terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Alguns motivos e marteladas no dedo para não seguir Nietzsche

O livro Por que não somos nietzscheanos, da editora Ensaio (1993), está hoje fora de catálogo, mas precisa urgente ser relançado. Verifiquei recentemente que os nietzschianos acadêmicos não enfrentam, realmente, as críticas presentes nesse livro composto por vários autores: Luc Ferry, Alain Renaut, Vincent Descombes, Phillipe Raynaud, André Comte-Sponville, André Taguieff, Robert Legros.

O foco, como não poderia deixar de ser, é o nietzscheanismo francês: é uma antologia que ataca Nietzsche, mas visa principalmente Deleuze e Foucault. Para tanto, mais de um desses autores refuta a combinação Marx, Nietzsche e Freud. Nietzsche e Marx, combinados, são associados ao Gulag e a Auschwitz pelo exaltado André Comte-Sponville, que é ao mesmo tempo o mais próximo de Nietzsche e o seu crítico mais apaixonado e virulento, produzindo aquele que é, de longe, o melhor texto da coletânea, o mais divertido e completo. André vai o fundo de Nietzsche, ao que há mais profundamente nietzschiano e ali planta a sua bomba e seu riso. Ele vai além de colocar Nietzsche contra Nietzsche, aliás, todos vão. O objetivo é impugnar a leitura libertária que Foucault faz de Nietzsche: Nietzsche deveria ter uma leitura conservadora, somente. No entanto, raramente se ataca Foucault de frente.

Alain Boyer, no primeiro ensaio, define que os pensadores que definem o século XXI são Nietzsche e Frege. Os problemas do século giram em torno da democracia, do mercado e da ciência. Embora nada saiba sobre mercado, Nietzsche pensou radicalmente sobre esses dois últimos. Boyer só está de acordo com o Nietzsche de A Gaia Ciência, o da fase iluminista. Mesmo assim, ele avisa que ali também há passagens onde há ignorância. Para Boyer, não há sentido em falar, como alguns nietzschianos falam, que Nietzsche recusaria uma avaliação porque a relacionava à dialética. Pelo contrário: ele é um obcecado com avaliação, hierarquia, ele é sempre um professor avaliando tudo, uma eterna obsessão anti-igualitária que perpassaria toda a obra. Ele propõe não interpretar Nietzsche e sim tomá-lo ao pé da letra. No fundo, essa interpretação tem a finalidade de impugnar Foucault e sua leitura de Nietzsche. Para Boyer, Nietzsche tenta substituir o imperativo categórico pelo imperativo da natureza, ponto que será retomado por outros autores da coletânea como Comte-Sponville.

Para Sponville, Nietzsche seria um quase-materialista, mas seu materialismo é um materialismo grosseiro e bárbaro e não um fisicalista usando linguagem figurada, nem Nietzsche aceitaria o materialismo enquanto método. A forma como Nietzsche toma todos os movimentos e fenômenos e se vale da analogia como o homem também é refutada aqui. Ela seria parte de seus truques para desvalorizar o conhecimento objetivo, a razão e a ciência, parte de seu projeto de mudar todos os valores: analisar um animal enquanto mamífero não seria, de forma alguma, a mesma coisa que atribuir, antropomorficamente, agir como um hindu que atribui um tsunami à ira de uma deusa. Nietzsche, para diminuir a ciência, age dessa forma. O quase-materialismo de Nietzsche decorre do fato de que, se ele aceitasse totalmente o materialismo, teria que aceitar o conhecimento objetivo.

No decorrer da coletânea, a fase iluminista é sempre valorizada em oposição à fase inicial e final. Não se pensa aqui nenhuma virada retórica em Nietzsche; ele seria um vitalista monista, mas que não pode evitar que questões metafísicas envolvem a temática da vida, da maneira como ela a aborda. Boyer cita que a interpretação conservadora de Nietzsche deve ser levada a sério: para ele, Nietzsche é imoralista, elitista imbecil, sua moral é inútil e não permite combater Le Pen, por exemplo. Nietzsche é um pensador da aristocracia e da tradição, mas não um tradicionalista e aristocrático, pelo menos, não totalmente.
Sponville coloca sempre Nietzsche x Spinoza. Vida, para Nietzsche, seria equivalente a ser. No entanto, para o materialista, a vida é somente um acidente e não há essência. Mais uma de suas artimanhas é desvendada. Alguém como Nietzsche fala mal, ao mesmo tempo, dos judeus e dos antissemitas. Nietzsche seria um antissemita com ódio de si mesmo, seus inimigos seriam antes tirados de si mesmo do que realmente existentes. Quando ele, que vivia boa parte do ano inválido, doente, fala dos fracos, está fazendo introspecção, o nosso filósofo para todos os gostos –e desgostos. Os autores –um nietzschiano os consideraria um só corpo com muitos membros ou tentáculos -- recusam também o ponto de vista marxista e se colocam mais próximos da democracia liberal. Eles se movem pelo desgosto com o Nietzsche que inspirou o pensamento 68 e que, naquele ano de 1993, estão providencialmente derrotados.
Na metafísica de Nietzsche, a subjetividade é absoluta. É uma subjetividade do corpo, dos instintos e da vontade de potência. Nietzsche teria, a propósito de tudo, duas opiniões. O processo é o seguinte: alguém refuta uma frase de Nietzsche. No entanto, aí chega um nietzscheano, e eles existem às pencas, e diz que Nietzsche diz o oposto, fazendo a delícia do comentador e o tormento dos que não seguem Nietzsche, que é o caso dos autores dessa coletânea, que pensam Nietzsche, mas que não se pretendem nietzschianosSponville bate com força: Nietzsche é defensor da besta loura germânica, do sofista e do esteta; do sofista como falastrão que engana, da besta loura como apologia do racismo germânico e do esteta como cínico e entediado admirador da arte. Ele próprio seria um tipo mais refinado de sofista: Nietzsche, o Cálicles de nosso tempo. Ele seria alguém que, ao se colocar no lugar da não-verdade, mesmo assim quer criticar a todos. Ele é o sabichão que sabe “a verdade da não-verdade”, que fala que não há fatos, só interpretações. Mas e essa frase, é fato, ou interpretação?
O motivo-guia para entender o sofista refinado que seria Nietzsche seria que a verdade para Nietzsche só é verdade se ela tem valor para a vida. O vitalismo comanda. Conhecer é avaliar, só avalia bem quem avalia em função dos desejos. Dogmatismo e sofística se casam. Ele é além do verdadeiro e do falso. Nietzsche produz, na França, a filosofia tagarela de Bataille, Blanchot, Derrida, etc, ou seja, blá blá blá sofístico. O que resta? Restam avaliações subjetivas de um criador de valor. O nietzschianismo é uma monadologia sem Deus, sem mônadas. Se não há verdade, como saber se Dreyfus era culpado, se os nazistas incendiaram o parlamento? Nietzsche quis livrar-se da lógica, da moral. Para o esteta, a estética ocupa o lugar delas.

Em estética, Nietzsche opõe estetismo a moralismo, preferindo sempre uma bela mentira a uma verdade feia. Para Nietzsche, a arte é que faz um mundo, o mais profundo é a aparência. Se Boyer e Comte-Sponville atacam Nietzsche e sua interpretação libertária, Vincent Descombes se prolonga ao descascar Deleuze e Foucault, que tacha de irresponsáveis, tolerantes com as frases estúpidas de Nietzsche, contraditórios ao repor uma dialética onde há uma filosofia alérgica à dialética. Ele observa, argutamente, que o Marx de Foucalt é o Marx do revisionismo, do relatório Kruschev, é o Marx anti-Lênin. Descombes não considera que Nietzsche pense bem a vida em sociedade. Para ele, esses conceitos nos levariam a pensar que a domesticação do cavalo foi um dos momentos mais importantes da história, dentre bobagens.

Descombes não concorda, no entanto, com a filosofia de Habermas, que opõe os nietzschianos ao seu projeto de modernidade. Isso seria confundir Nietzsche com um reacionário qualquer. E esse é o ponto de Luc Ferry e Alain Renaut: Nietzsche é moderno, mas ao mesmo tempo é anti-moderno. Robert Legros considera que Nietzsche tenta abolir tanto a metafísica platônica quanto o materialismo, mas que a simples inversão do platonismo não contemplaria a concepção de Nietzsche. Ele não acredita no sensível tal como Platão o define. Invertendo o platonismo ainda não se seria nietzschiano.

Para Philippe Raynaud, autor de Nietzsche educador e crítico da modernidade, traçando um paralelo revelador entre Weber e Nietzsche. É o texto mais misericordioso com Nietzsche, mas mesmo assim observa que Weber se inspira em Nietzsche em alguns conceitos como o de carisma e desencantamento do mundo, assim como sua oposição à filosofia da história, mas mesmo assim não leva até o fim a crítica de Nietzsche à ciência e à razão. Weber privilegia o Nietzsche da fase iluminista, mas mesmo assim Legros observa que Nietzsche faz a apologia da loucura como importante para destruir a tradição, mas apologia da loucura, bem entendido. A fase racionalista estaria inserida numa moldura irracionalista.

Robert Legros fala da metafísica nietzschiana da vida. Ela acabaria repondo a dualidade entre humanidade e natureza. Nietzsche (como sempre) fala muito em sujeito soberano, em espírito livre, mas também tem uma posição oposta e busca dissolver o eu. A natureza pensa ao se conservar, enquanto o homem não é de fato um sujeito e sim um corpo pensante. O homem não pensa: é pensado por seu corpo. Se o belo é o que faz crescer a vida, então o belo talvez fosse natural. Pensando assim, Nietzsche ora pensa num dualismo radical, ora tenta superar a metafísica. A forma como Nietzsche opõe o senhor e o escravo opõe o pensamento como processo e o processo sem sujeito. Está de volta, novamente, a velha metafísica que se queria afastar no berro e na base da martelada.

O texto mais frágil da coletânea é o de Taguieff, que encontra influências de Nietzsche na Action Française (movimento nacionalista de direita francês) dos anos 30, o que não deixa de ser comprometedor, pois aí Nietzsche é posto ao lado de nacionalistas, monarquistas e católicos. É evidente que Nietzsche urraria para não ser misturado com eles. Ele observa que a transmutação de todos os valores é algo indesejável, pois nem todos os valores precisam ser mudados. A metáfora alquímica traz, inclusive, a idéia de ascetismo, parte da metafísica que deveria ter sido abandonada. Como Taguieff deixa subentendido, Nietzsche sonhava em ser adotado como ideólogo pelo estado imperialista alemão, bastando para isso que o Reich abandonasse o evangelho dos humildes. Nietzsche sonharia em fazer sucesso como o sucesso do imperialismo e teria se preparado para isso, o que explicaria seu sucesso no momento atual. Mesmo que ele se disfarce em máscaras e metáforas para evitar os conceitos, fica claro que Nietzsche não pretendia mudar o sistema econômico –do qual não entende patavina – e sim somente os valores, o que desde sempre naufragaria em besteira.

Um comentário:

Um Peixe que pensa disse...

Estava precisando ler um artigo contra Nite. Valeu pelos comentários. Abraço.