatã e Behemoth significam poder marítimo e poder terrestre correspondentemente. O Leviatã é o Atlantismo, o Ocidente, a América, o mundo anglo-saxão e a ideologia do mercado. O Behemoth é a estrutura continental da Eurásia e está associado à Rússia, hierarquia e tradição.


Traduzido por Vladislav Ivanov
Editado por DAN
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Obrigado por me lembrar o quão louco Alexander Dugin é, annatar1914.
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Potemkin escreveu:Obrigado por me lembrar o quão louco Alexander Dugin é, annatar1914.


O ponto principal não é se Dugin é "louco", mas se ele está certo sobre Dostoiévski, parece-me.

Lembro que Dostoiévski escreveu aquele st. Petersburgo é a cidade mais irreal do mundo, totalmente artificial e pseudo-russa, e até um relógio quebrado como Dugin pode acertar duas vezes por dia.
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O ponto principal não é se Dugin é "louco", mas se ele está certo sobre Dostoiévski, parece-me.

Dugin está completamente errado sobre Dostoiévski. E sua afirmação de que Dostoiévski foi o maior gênio literário da história da Rússia é simplesmente insana - Alexander Pushkin geralmente é creditado com esse papel. Dugin claramente não tem gosto literário.

Lembro que Dostoiévski escreveu aquele st. Petersburgo é a cidade mais irreal do mundo, totalmente artificial e pseudo-russa, e até um relógio quebrado como Dugin pode acertar duas vezes por dia.

Na verdade, foram Pushkin (em seu poema narrativo O Cavaleiro de Bronze ) e Gogol (em seus contos) que primeiro descreveram São Petersburgo como uma cidade 'irreal' ou 'fantasmática'. Nem Dostoiévski nem Dugin dizem nada de original a esse respeito. Na verdade, descrever Dugin como um "relógio quebrado" é totalmente apropriado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O Inferno de Dante na Biblioteca do Quartel

 

O inferno de Dante na biblioteca do Quartel

 

            Em evento realizado em novembro último foi lançada mais uma obra que enriquece a memória histórica de nossa cidade e ajuda a consolidar a nossa cultura. Trata-se do livro O Homem e o Poeta, de Paulo Teixeira Campos. O autor escrevia crônicas sobre a vida cotidiana de Bom Despacho, em periódico do mesmo nome, naqueles anos de desenvolvimentismo, final da década de 1950.

            A crônica é um dos gêneros mais populares no jornalismo ao redor do mundo. Sua forma simples e direta permite abordar assuntos do cotidiano, sem a rigidez de dados matemáticos ou científicos, mas nem por isso menos exata.  Em uma dessas crônicas intitulada “Livros, não”, Paulo T. Campos lamenta que em Bom Despacho não existia ainda uma biblioteca pública. Segundo o cronista, em Bom Despacho havia três bibliotecas de acesso restrito: a do Clube Social, a do Ginásio e a do Quartel.  Lembra os esforços baldados do “jovem” Jacinto Guerra para criar uma biblioteca para a cidade. Os políticos de então não tinham sensibilidade para a questão. Denunciava o que ele julgava um abuso: “Os estabelecimentos de ensino, atendendo a interesses particulares, aos caprichos dos professores, cada ano adota um autor, e o pai de família se vê obrigado a despender vultosa quantia de dinheiro para educar os filhos, pois o livro usado este ano não servirá para o irmão menor, no ano vindouro.” Mal sabia ele que essa prática ainda continuaria por muitas décadas, com um agravante: livros didáticos são cadernos de exercício e são descartados no final de cada ano. Um dinheiro desperdiçado que poderia ser usado na manutenção de uma biblioteca pública.

            Militares e seus familiares, sócios do Clube Social e os poucos alunos do Ginásio podiam se dar ao luxo de ler obras célebres e os mais famosos clássicos da humanidade. Meu avô, Tenente Júlio do Espírito Santo, sempre levava para os filhos exemplares da rica biblioteca do Quartel. Meu pai lembra que, na sua infância, travou contato com a Divina Comédia, de Dante Alighieri, ricamente ilustrada, que descrevia a jornada do poeta, guiado por Virgílio, pelos caminhos do Céu, pelos horrores do Inferno e do Purgatório. Não dormiu à noite, impressionado com as cenas dantescas das profundezas do Inferno, mas nunca se esqueceu da obra e de seu autor, Dante. Teve contato com outras obras e autores da literatura universal, que ainda não podia entender, mas que ficaram na sua memória para o resto da vida, como Alexandre Herculano, Camões, Machado de Assis, a Ilíada e a Odisseia.

            Em crítica mordaz, diz Paulo T, Campos: “Enquanto na Inglaterra, setenta por cento da população lê um livro por mês, cada brasileiro talvez não leia uma palavra.” Naquela época como hoje, a questão da leitura já era posta em discussão. Bom Despacho hoje tem uma biblioteca pública, mas em compensação não tem nenhuma livraria, aqueles locais aprazíveis onde se pode adquirir os últimos produtos do mercado editorial brasileiro. Mas, convenhamos, é preciso considerar: qual o futuro do livro, diante das mais variadas e eficientes mídias, como TV, Internet, celular, que aos poucos vão engolindo toda a cultura universal? Mas nem tudo está perdido. Temos pelo menos uma editora, a Literatura em Cena, que produziu o livro do Paulo T. Campos, demonstrando que acredita, sim, que o livro impresso não sairá de cena tão cedo.

 

 

 

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

 MEU CARO AMIGO Peça em um ato Ramon Maia



 2019 Personagens Jovem homem velho homem homem bêbado professora jovem mulher 153 EM QUALQUER LUGAR: Um palco com duas mesas e cada uma delas com delas com duas cadeiras As luzes se acendem e Velho Homem já está em cena. Jovem homem entra e se depara com o amigo, o velho homem. JOVEM HOMEM Com licença. Por favor. Boa tarde. O senhor é... VELHO HOMEM Sim, sou eu! Se eu não estiver enganado, você deve ser quem eu estou esperando. Jovem homem balança as mãos de modo efusivo. JOVEM HOMEM Perdoe-me o atraso. Uma longa soneca no hotel. A viagem até aqui é muito longa. Velho homem parece tentar acalmar o jovem homem. VELHO HOMEM Dois de dias, certo? Está tudo bem. Não se incomode. Jovem homem permanece balançando as mãos efusivamente. JOVEM HOMEM É uma grande alegria encontrar o senhor pela primeira vez! Jamais poderia imaginar que isso pudesse acontecer em minha vida. Velho homem faz uma pausa, respira profundamente. 154 VELHO HOMEM Não imaginava receber uma visita de tão longe. A esta altura da vida, tudo é mais lento e repetido. Estou realmente impressionado. Jovem homem finalmente parece se acalmar. Começa a fitar o velho homem. Examina cuidadosamente seus olhos, sua barba, seus cabelos. JOVEM HOMEM Desde quando visitei este museu pela primeira vez, eu soube que o senhor ainda estava vivo. Velho homem coça a barba. VELHO HOMEM Fui submetido a um procedimento de um tal Dr. Fedórov, por isso estou ainda vivo. Eu me alimento somente de ovos fritos. Por conta disso tenho pesadelos com crocodilos todas as noites. Caminham lentamente pelo palco, tocando mutuamente os ombros de cada um. Jovem homem, em tom altivo, se volta subitamente para o velho homem. JOVEM HOMEM O senhor fala muito bem a minha língua. Velho homem leva a mão à cabeça. VELHO HOMEM Há muito tempo eu a aprendi com um sujeito muito ilustre de sua terra-natal que também sabia falar javanês. Jovem homem exaltado, efusivo, quase irado. JOVEM HOMEM O senhor ficaria abismado com minha terra-natal. Somos especialistas em copiar todas as modas. Tudo lá é de segunda mão. Velho Homem ri timidamente, tentando ser simpático e, ao mesmo tempo, manter uma certa distância. JOVEM HOMEM È muito interessante vê-lo sorrir. Sempre pensei que quando o encontrasse, o veria bastante sério. Velho homem coça a cabeça e arqueia a sobrancelha. VELHO HOMEM 155 Claro que sorrio. Talvez minhas cartas deem a impressão de que sou um sujeito solene, mas aquilo tudo é meia carta de um sujeito. Tenho meus momentos. Imagino que conheça pessoas capazes de grandes gargalhadas. Reconheço. O Jovem Homem se agita, balança as mãos, cofia o bigode. JOVEM HOMEM De onde venho, existem muitos bons comediantes. Os melhores são aqueles que levam tudo a sério. O Velho homem tosse, limpa um pigarro da garganta. Parece estar incomodado, balança a cabeça de um lado para outro lentamente. VELHO HOMEM Não entendo. Fale mais sobre isso. Jovem homem demonstra confiança, fica na ponta dos pés, inclina o peito para frente. JOVEM HOMEM A seriedade pode até ser um bom negócio desde que seja autêntica. O velho homem se agita, arrasta a bota direita pelo chão como se estivesse limpando-a. VELHO HOMEM E por que não seria? Jovem homem cofia o bigode, lança a mão esquerda para o alto como se estivesse apresentando um grande evento. Jovem homem se sente como um mestre de cerimônias. JOVEM HOMEM Porque de onde venho tudo é postiço, tudo é pose, tudo é falso, tudo é um meio para se conseguir o mais imediato. Velho homem arregala os olhos demonstrando espanto e compreensão do que foi falado pelo Jovem Homem. VELHO HOMEM Eu entendo. Eu entendo mesmo. Há muito tempo recebi uma carta de um amigo que contava algo semelhante sobre um certo inspetor geral de uma cidade pequena daqui. Jovem homem coloca a mão no queixo, circunspecto. JOVEM HOMEM Eu também li algo parecido sobre esses eventos acontecendo aqui. Mas acho que esse fenômeno se espalhou. Por onde andei, vi que o sério pode ser ridículo. Jovem homem tem olhos dirigidos ao infinito, a nenhum lugar. Velho homem inclina a cabeça para baixo. Seus olhos miram os assoalho do palco fixamente. 156 VELHO HOMEM Não estou por dentro de muitos assuntos. Meu último lance foi falar publicamente, um discurso. Desde então, me recolhi para uma vila, próxima daqui, uma cabana. Jovem homem também inclina a cabeça para a baixo, procurando o lugar para onde o Velho Homem está olhando. Toca levemente seu ombro. JOVEM HOMEM Veja, está tudo bem. Gosto do assunto das cartas que chegaram até mim. A maneira como cada um vive é questão de higiene pessoal. A propósito, quando trabalho muito, costumo falar línguas mortas e línguas futuras. As pessoas que me amam em minha terra-natal me levam para Barbacena, uma pequena cidade. Lá, fico numa uma casa muito bonita e limpa para eu descansar. Um tal Dr. Simão Bacamarte cuida de mim. Ele veste em mim um manto de profeta e me oferece pílulas mágicas que me fazem ficar mudo e sentado por seis meses. Depois, volto para casa mais calmo. Jovem homem toca o ombro do velho homem. Velho homem rapidamente levanta a cabeça se desfazendo do contato do jovem homem, afastando-se dele. VELHO HOMEM Este museu me traz muitas lembranças. Aqui estão guardadas memórias de um tempo que gostaria de esquecer. Velho homem coça a barba e jovem homem dá dois passos para trás, então, dois passos laterais para um lado e dois para outro. JOVEM HOMEM Posso imaginar o quanto é difícil ver tudo isto exposto. As correntes, os casacos, as cartas, os rascunhos. Velho homem limpa o pigarro da garganta. VELHO HOMEM Gosto de sua tentativa de empatia. Mas vamos deixar o sentimentalismo de lado. Nada no museu me machuca, nem as correntes, nem as cartas, os rascunhos, nada. A coisa aqui é outra. O museu me lembra não do que sofri, mas do que eu fiz. É a lembrança das cartas, da sua inutilidade. De qualquer forma, vejo que você leu todas elas, mas permanece sentimental. Jovem homem abaixa olhos em tom de respeito. Junta as mãos à altura do peito. JOVEM HOMEM Me perdoe, meu amigo. É um defeito congênito. De onde venho, nossas memórias são sentimentais ou póstumas. Não lembramos do que fizemos porque, na verdade, nunca fizemos nada. De onde venho, nossa maior obra é a escravidão dos negros. E, para nós, o problema não é lembrar ou esquecer porque a escravidão, de onde venho, não terminou. 157 Velho homem arqueia as sobrancelhas. Parece mais calmo. Respira fundo. Um silêncio se faz. VELHO HOMEM Ainda estou curioso. Por que você quis me ver pessoalmente? Não tenho mais nada a dizer. Tudo o que eu disse está em minhas cartas. E elas contém a mesma verdade para todos os tempos. O que está acontecendo agora? Não me interessa. Estar vivo agora, para mim, é inútil. Não sei qual o rumo terá nossa conversa. Jovem homem mexendo bolso à procura do maço de cigarro. JOVEM HOMEM Não se afobe, não, que nada é pra já. Não vim até aqui encontrar o senhor para decifrar o mistério do presente. Eu li suas cartas e elas me deram um sentido na vida. Agora, tudo mudou, estou perdido, pois a simples existência da minha terra-natal é o desmentido do que o senhor acredita ser a verdade para todos os tempos. Estou numa encruzilhada. Não sei se fico com a verdade eterna ou com minha terra-natal. Velho homem coça a barba. Passa as duas mãos no rosto. VELHO HOMEM Mas... Se... No entanto... Jovem homem tira o maço de cigarro do bolso e mostra para o velho homem. JOVEM HOMEM Vamos fumar um cigarro? Jovem Homem e velho fumam cigarros. Fumam vagarosamente lançando a fumaça para o alto. Vem se aproximando deles uma Jovem mulher. Ela anda rápido, mas retém o passo repentinamente. Ela se mantém próximo a eles. Ela retesa o corpo. Seu peito se inclina para a frente. A cabeça se lança para trás. Os joelhos ficam semi-dobrados. Ela fica paralisada nesta posição. A bolsa que levava nos braços cai no chão. Velho homem aponta o indicador para ela. VELHO HOMEM Veja: crocodilo. Jovem homem acena a cabeça positivamente. JOVEM HOMEM De onde venho, conhecemos como zumbis. Eles nunca morrem. Velho homem limpa o pigarro da garganta e cospe no chão. 158 VELHO HOMEM Acho que é mais um que foi submetido ao tratamento do Dr. Fedórov. No final, seremos todos crocodilos. Jovem lança cinzas do cigarro ao chão e ri ironicamente. JOVEM HOMEM É essa imortalidade de que o senhor falava nas cartas? Velho homem mostra irritação. Parece querer tiras as sujeiras da sola dos pés em um movimento frenético. VELHO HOMEM Não foi nada disso. Você parece que não entendeu nada do que eu disse nas cartas. O que fizeram comigo, com esta jovem e com milhões de pessoas, são consequências. Eu vi no Palácio de Cristal todas as promessas de futuro. E aqui estamos nós. Jovem homem e velho homem continuam fumando. Um silêncio se faz. Ambos jogam cinzas pelo chão. JOVEM HOMEM De onde eu venho, a gozação, a zombaria, a piada é mais importante que a amizade. Perdemos um amigo, mas não deixamos de fazer uma brincadeira. Como o senhor pode ver, sou muito ligado a minha terra-natal e conheço o teor de suas cartas. Elas tornaram possível que eu sobrevivesse à impostura. O velho homem dá uma profunda tragada no cigarro e lança a fumaça para o rosto do jovem homem. VELHO HOMEM Mas você insiste no riso. Isso é um traço seu. Jovem homem balança a mão esquerda efusivamente junto ao corpo. JOVEM HOMEM Reconheço. Mas não acho que seja apenas um caso simples. Não é apenas minha constituição. De onde eu venho, todos são assim. E eu lhe pergunto. Todos aqui são como o senhor? Nesse momento, um homem bêbado se aproxima com o cigarro na boca, como alguém que está pedindo que o velho acenda o cigarro dele. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Hum! Pazhalusta! Hum! Hum! Hum! O velho homem pega a caixa de fósforos no bolso e acende o cigarro do homem bêbado. Demonstra irritação e impaciência. Balança a cabeça lateralmente para os dois lados rapidamente. O homem bêbado sai cambaleando. 159 HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Spasiba! Spasiba! Hum! Hum! Hum! Velho homem aponta o dedo para o jovem homem. VELHO HOMEM Veja, não é bem assim. Eu já não existo mais. E essas pessoas aqui também já não existem. Jovem homem esboça um sorriso mas se contém. JOVEM HOMEM Se é assim, então venho de lugar nenhum, já que, em minha terra-natal nunca se fez nada de positivo. Aliás, eu não existo também, nunca existi. O senhor, ao contrário, pelo menos, já existiu algum dia. Velho homem se mostra calmo, mas dá um grande baforada de fumaça no rosto do jovem homem. VELHO HOMEM Você é muito insolente, sabia? Jovem homem abaixa a cabeça. Ele dá uma tragada no cigarro. Um silêncio se faz. Jovem homem anda de um lado para o outro. Até que ele se volta para o velho homem. JOVEM HOMEM Eu sei que sou insolente. Na verdade, não tenho o menor respeito pelas autoridades. Eu lamento profundamente. Não é que não acredite em nada. Mas, lamento informar o senhor, agora tudo é assim. A jovem mulher cai no chão. Jovem homem se agita. Caminha em direção à jovem mulher caída e se ajoelha diante dela. JOVEM HOMEM O que fazemos? Velho homem permanece impassível, continua fumando seu cigarro. VELHO HOMEM Nada. Agora, está definitivamente morta. Daqui a pouco, eles vêm recolher o cadáver que terá um bom uso para os estudos da equipe Fedórov. Jovem homem se levanta, se afasta do cadáver da jovem mulher. Ele dispensa o toco de cigarro e começa a procurar freneticamente o maço de cigarros nos bolsos. Ele encontra o maço de cigarros, deixa-o cair, apanha o maço de cigarros, tenta retirar um cigarro, caem vários cigarros, recolhe os cigarros. Ele acende o cigarro e fuma vorazmente. Em seguida dá uma

 grande gargalhada. JOVEM HOMEM


perdoe, meu amigo, mas não pude resistir. Existe nisso tudo muita coisa patética. Velho homem arrasta os pés no chão. VELHO HOMEM Eu só vejo tragédia. Jovem homem estufa o peito, balança a mão esquerda em frenesi. JOVEM HOMEM Mas esse é o ponto. Uma tragédia que se repete. Não há nada o que fazer. É engraçado. A única saída é rir. Velho homem abre os braços. VELHO HOMEM Rir do quê? Jovem homem fica na ponta dos pés. JOVEM HOMEM Rir de nós mesmos, do quanto é trágica a nossa situação sem saída. Velho homem se agita, balança a cabeça para os lados. VELHO HOMEM Mas você riria de uma criança sofrendo? O rosto de jovem homem parece se iluminar. Ele inclina a cabeça para o lado. JOVEM HOMEM Claro que não. Mas, veja, a própria criança que sofre quer sorrir, brincar. E há aquelas que, mesmo sofrendo, são capazes disso. Um grande silêncio entre eles se faz. O velho homem se mostra incomodado por estar próximo de um cadáver. Ele se mostra inquieto, se agita. O jovem homem fuma o cigarro como se estivesse completamente acostumado como uma situação daquela. Jovem homem olha ao redor. JOVEM HOMEM É uma linda cidade. Velho homem limpa o pigarro da garganta e cospe no chão. VELHO HOMEM Vocês não têm neve por lá, têm? Jovem homem balança a cabeça para um lado e para o outro, indicando concordância. 161 JOVEM HOMEM Não, não temos. Às vezes, podemos experimentá-la bem mais ao sul. Mas é diferente. Velho homem inclina a cabeça para a frente, demonstrando curiosidade. VELHO HOMEM. Em que sentido? Jovem homem estende o braço sobre a paisagem e olha ao redor. JOVEM HOMEM Veja tudo isso. Quando vi pela primeira vez, achei que estava acontecendo alguma tragédia. Eu pensava: "as pessoas estão bem?", "está tudo bem por aqui?". Velho homem abaixa a cabeça. VELHO HOMEM Você tem um jeito de pensar muito curioso. Velho homem estende o braço sobre a paisagem. VELHO HOMEM Para nós, a vida é assim. Jovem homem traga profundamente o cigarro. JOVEM HOMEM Eu entendo. Talvez. De onde venho, estamos mais adaptados à mentira. Velho homem traga profundamente o cigarro e joga o toco no chão. VELHO HOMEM Nós temos também nossos dias ensolarados. Jovem homem joga o resto de cigarro no chão. JOVEM HOMEM Vamos tomar um chá? Jovem Homem e Velho Homem se sentam em duas cadeiras diante de uma mesa. Ambos tomam um chá invisível. O jovem homem faz ruídos com a boca. Parece estar saboreando o chá. JOVEM HOMEM Ah!Ah!Gosto muito de chá preto. Muito bom. Ah! Muito bom. 162 O velho homem tem a xícara invisível diante de si e tem, também, no colo, um gato invisível. Ele acaricia alternadamente o dorso, o peito e a cabeça do gato. VELHO HOMEM De onde você vem, tomar chá é um hábito também? O jovem homem passa um guardanapo invisível na boca. JOVEM HOMEM Tomamos mais café. Temos chá preto, não tão bons como os daqui. Lá temos erva-mate. Fazemos infusão dessa erva. Velho homem balança a cabeça acenando positivamente. VELHO HOMEM Sei. Mas, enfim. Qual a sua ligação com este lugar e por que me procurou? Jovem homem passas as mãos nas roupas como quem as limpasse. JOVEM HOMEM Bem, a ligação com esse lugar. É simples. Meu disjuntor desarmou. Estava tudo ligado no meu cérebro: geladeira, televisão, chuveiro, liquidificador. Tive um curto-circuito. Então precisava de um gerador, de uma fonte de energia alternativa. Encontrei este lugar. Velho homem arqueia as sobrancelhas. VELHO HOMEM Não entendo bem o que você diz. Só me parece que encontrar um lugar é uma coisa boa. Mas, o que quer de mim? Jovem homem esfrega as mãos em círculos. JOVEM HOMEM Estou tentando escrever uma peça de teatro. E você é o personagem central. Um monólogo. Gostaria de encenar a peça. Para isso preciso de sua autorização. Velho homem se agita, bate os pés contra o chão. Ele lança as mãos contra a barba. Ele coça a barba, o cabelo. VELHO HOMEM Preciso saber do que se trata. Jovem homem inclina a cabeça para o lado. JOVEM HOMEM Bem, a história... 163 Velho homem interrompe o jovem homem bruscamente pigarreando. VELHO HOMEM Não. Não. Não quero saber da história. Quero saber por que eu seria um personagem, logo eu que não tenho nada mais para dizer. Jovem homem inclina a cabeça para o outro lado. JOVEM HOMEM Veja bem. Os motivos são vários. Eu posso dizer, por exemplo, que o senhor é uma das poucas pessoas sérias no mundo e que, de onde eu venho, não existem pessoas assim. Posso dizer que aqui é um lugar onde as pessoas têm esperança no futuro e que, de onde venho, isto não existe. Velho homem bate os pés no chão novamente, se mostrando inquieto. VELHO HOMEM Certo, certo, certo. Mas você está fazendo rodeios. Eu quero saber o que te motiva a me procurar para que eu banque, faça o papel de idiota. Velho homem demonstra irritação, coçando os cabelos de forma a quase arrancar os fios. Jovem homem permanece calmo. Ele respira profundamente. Ele solta um suspiro. JOVEM HOMEM Bem. Depois que li suas cartas e seus panfletos pensei que tinha encontrado um sentido para a vida. Isto foi logo depois daquele curto-circuito. Parecia que havia encontrado explicação para tudo. Velho homem aparentando mais calmo. Não coça mais os cabelos. Agora, coça levemente a barba. VELHO HOMEM Nunca pretendi oferecer algo assim para ninguém. Jovem homem balança a cabeça como quem concorda com o que foi dito. JOVEM HOMEM Depois eu percebi que o sentido era ficar atarefado com o estudo das cartas e dos panfletos. A ocupação me deu um sentido. Descobrir o que diziam. A tarefa era o sentido. Essa foi a primeira grande descoberta: mantenha-se ocupado no caso do disjuntor desarmar. Velho homem arqueia as sobrancelhas e arregala os olhos. VELHO HOMEM E o que isso me diz? Jovem homem inclina a cabeça para o lado. 164 JOVEM HOMEM Tudo isso diz duas coisas. Primeiro, a peça de teatro é um agradecimento pela companhia em tempos difíceis. Segundo, uma despedida. Velho homem abre os braços em sinal de dúvida, como se não estivesse entendendo. VELHO HOMEM Você é um sujeito diferente. Vem até aqui. Viaja longamente, me encontra quando quase ninguém consegue me encontrar, já que não existo mais, e, agora, fala em despedida? Veja, dispenso o agradecimento. Só o conhecia por carta e não fiz nada para te ajudar. Só agora te conheço pessoalmente. Um silêncio se faz. Jovem homem cofia o bigode. JOVEM HOMEM Eu só queria pôr um fim no sério. Todas as cartas são muito sérias. Talvez, pudéssemos falar em recomeço. Em fim da seriedade e começo da vida. E a peça mostraria que o senhor acreditava em uma missão. Velho homem balança a cabeça para um lado e para o outro como se respondesse negativamente. VELHO HOMEM Eu agradeço, mas não. Eu sei que você tem um gosto pela zombaria. Também sei que você quer me dar uma chance para falar depois de tanto banho de sangue. Mas o que está feito está feito. Que o meu lugar, a minha terra-natal tenha uma missão é minha última palavra. Jovem homem abaixa a cabeça. Ele levanta a cabeça lentamente. JOVEM HOMEM Não veja em mim nenhuma reprovação moral em ter um missão. De onde venho, as pessoas se fazem de espertas, sabidas, desconfiadas mas estão sempre prontas para acreditar em qualquer coisa. Em todo caso, eu sempre vou observar a distância entre o grande e nobre ideal e a miserável realidade. Velho homem aponta o indicador para o jovem homem. VELHO HOMEM Você pode ser de uma dureza muito grande com as pessoas. O rosto do Jovem Homem se ilumina. Ele entreabre um sorriso. JOVEM HOMEM Não, não. A questão não é o vizinho, o cunhado ou a sogra. A questão nem é de onde venho, mas onde acho que estou diante de onde realmente estou. Um breve silêncio se faz. Jovem franze a testa como quem está tentando ouvir alguma coisa. 165 JOVEM HOMEM Que barulho é esse? Velho homem ameaça abrir um sorriso. VELHO HOMEM É meu estômago. Jovem homem dá uma gargalhada. JOVEM HOMEM Está com fome? Velho homem move a cabeça acenando positivamente. VELHO HOMEM Já está na hora de eu comer meus ovos fritos. Mas não parece que aqui tem alguma coisa deste tipo. Jovem homem se volta para sua bolsa, procura alguma coisa e retira uma banana. JOVEM HOMEM Coma uma banana. Velho homem move a cabeça acenando negativamente. VELHO HOMEM Não, não devo. Desde o tratamento Fedórov, que me possibilitou não morrer, só como ovos fritos. Aliás, nunca comi uma banana. Jovem homem se excita, se agita. Ele coloca a banana bem próximo, diante do rosto do Velho Homem. JOVEM HOMEM Oh, meu amigo. Não perca essa oportunidade. Me sinto lisonjeado. Sua primeira vez. E banana não faz mal. Vamos, coma. O Velho homem pega a banana. Ele começa a descascar a banana. Ele come o primeiro pedaço. VELHO HOMEM Muito bom. Estou gostando bastante. O Velho homem continua a comer. Mais um pedaço. Outro pedaço. Mas, de repente, uma tosse. Outra tosse. Outra tosse. O velho homem se engasga. Não consegue respirar. Ele tosse mais uma vez, tosse de novo, mais uma vez. Ele está engasgado. Ele tosse de novo. O jovem homem se desespera. 166 JOVEM HOMEM Me ajudem! Me ajudem! Socorro! Socorro! Socorro! Me ajudem! Velho homem sai de cena tossindo e jovem homem o acompanha. Professora entra em cena. Em seguida, Jovem Homem entra em cena fumando. Ele está com a cabeça baixa. De repente, ele é surpreendido. JOVEM HOMEM Professora, o que está fazendo aqui? A Professora se ajeita para que os livros invisíveis não caírem do seu colo. PROFESSORA Me desculpe por ter vindo até aqui sem avisar. Mas você não foi à aula. Fiquei preocupada. Aconteceu alguma coisa? É nosso primeiro dia. Jovem homem abre os braços lateralmente com as palmas da mão voltadas para cima. JOVEM HOMEM Eu achei que nosso primeiro dia seria amanhã. Desculpe-me pelo equívoco. E hoje vim encontrar meu amigo. Professora arqueia as sobrancelhas por detrás dos óculos demonstrando interesse. PROFESSORA Ah, você tem um amigo aqui? Não sabia disso. Isto será muito bom para o seu aprendizado da língua. Jovem homem abre um leve sorriso. JOVEM HOMEM Pode ser, mas nós conversamos em minha língua, como nós estamos fazendo agora. Professora toca os óculos em sua parte central, como quem colocasse de volta depois de ele escorregar pelo nariz. PROFESSORA Não entendo. Ele é de onde você vem? Jovem homem continua sorrindo. Agora, parece demonstrar uma grande presunção. Ele inclina o peito para frente. JOVEM HOMEM 167 Não, não. Ele é daqui, mas aprendeu a minha língua com um homem muito ilustre que sabia falar javanês. Este meu amigo foi um escritor muito importante aqui. Poucas pessoas sabem que ele ainda está vivo. Professora também sorri. Ela se agita demonstrando curiosidade. PROFESSORA Talvez, eu também o conheça. Onde vocês se encontraram? Jovem homem traga profundamente o cigarro. JOVEM HOMEM Ali, no museu que construíram em homenagem a ele. Professora franze a testa. Ela cerra os olhos. PROFESSORA Museu? Museu... Aqui não nenhum tem construído em homenagem a nenhum escritor. Jovem homem inclina a cabeça para o lado. JOVEM HOMEM Como não? Eu estive ali com ele! Professora respira fundo. PROFESSORA Onde fica este museu? Em que rua? Jovem homem demonstra calma, segurança. JOVEM HOMEM Na rua Liudmila Petrushévskaia. Professora fica pensativa, coloca os dedos na cabeça como se estivesse tentando lembrar do lugar ou visualizar uma paisagem. PROFESSORA Mas neste lugar só existem casas e um sanatório.



Um silêncio se faz. A professora olha ao redor, parece procurar um ponto para onde fixar os olhos. O jovem homem continua fumando, lançando fumaça para o alto. JOVEM HOMEM Você gosta de gatos? Professora balança a cabeça como quem afirma positivamente. 168 PROFESSORA Sim, sim. Gosto muito de gatos. Jovem homem joga fora o cigarro. JOVEM HOMEM Eu também gosto, mas o meu gato é invisível. Professora abre um sorriso levemente. PROFESSORA O meu também é invisível. Mas ainda assim ele me arranha. Jovem homem sorri também levemente. JOVEM HOMEM Mas há uma vantagem nisso tudo. Quando eles saem para passear a gente não sente a falta deles. Professora não sorri mais. Parece ter o semblante triste. PROFESSORA Mas o meu morreu. Jovem homem curva os ombros. Seu semblante também é triste. JOVEM HOMEM Parece que o meu também. Professora arregala levemente os olhos demonstrando surpresa. PROFESSORA O seu gato também morreu? Jovem homem ainda triste. JOVEM HOMEM Não. Meu amigo. Talvez, não. Não sei. Professora toca os ombros do jovem homem. PROFESSORA Me diga uma coisa. Você não veio ate aqui pela segunda vez somente para aprender a língua da minha terra-natal. Você veio para encontrar este seu amigo. É isso? Jovem homem procura o maço de cigarros no bolso. JOVEM HOMEM 169 Sim, é isso. Nós conversamos um pouco. Eu propus algo para ele. Ele não aceitou. Então eu quis me despedir dele, a conversa não andou bem e ele passou mal. Professora faz cara de espanto. PROFESSORA A conversa, então... Jovem homem balança de um lado para o outro demonstrando reprovação. JOVEM HOMEM Não foi a conversa, foi a banana. Professora franze a testa. PROFESSORA E você não sabe se ele está vivo? Jovem homem retira um cigarro do maço e o acende. JOVEM HOMEM Não. Parece que a vida e a morte dele são assuntos do Governo. Professora ergue o braça direito e coloca a mão direita sobre o ombro esquerdo do Jovem Homem. PROFESSORA É melhor você não se meter nisso. Jovem homem acena com a cabeça positivamente. JOVEM HOMEM Eu sei, eu sei. Mas agora eu tenho duas pendências. Perdi um personagem para minha peça e não poço colocar um final em minha história com este lugar. Professora coloca a mão direita sob o queixo. PROFESSORA Não entendo muito bem, mas vamos arranjar isto. Jovem homem abre os braços com o cigarro na mão direita, com quem indaga alguém. JOVEM HOMEM Como isso seria possível? Não vejo nenhuma saída. Professora abre um leve sorriso com os lábios sem abrir a boca


PROFESSORA É você quem vai encontrar a saída. Você não pode permanecer onde está. Jovem homem cerra levemente os olhos, insinuando um certo desprezo. JOVEM HOMEM E o que eu precisaria fazer? Se é que você sabe. Professora assume um tom sério. Fecha o semblante. PROFESSORA O que você vai fazer eu realmente não sei. Mas estou aqui. Podemos conversar. Jovem homem arqueia as sobrancelhas, arregala os olhos. JOVEM HOMEM E sobre o quê exatamente seria a nossa conversa? Professora abre os braços em direção ao jovem como se estivesse apresentando ou oferecendo algo, com as palmas da mãos voltadas para cima. PROFESSORA Parece que você tem duas coisas para resolver. A peça e a despedida. Por enquanto, você não sabe o que fazer com isso. Jovem homem balança a cabeça vagarosamente para cima e para baixo, vagarosamente em sinal de aprovação. JOVEM HOMEM É verdade. Sei de onde venho. Não sei para onde ir. Não imagino o quê mais possa me acontecer Um breve silêncio se faz. Jovem fuma o cigarro. Professora mexe nos óculos e fita o Jovem Homem. JOVEM HOMEM Mas, veja, considere que estou confuso no momento. Professora sorri. PROFESSORA Não vejo problema nisso. Você é só um homem fraco. Estou acostumada com isso. Sou capaz de apostar que você nunca comeu o cérebro de um macaco. Ambos se encaminham para a mesa. Eles se sentam. Professora ajeita os óculos. 171 PROFESSORA Você tem sonhos? Quero dizer, você se lembra dos seus sonhos? Jovem homem se ajeita na cadeira. JOVEM HOMEM Veja, não costumo me lembrar. Às vezes, me lembro, outras vezes, não. Mas, desde que cheguei aqui tem acontecido uma coisa estranha. Professora cerra os olhos quase os fechando. PROFESSORA Que tipo de coisa? Estou curiosa. Jovem homem cofia o bigode. JOVEM HOMEM Estou sonhando acordado. Professora franze a testa. PROFESSORA Isto é muito comum por aqui. Jovem homem pisca os olhos várias vezes. JOVEM HOMEM É mesmo? Será o frio ou a distância? Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA Não sei se é bem isso. Mas algumas pessoas dizem que quando isso acontece significa que você está prestes a conhecer o seu duplo, o outro de você mesmo. Um breve silêncio se faz. Jovem homem passa a mão direita nos cabelos. Professora ajeita os óculos. PROFESSORA Você está sonhando com o quê? Jovem homem fica irrequieto. Ele parece tentar encontrar uma posição confortável na cadeira, embora não consiga. JOVEM HOMEM Com almas mortas. 172 O silêncio entre eles se aprofunda. Jovem homem olha ao redor procurando um ponto para fixar o olhar. Professora sorve a xícara de chá invisível. PROFESSORA Mas me diga. Por que o teatro? Jovem homem franze a testa e balança a cabeça como se não estivesse entendendo a pergunta. JOVEM HOMEM O teatro? Como assim? Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA Sim, sim. Você não disse que queria fazer um monólogo com seu amigo? Jovem homem inclina o queixo para o frente e para o alto como se agora estivesse entendendo a pergunta. JOVEM HOMEM Ah, sim. O teatro. Professora fica ereta na cadeira. Ela assume um tom solene. PROFESSORA Por que o teatro? Por que não um romance, um ensaio? Jovem homem acena a cabeça para cima e baixo. JOVEM HOMEM O teatro é arte dos vivos, inteiramente, de corpo e alma. No palco, nas ruas, até os mortos têm vida. No ensaio, no romance, também, talvez, mas só na imaginação. No teatro, o corpo inteiro - vivo! - está presente. De todos, do personagem e do público. Professora inclina a cabeça para o lado, franze a testa e arregala os olhos. PROFESSORA Eu tenho minhas dúvidas. Você parece estar certo de que o seu personagem está vivo. Jovem homem abaixa a cabeça. JOVEM HOMEM Na verdade, não tenho. Depois do episódio da banana não sei


ão sei se ele irá sobreviver. Professora inclina a cabeça para o outro lado. PROFESSORA 173 Não estou dizendo isso. Estou dizendo que você está muito certo dos limites entre vida e morte, arte e vida, aqui e lá. Nesse momento, entra em cena o homem bêbado. Ele se dirige ao jovem homem. HOMEM BÊBADO O senhor pode me dar um cigarro? Jovem homem retira o maço de cigarros do bolso e dá um cigarro ao homem bêbado. HOMEM BÊBADO Obrigado! Homem bêbado sai. Jovem homem arregala os olhos fazendo cara de espanto. JOVEM HOMEM Ele fala a minha língua! Que lugar incrível é aqui. Professora faz uma cara de enfado. Ela demonstra tédio. PROFESSORA Sim. Aqui é mesmo um lugar incrível. Jovem homem se mostra incomodado, ele se agita na cadeira. JOVEM HOMEM O que foi? Você acha que a ideia da peça é tão ruim assim? Professora ajeita os óculos. PROFESSORA Não, não é isso. Ensaio, teatro, romance, poesia, a questão não é essa. Você tem coisas por resolver ainda, antes de decidir o que fazer. Jovem homem morde os lábios, cerra os olhos sem os fechar. JOVEM HOMEM Não entendi. Explique melhor. Professora põe as duas mãos em cima da mesa com as palmas voltadas para baixo. PROFESSORA Você não disse que anda sonhando acordado? E que anda sonhando com almas mortas? Jovem homem se mostra impaciente, ele bate os calcanhares no chão. JOVEM HOMEM 174 Sim, eu disse. Mas o que isso tem a ver com a peça? Ou com a despedida do meu amigo? Professora alisa a mesa com as duas mãos. PROFESSORA Veja. Algumas coisas precisam ser reveladas. Você não conhece um eu misterioso que mora dentro de você mesmo. Ele está querendo sair. E você não sabe quem ele é. Jovem homem ergue o queixo para frente e para o alto. JOVEM HOMEM Não seria melhor impedir esse eu de sair? Talvez eu possa conter esses sonhos. Talvez fazendo a peça e me despedindo do meu amigo, tudo isso desapareça. Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA Não seja idiota. Não depende de você querer ou não querer. Esse eu que está escondido em você vai sair. Ele é uma força da natureza. Você o escondeu por muito tempo. Se tentar impedir sua saída, ele vai sair todo deformado. Então você provará consequências terríveis. Jovem arregala os olhos fazendo cara de espanto. JOVEM HOMEM Como você sabe dessas coisas? Nós nos conhecemos há dois anos! Como pode saber tudo isso? Professora ajeita os óculos e o cachecol invisível. PROFESSORA Na verdade, é você quem sabe disso há muito tempo. Jovem homem coloca as duas mãos no rosto cobrindo-o. Em seguida, ele leva as mãos aos cabelos. JOVEM HOMEM O que devo fazer então? De mais imediato. Professora ajeita os óculos. PROFESSORA Vamos conversar sobre o teatro ainda. Mas acho que você não deveria pensar em se despedir do seu amigo. E fique por um tempo aqui, em minha terra-natal. Jovem homem ergue a cabeça. Ele respira fundo. Ele parece demonstrar alívio. Ao mesmo tempo, ele arqueia as sobrancelhas demonstrando preocupação. JOVEM HOMEM 175 Nos ringues, a gente aprende que é necessário um bom plano de luta. Mas um bom plano de luta dura até você tomar o primeiro soco. Professora toca com sua mão direita a mão esquerda do Jovem Homem colocada sobre a mesa. PROFESSORA Ninguém está a salvo. Não há garantia de nada. Mas você pode escolher, ou ser um homem ou ser um crocodilo. Jovem cofia o bigode. JOVEM HOMEM Por enquanto, só penso em me deitar um pouco. Os lobos estão uivando muito alto. Professora ajeita os óculos. PROFESSORA Eu não entendo por que dois pés. Acho que deve ter alguma explicação oculta para tudo isso. Ambos se levantam. Professora está diante do Jovem Homem. Ele fuma um cigarro. JOVEM HOMEM Por que você é tão acolhedora com os estrangeiros? Professora ajeita o cachecol invisível. PROFESSORA É meu ofício. Sou assim. Não sei. Jovem homem lança a fumaça do cigarro para o alto. JOVEM HOMEM Você é uma jovem muito promissora. Professora tem a coluna em posição ereta, as pernas juntas. PROFESSORA É preciso trabalhar. Gosto do que faço. Gosto de pessoas. Gosto de ensinar. Jovem homem abre um sorriso. JOVEM HOMEM É interessante. De onde eu venho, os professores querem prestígio, fama, favores. Não gostam de ensinar, não gostam de pessoas. Professora arregala os olhos. 176 PROFESSORA E por que são professores? Jovem homem traga o cigarro profundamente. JOVEM HOMEM É um paradoxo. Eles se dão por satisfeitos com uma fama e um prestígio entre eles, minúscula. Eles são uma espécie de sub-celebridades sem dinheiro. Professora lança a mão direita para a frente, estendendo a palma da mão para cima. PROFESSORA É por isso que quer fazer a peça de teatro? Para dar uma lição? Jovem homem acena a cabeça para um lado e para o outro, mostrando desacordo. JOVEM HOMEM Não, não. Não estava pensando nos professores quando pensei nisso. A história é bem outra. Professora ajeita os óculos. PROFESSORA E do que se trata então? Vai me contar? Jovem homem traga o cigarro profundamente e lança a fumaça para o alto. JOVEM HOMEM É preciso que você saiba que a história do duplo, do outro eu, querendo aparecer não é estranha para mim. Professora se agita, parece demonstrar certa irritação. PROFESSORA Então quer dizer que a surpresa que você demonstrou quando eu toquei no assunto era falsa. Jovem homem acena a cabeça para um lado e para o outro discordando. JOVEM HOMEM Não, não, a surpresa era verdadeira. Fiquei surpreso com o fato de você estar percebendo o que está acontecendo. Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA Não exatamente. Eu só tive uma intuição de algumas  coisas depois que você me falou do seu sonho acordado. 177 Jovem homem lança o braço direito para frente com o cigarro entre os dedos da mão direita. JOVEM HOMEM Tudo bem. Que seja assim. Mas o fato é que há alguns anos um pedaço de mim saiu. E ele ficou bem aqui, ao lado da minha cabeça. Jovem homem explica o que houve colocando as duas mãos ao lado direito da cabeça, fazendo um semi-círculo. Professora ajeita os óculos. Ela demonstra interesse dando um passo adiante. PROFESSORA E como era esse eu? Você o via? Jovem homem traga o cigarro. JOVEM HOMEM Eu o via de soslaio. Era branco. Estava todo de branco. Professora fica na ponta dos pés. PROFESSORA E ele dizia alguma coisa para você? Jovem homem respira fundo. JOVEM HOMEM Não. Não dizia nada. Só me acompanhava para todos os lugares onde eu ia. Professora continua agitada, excitada. PROFESSORA Onde ele está agora? Jovem homem abaixa a cabeça. JOVEM HOMEM Ele se foi. Professora acena a cabeça positivamente. PROFESSORA Então quer dizer que você espera reencontrar esse eu perdido com o teatro... Jovem homem inclina o queixo para cima e para frente. JOVEM HOMEM 178 Isso não estava claro para mim. Agora vejo melhor. É que meu eu perdido se parece muito com meu velho amigo. Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA Seria preciso saber primeiro quem está vivo e quem está morto antes de tentar fazer a peça de teatro. Um silêncio se faz entre eles. Professora olha ao redor e Jovem Homem continua fumando e jogando fumaça para o alto. De repente, se levanta a Jovem Mulher que estaria morta no começo da peça. Muito elegante, bem vestida, muito bonita. Ela vem caminhando e, de repente, se detém. O peito arqueado para frente, a cabeça lançada para trás e os joelhos quase dobrados. Sua bolsa cai ao chão. Jovem homem balança a cabeça para um lado e para outro. JOVEM HOMEM Acho que estou confuso. Professora toca os ombros do Jovem Homem levemente. PROFESSORA Acho que você está levando muito a sério a separação entre palco e plateia. Jovem homem leva as mãos aos ouvidos. JOVEM HOMEM Mas esses malditos lobos! Professora ajeita os óculos. PROFESSORA Eu só conheço o caminho que leva ao cerejal. Jovem homem passa as mãos nos cabelos. JOVEM HOMEM Talvez, o melhor é deixar o meu caro amigo falar. Professora acena positivamente com a cabeça. PROFESSORA Concordo com você. Você tem que deixar falar o que está transbordando em você. Jovem homem cofia o bigode.


JOVEM HOMEM Mas não sei onde ele está agora. Professora aponta o dedo indicador para o Jovem Homem. PROFESSORA Você sempre o perde de vista. Na maioria das vezes, parece que você sabota os encontros com ele. Aliás, você não estava falando em despedida? Jovem homem procura o maço de cigarros no bolso do casaco. JOVEM HOMEM Eu sempre fugi das aberrações, dos monstros, dos fantasmas... De mim mesmo. Professora ajeita os óculos e o cachecol invisível. PROFESSORA Não sei se é coisa boa descer aos infernos. Você acaba encontrando alguma coisa. Jovem homem acende o cigarro depois de brincar com ele entre os dedos. JOVEM HOMEM Nessa viagem, estou encontrando o que eu mais temia. A Jovem Mulher cai no chão. Professora olha para o cadáver da Jovem Mulher PROFESSORA Poucos sobrevivem a esta viagem. Jovem homem traga profundamente o cigarro. JOVEM HOMEM É por isso que batem palmas quando o piloto consegue aterrissar. Professora inclina a cabeça para o lado. PROFESSORA É por isso que seu destino é a descida. Jovem homem se agita, se mostra aturdido. JOVEM HOMEM Mas o que vou fazer com isso? Professora se esforça por manter a coluna ereta, assumindo um tom solene. 180 PROFESSORA Nem imagino o que vai fazer. Mas somos assim. A vida é assim para nós. E, estamos aqui. Jovem homem joga o cigarro fora. JOVEM HOMEM E os lobos continuam uivando. Professora ajeita os óculos, o cachecol invisível e olha ao redor. PROFESSORA É o vento. Velho homem, homem bêbado entram em cena. Jovem mulher já está em cena. Todos os personagens estão em cena. Cada um deles estão em um canto do palco. Velho homem e homem bêbado estão andando andando vagarosamente. Jovem mulher está parada. Jovem homem anda pelo palco. JOVEM HOMEM De onde venho, todos são indígenas, mas todos querem ser caciques. São todos da ralé, mas todos querem ser chefes de almoxarifado. Só não fui um capitão-do-mato porque me faltou força, me faltou energia. Enfim, nunca matei ninguém por preguiça. Homem bêbado anda pelo palco e fala sozinho. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Pazhalusta! Hum! Hum! Hum! Hum! Velho homem anda pelo palco, coça a barba e fala sozinho. VELHO HOMEM Lázaro! Tudo está em Lázaro! Lázaro! Tudo está em Lázaro! Jovem homem agora parado, balança os braços freneticamente e fala sozinho. JOVEM HOMEM Era preciso decidir. E eu não estava lá. Estava, mas não estava. Se eu pudesse ver agora ao

que renunciei, teria feito alguma coisa. Mas, não. Agora é tarde. O que resta por fazer não é real, é apenas purpurina. Os cavalos roçando o pasto e as azaléas pedindo a noite. Jovem mulher anda rapidamente pelo palco e se detém. Em seguida, ela anda rapidamente e, novamente, se detém. Professora anda lentamente pelo palco. Ele ajeita os óculos. PROFESSORA 181 Os meus meninos. Os meus meninos. O que será feito deles? Jovem homem ainda com os braços balançando freneticamente, mas, agora, parado. JOVEM HOMEM Vai ver nada daquilo era real. E nada hoje é purpurina. São meus olhos em busca do horizonte. Mas sinto que alguma coisa se perdeu, que não pode mais. De onde venho, o melhor fruto apodreceu sem que o tivéssemos plantado. E o que foi plantado, hoje é veneno. Por isso, atrás da cortinas, só vejo infinitas cortinas. Lá atrás, um grito. Mas não há ninguém lá. Velho homem anda em círculos e coça os cabelos. VELHO HOMEM Lázaro! É ele! Lázaro! Lázaro! É ele! É ele! Lázaro! Lázaro! Jovem mulher anda rapidamente e, de repente, se detém. Ela arqueia o corpo para a frente. Ela tem o peito inclinado para frente e a cabeça totalmente lançada para trás. Os joelhos estão semi-dobrados. O homem bêbado anda vagarosamente e fala sozinho. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Spasiba! Spasiba! Hum! Hum! Hum! Jovem homem ainda parado, balança freneticamente seus braços. JOVEM HOMEM Não havia nada escondido. Em todo este tempo, meus duzentos demônios lutavam entre si. Depois de uma batalha infernal entre eles, o vitorioso colocava a cabeça para fora. Mas a guerra não tinha acabado. Então percebi que todo o barulho que eu ouvia era provocado pela lamúria dos demônios vencidos. Eu o segui a trilha desse barulho e hoje estou aqui. A artimanha do demônio vencedor era o silêncio. Sua vitória era a minha derrota. E ele me serviu no jantar um pedaço de mim como prêmio pela lembrança. Professora ajeita o cachecol invisível. Ela anda de um lado para o outro do palco. PROFESSORA Eles não têm culpa de nada. Meus meninos. Meus meninos. Eles não têm culpa de nada. Jovem mulher cai ao chão. Velho homem anda de um lado para outro do palco. Ele cofia a barba. VELHO HOMEM Eu disse, eu disse. É Lázaro! Lázaro! Eu disse, eu disse! Lázaro! É ele! Jovem homem ainda parado. 182 JOVEM HOMEM Por esta via. (Aponta com o braço esquerdo) Posso seguir o caminho dos confetes e das serpentinas. Por esta via (Aponta com o braço direito) O caminho do arremedo. Será minha última decisão porque esta é uma decisão última. De onde venho, ninguém nasce para mastigar ferros com os próprios dentes. Estamos entre o macaco e o artista. Poucos são os dilacerados por um curto-circuito. O curto-circuito interrompe fluxo. Quanto aos muitos, eles são escolhidos para uma vida de arremedo. Decidir não ser macaco é o fardo da alforria. Homem bêbado anda vagarosamente e fala sozinho. HOMEM BÊBADO O senhor pode me dar um cigarro? Pode? Pode? Hum! Hum! Pode me dar um cigarro? Pode? Pode? Hum? Hum? Professora ajeita os óculos. Ela anda vagarosamente pelo palco. PROFESSORA Meus meninos, meus meninos, não. Eles não têm o que comer. Meus meninos, não, não. Meus meninos. Velho homem coloca as mãos diante do rosto. Ele anda vagarosamente pelo palco. VELHO HOMEM Não se engane. Não se engane. É ele! É ele! Lázaro! É ele! Lázaro! Jovem homem anda vagarosamente pelo palco, balançando os braços freneticamente. JOVEM HOMEM As últimas coisas dirão se me consagrei a um ídolo ou a um deus. Na batalha dos demônios, confiei na memória. Agora, não. Quero o futuro. E não vejo nada, a não ser um abismo. Talvez, eu possa ser um pássaro, uma ponte, um galho, um rio lá embaixo. Eu não sou trezentos, nem trezentos e cinquenta. Eu não sou nada. Tenho na mão uma máscara e um pacote de confete. Hoje, Paris, Texas, amanhã, Doha, depois de amanhã, Magé. Não é que tudo valha a pena. É que depois de tudo perder o brilho, a gente faz o possível, somente o possível. E o possível, neste momento, é o delírio. Jovem mulher se levanta. Ela ajeita as roupas, se recompõe e anda rapidamente pelo palco. Professora ajeita o cachecol invisível. Ela anda vagarosamente pelo palco. PROFESSORA Ainda podemos fazer muito. Meus meninos, meus meninos. Não os levem. Não os levem. Ainda podemos fazer muito. Meus meninos, meus meninos. 183 Homem bêbado tem o cigarro na boca e sorri. Ele anda vagarosamente pelo palco. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Um cigarrinho! Hum! Hum! Sempre bom! Hum! Hum! Um cigarrinho! Sempre bom! Hum! Hum! Velho homem lança as mãos para o alto, como se rezasse. Ele fica parado. VELHO HOMEM Ele levantou e andou! É ele! É ele! Levantou e andou! Lázaro! É ele! É ele! Jovem homem está parado. Seus braços ainda balançam freneticamente. JOVEM HOMEM Porque depois do curto-circuito o curso das águas deixa de ser espontâneo. Eu não perguntava "o que fazer?", mas "por que fazer?". As chuvas, as ondas do mar, trovões e raios sempre novos, a cada vez causando espanto. Tudo como se fosse pela primeira vez. E, de repente, o gosto amargo, afinal, tudo se repetia. E, enfim, o consolo, tudo se repetia. Quer dizer, no planeta dos macacos, tudo se repete. Na verdade, eu sou macaco, zumbi, crocodilo, depende do momento e do lugar. Não hã um "por detrás" nem um "pela frente". O que se vê é tudo. E nada que é visto merece ser levado a sério. Professora ajeita os óculos. Ela está parada. PROFESSORA O que será feito deles? Meus meninos, meus meninos. Para onde irão? Meus meninos, meus meninos. Velho homem leva as mãos ao rosto novamente. Ele está parado. VELHO HOMEM É um milagre! Lázaro! Eu vi! É ele! Milagre! Lázaro! Eu vi! Eu vi! É ele! Jovem mulher andando rapidamente, se detém, arqueia o corpo, lança a cabeça totalmente para trás. O peito está lançado para frente e os joelhos semi-dobrados. Homem bêbado sorri sorrateiramente. Ele anda pelo palco. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! Mais um cigarrinho. Quero outro! Hum! Hum! Mais um. Hum! Hum! Jovem homem está imóvel, parado. JOVEM HOMEM O problema não é mais valer a pena ou não. O problema é que, depois do primeiro susto na vida, a pedra não é mais uma coisa morta. E mesmo assim, só restarão ruínas e esquecimento. Talvez, um álbum de retratos. Talvez, nem que seja por um instante, eu seja pássaro, ponte, 184 galho ou um rio lá embaixo. Só assim poderei dizer que tudo foi um sonho, que os crocodilos, os zumbis e os macacos foram tudo o que eu poderia ser. Professora tem a voz embargada, lacrimosa. PROFESSORA Meu menino poderia ser alguém. Meu menino. Meu menino se foi. Ele poderia ser. Homem bêbado dá uma risada sarcástica. HOMEM BÊBADO Agora quero um golezinho. Hum! Hum! Um golezinho! Hum! Hum! E um cigarrinho! Hum! Hum! Jovem mulher cai de novo no chão. Jovem homem fica no ponta dos pés, enche o peito. JOVEM HOMEM Melhor não fazer nada. Dá muita dor de cabeça. Gosto muito de paisagens. De onde venho, assistimos a tudo, de preferência, de maneira bem confortável. É isso, uma sala de estar, um casamento e uma janela. Não posso fundar uma cidade nem defender um castelo. Quem sabe fingir um papel? Nem isso! (Faz um grunhido) Só me resta a bravata! Digo, a bravura! Ou seria, a bravata? Bem... Vou conclamar a paz universal entre os macacos de boa vontade. Que todos possam reconhecer no outro o crocodilo que mora em si mesmo. Que o brilho do olhar se manifeste em cada um dos zumbis. Velho homem se ajoelha no chão, coloca as mãos para o alto. VELHO HOMEM Lázaro! Ele voltou! A tumba! Lázaro! Eu vi! Lázaro! A tumba! Professora ajeita os óculos, agora, chorando. PROFESSORA O meu menino. Eu tive que comê-lo. Meu menino. Meu menino. Não pude evitar. Eu tive que comê-lo. Meu menino. Meu menino. Jovem mulher tenta se levantar e cai. HOMEM BÊBADO Hum! Hum! (Dá uma grande gargalhada) Hum! Hum! As luzes se apagam.




quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Jenipapo, Canadá, Petkovic e a Copa do Mundo em Bom Despacho

 

 

Jenipapo, Canadá, Petkovic e a Copa do Mundo em Bom Despacho

 

                       Essa semana ocorreram os preparativos para a Mostra Cultural ou Feira Cultural da Escola Wilson Lopes do Couto. A Feira aconteceu no sábado de manhã do dia 05/11/2022. O tema era a Copa do Mundo no Catar. Esse pequeno país é muito famoso pelas imagens de riqueza, embora, para além de sua capital, Doha, existam cidades-dormitório onde vivem trabalhadores estrangeiros da Índia e de outros países vizinhos (assim ensinaram os alunos do nono ano, que estiveram na sala junto da sala do Canadá). O gentílico dos habitantes do Catar é “catares”. O Catar é uma pontinha da península arábica, mas devido ao petróleo é um dos países mais ricos do mundo. A ideia, muito bem sucedida, era trazer a cultura dos países participantes para a escola e para a comunidade. Muitos ex-alunos, pais e comunidade em peso participaram.

                       A turma 1001, que ficou responsável pelo Canadá, montou uma maquete com os jogadores do time do Canadá e foram bem sinceros: o time não é lá essas coisas. Os canadenses são bons em hóquei e lacrosse (ou seja, em esportes de inverno). Trouxeram também inúmeras curiosidades do país: a temperatura mais fria já registrada lá foi de quarenta e sete graus abaixo de zero, na cidade de Sang, estado de Yukon. Outras curiosidades: festival de cinema de Toronto é o segundo maior do mundo, o “Cabral” do Canadá, ou seja, o primeiro europeu a explorar o território do que seria o Canadá foi Giovanni Caboto.       Igualmente, eu participei de um jogo de perguntas e respostas que é muito popular no Canadá, um jogo estilo “quizz”. Não consegui, no entanto, lembrar-me quando esse país ficou independente, pensei na data de 1812. Na verdade, até hoje há uma forte relação com a Inglaterra. O Canadá é muito descentralizado, comemora-se o ano de 1867, mas em Quebec, Canadá francês, a data já é outra. O Canadá partilha, ainda, a mesma rainha que a Inglaterra (!) e só teve uma constituição em 1982.

                       Junto ao Segundo Ano do Ensino Médio, eu quis muito experimentar o “fritule”, uma espécie de bolinho de chuva da Croácia, mas os últimos eram apenas para exposição. Que pena! Mas é reconfortante saber que podemos viajar para esse pequeno país na Europa Central e encontrar algo tão gostoso e familiar. Eu sou do tempo em que existia a Iugoslávia. Agora existe, como lembrança daquele país que despedaçou-se em meio à guerra nos anos 90, tempo de minha juventude. Os frutos dessa separação, que competem separadamente na Copa. A Sérvia nos deu o Dejan Petkovic, ídolo do Flamengo, o “Pet” um famoso e muito querido jogador, que curiosamente pautou também nosso debate político, partilhando com o Brasil suas surpreendentes lembranças agradáveis de sua juventude em um país socialista. Petkovic falou: “o país tinha investimento esportivo, a minha cidade era pequena, quatorze mil habitantes, era cidade de mineração, construída sob um antigo vulcão, tinha parques, o estádio era perto do apartamento. Eu não tinha preocupações, no socialismo tinha abundância, salários dignos, segurança total, eu ficava muito na rua, aprendi a jogar todos os esportes, foi a melhor infância que poderia ter”.

                       Na sala que tratava do México, consegui alguns pequenos churros, comida que aprecio muito desde a infância. São pequenos pãezinhos recheados de doce. Pode ser doce de leite ou doce de goiaba ou outros. Portugal também estava representado e tinha notáveis broinhas, delícias que acabaram rapidamente, antes que eu conseguisse prová-las.

                       Muito interessantes foram as comidas típicas, que acabaram muito rapidamente em todas as salas. Ao menos, eu consegui comer os doces de coco, goiaba e figo que são típicos do Senegal, país da África Ocidental onde as pessoas comem muitas frutas. A alimentação deles, comentou a aluna, é muito saudável. Eles apreciam arroz com frango, frutas e doces. Uma das frutas que pouca gente conhece e que ali é apreciada é o jenipapo. Os alunos conseguiram trazer um exemplar da fruta. Lembra uma pequena pera, verde e redonda. Curiosamente, é originária da América, mas foi levada para a África.

            Foi deliciosa essa minha saga gastronômica em torno do mundo e os alunos participantes estão todos de parabéns! E, como disse o escritor russo Tolstói, é através de nossa aldeia que conseguimos chegar ao mundo.

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

CUIDADO, “GENERAL”

 

CUIDADO, “GENERAL”

 

            Ele chegou aqui moço e forte. Carregado de sonhos e esperanças. Trazia na mão o pergaminho da ciência e na mente a certeza de um futuro grandioso. Começou a executar a obra que idealizara. Fez dessa cidade o seu campo de luta. Edificou o seu quartel geral. E, aproveitando-se da incapacidade de uns e da ociosidade de outros, hasteou, finalmente, a bandeira da vitória.

            Triunfou, mas no seu triunfo está implicado o sacrifício de um povo. De um povo pacato, submisso, que já começou a se rebelar contra os abusos de que está sendo vítima. Guerrilheiros começam a aparecer aqui e ali. Fabricam armas próprias, como o berimbau. E a revolta vai se fermentando lenta e silenciosamente no selo da população. Até que nós temos pedido o que nos compete exigir. E o general permanece irredutível no seu castelo de ouro e de fios.

            Sr, General: não sei se você lê O Bom Despacho. Ele é tão humilde e tão simples que talvez não chegue às suas mãos, sempre ocupadas com algo importante. As cifras, os cálculos, a inúmeras atribulações da vida, lhe não permitem, provavelmente, a leitura desta e de outras folhas, além disso este jornal já o criticou por diversas vezes. Você se sentiu ofendido e magoado no seu orgulho de homem. E ofendido e magoado, você se concentrou mais no escritório. Passou a ter menos amigos a sentir falta de um cigarro, a falar pouco, a não sorrir nunca, para resistir ao impacto da crítica, você se fechou mais consigo mesmo. Tornou-se mais duro, mais austero, mais solitário, não há nada pior do que viver na solidão quando o mundo está cheio de gente.

            No orgulho, no amor próprio, no laconismo, na diferença está o seu erro. General. Hábil no campo de luta, exímio guerreiro, você é um fracasso no tratar com as pessoas. Você não tem conversa, não tem demagogia. Você não sabe abraçar, nem sorrir. Nem prometer. E isso é muito importante para o povo. Isso é muito importante para quem não pode dar ao povo, o que o povo precisa. Prive a população de energia elétrica aos domingos, à noite, a qualquer hora, mas não lhe negue, Sr. General, o sorriso, um cumprimento, uma promessa, castigue os habitantes dessa cidade com uma das mãos, mas afague-os com outra.

 Aos domingos, a gente para onde ir. Não tem Praça de Esportes, não tem cinema. Não temos onde nos divertir. Ligamos o rádio. O rádio não funciona. Saímos. Entramos no bar. Pedimos um sorvete. Não tem. Pedimos alguma coisa gelada. Não tem. Não tem café. Não tem água. Por que? Porque a cidade está o dia inteiro sem energia elétrica.

Sem saber o que fazer, para onde ir. Ficamos perambulando pelas ruas, enquanto passa a caminhonete nova, bonita, fazemos barulho no calçamento, ou levantando poeira do chão. E no seu interior, imponente, e esbelto como um general prussiano, vai o homem que nos maltrata, que nos priva até mesmo de um pouco d´água.

Sr. General, não seja tão cruel. Prive-nos da água, da luz, mas nos dê pelo um cumprimento, um sorriso. De nós a ilusão de uma promessa, o autor do berimbau poderá voltar. Se já não voltou, cuidado, Sr. General.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 20 de novembro de 2022

Jenipapo, Canadá, Petkovic e a Copa do Mundo do Mundo em Bom Despacho

 

Jenipapo, Canadá, Petkovic e a Copa do Mundo do Mundo em Bom Despacho

 

                       Essa semana ocorreram os preparativos para a Mostra Cultural, a  Feira da escola Wilson Lopes do Couto. Ela aconteceu no sábado de manhã (05/11). O tema era a Copa do Mundo no Catar. Esse pequeno país é muito famoso pelas imagens de riqueza, embora, para além de sua capital, Doha, existam cidades-dormitório onde vivem trabalhadores estrangeiros da Índia e de outros países vizinhos, como bem ensinaram os alunos da 702. O Catar é uma pontinha da península arábica, mas devido ao petróleo é um dos países mais ricos do mundo. A ideia, muito bem sucedida, era trazer a cultura dos países participantes para a escola. Muitos ex-alunos, pais e comunidade em peso participaram. Bom Despacho é como o mundo todo, como já dizia um velho e bom baiano.

                       A turma 1001, que ficou responsável pelo Canadá, montou uma maquete com os jogadores do time e foram bem sinceros: não é lá essas coisas. Os canadenses são bons em hóquei e lacrosse (ou seja, em esportes de inverno). Trouxeram também inúmeras curiosidades do país: a temperatura mais fria já registrada lá foi de quarenta e sete graus abaixo de zero, na cidade de Sang, estado de Yukon. Outras curiosidades: o festival de cinema de Toronto é o segundo maior do mundo (o que me fez lembrar que minha querida Luciene Guimarães estudou o cinema de Marguerite Duras lá em Quebec). O “Cabral” do Canadá, ou seja, o primeiro europeu a explorar o território foi Giovanni Caboto. Igualmente, eu participei de um jogo de perguntas e respostas que é muito popular lá, um jogo estilo “quizz”.

                       Maratonando as salas, eu quis muito experimentar o “fritule” realizado pela sala 2002, uma espécie de bolinho de chuva feito de iogurte, típico da Croácia, mas os últimos exemplares não estavam disponíveis para degustação. Mas é reconfortante saber que podemos viajar para esse pequeno país na Europa Central e encontrar algo tão gostoso e familiar. Eu sou do tempo em que existia a Iugoslávia. Aquele país despedaçou-se nos anos 90, tempo de minha juventude. Alguns frutos dessa separação competem separadamente na Copa, Sérvia e Croácia. Quando fala-se em Sérvia, o mais lembrado é Dejan Petkovic, ídolo do Flamengo, o “Pet”, um famoso e muito querido jogador, que surpreendeu o Brasil suas lembranças agradáveis de sua juventude em um país socialista. Petkovic, que já defendeu até Stálin, falou: “o país tinha investimento esportivo, a  minha cidade era pequena, quatorze mil habitantes, construída em um antigo vulcão, vivia de mineração, mas tinha parques, o estádio era perto do apartamento, eu não tinha preocupações, minha família tinha abundância, salários dignos, segurança total, eu ficava muito na rua jogando, sei jogar todos os esportes, mas futebol foi sempre minha paixão, tive a melhor infância que poderia ter”. Ao tratar do Marrocos, os alunos da noite lembraram-se da jornalista bom-despachense Kívia Mendonça Costa, que escreveu o livro Diários Marroquinos, depois de, em suas palavras, dar um loop (“giro”) por todo esse país, usando véu e pegando carona, levando apenas mil reais.

                       Na sala 801, que tratava do México, consegui alguns pequenos churros, comida que aprecio muito desde a infância. São pequenos pãezinhos recheados de doce. Pode ser doce de leite ou doce de goiaba ou outros. Portugal (sala 2001) também estava representado e tinha notáveis broinhas, delícias que acabaram rapidamente, antes que eu conseguisse prová-las.

                       Vocês podem imaginar que sucesso foram as comidas típicas, muito cobiçadas por todos. Eu consegui comer os doces de coco, goiaba e figo que são típicos do Senegal, país da África onde as pessoas comem muitas frutas e doces. A alimentação deles, comentou a aluna da 701, é muito saudável. Uma das frutas que pouca gente conhece e que ali é apreciada é o jenipapo. Os alunos conseguiram trazer um exemplar da fruta. Lembra uma pequena pera, verde e redonda. Curiosamente, é originária da América, mas foi levada para a África.

            Foi deliciosa essa minha saga gastronômica em torno do globo a propósito da copa e os alunos participantes estão todos de parabéns! E, como disse o escritor russo Tolstói, é através de nossa aldeia que conseguimos chegar ao mundo.