quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Uma carta para Erik Fishuk sobre o pcb nos anos 50

Erik, antes de mais nada, creio que é preciso levantar alguns pontos. Em primeiro, é uma pena que o trabalho já esteja terminado. Porque, primeiramente, para analisar o que o PCB pensava no período dos anos 50 no Brasil, era importante determinar o que aconteceu na URSS nessa época. Procurar evidências históricas.

E o que aconteceu? Stálin morreu, Beria o sucedeu, durou três meses e foi preso e morto num complô. Para garantir o sucesso do grupo, o marechal Zhukov deu um golpe garantindo o poder de Kruschev. Consolidado Kruschev, esse expôs sua nova interpretação da história em 1956: um relatório onde destruía a reputação de seu antecessor. O sucedâneo ideológico do golpe de estado que tinha sido dado. Ao fazer pesquisa em fontes primárias na Rússia, o professor Grover Furr verificou que o relatório contém 60 acusações falsas e uma duvidosa, das 61 que são feitas. Prestes entendeu parcialmente a situação ao repetir isso aqui dentro do PCB, tanto que deu o golpe ele mesmo, destituindo os seus camaradas do comitê central, ou seja, criando o racha que gerou o PC do B. Talvez ele pensasse que o golpe era inevitável. No fim das contas, o golpe foi contra ele mesmo, daí seu afastamento posterior. O que se deveria fazer, nesse caso, não era romper e sim discutir exaustivamente os temas tratados por Kruschev, pesquisar no próprio Lênin, traduzir artigos, etc.

Kruschev, com esse relatório, não visava apenas o poder, afastando o grupo de Stálin definitivamente, mas também agiu para colocar o seu grupo, que representava a burocracia autoritária, definitivamente no poder, colocando uma interpretação que se mostrou falsa do marxismo-leninismo (mas que só se mostrou definitivamente falsa quando aplicada por Gorbachev). Kruschev era parte de uma burocracia que passava a trabalhar no sentido de se tornar burguesia, mas não podia pregar a contra-revolução pacífica abertamente. Mas como, você poderia perguntar, a burocracia autoritária não estava no poder com Stálin? A resposta é não, no período Stálin, assim como depois na revolução cultural chinesa, o partido estimulava a cobrança do povo em relação aos dirigentes. Kruschev inverte o sentido das cobranças do período Stálin: na coletivização, industrialização forçada e expurgos, a grande pressão era foi sobre a burocracia e os dirigentes, recaindo sobre o povo em momentos como a Yezovchina, a conspiração de Nikolai Yezhov (o próprio chefe da NKVD era um conspirador zinovievista-trotsquista que prendeu inocentes para estimular um golpe, vejam só), mas que não foi o sentido geral dessas cobranças.

O artigo fala sobre a URSS, mas baseia-se em historiadores de corte trotsquista ou eurocomunista como Wallenstein e Claudín. Kruschev favoreceu muitíssimo essa linha de pensamento. O resultado do relatório Kruschev foi o racha internacional do movimento comunista, com a China e a Albânia rompendo com a União Soviética e inúmeros rachas ocorrendo mundo afora, inclusive no Brasil. O racha na Hungria, em 1956, acentua o que é o kruschevismo na prática: contra-revolução pacífica inspirada no titismo iugoslavo, mas que no contexto húngaro descamba para guerra civil, evitada com a intervenção do exército vermelho. Tito era o kruschevismo antes de Kruschev.

No Brasil, penso que a grande questão, desde 1945, é que o partido hesitava em considerar Vargas e seus seguidores como aquela burguesia nacional que deveriam apoiar para cumprir um programa reformista. Um dos motivos é que mesmo o governo Vargas ou Jango não chegam a legalizar o partido comunista, o que o deixou numa situação desfavorável. Vargas e Jango representavam essa burguesia nacional e por isso foram apagados da história.

O kruschevismo favorece tanto o reformismo eurocomunista quanto o trotsquismo e outros desvios que visam, no fim, Lênin. Kruschev foi o desafogo e a festa dos intelectuais de classe média, satisfeitos de enfim se verem livres de conceitos como “ditadura do proletariado”.

Essa burguesia nacional existia, representada por empresários como Wallinho Simonsen, dono da TV Excelsior e da Panair, que apoiou Jango até o fim em 64 e perdeu suas empresas por causa disso. Esse setor apoiou, de fato, medidas que implicavam em disputar um projeto com o imperialismo, tais como reforma agrária e taxa de remessa de lucros para as multinacionais. O projeto nacionalista de Hugo Chávez, bem sucedido, constitui-se basicamente no sucesso da boliburguesia ( que nada mais é do que a burguesia nacional) que estabeleceu uma aliança com partidos e movimentos sociais que apóiam o presidente. O PT repete em certa medida essa aliança no Brasil, mas a burguesia nacional não existe da mesma forma aqui, existindo apenas uma burguesia de interesses nacionais, tais como Eike Batista, na prática associada ao capital internacional e às multinacionais, mas que lucra com um projeto brasileiro próprio.

Aliás, voltando, seu tema principal é a “inevitabilidade do socialismo”. Ora, esse discurso é justamente o tal socialismo democrático que, com o tempo, o PT promete que vai chegar. Ou seja, vai chegar tanto como se fosse um Gorbachev prometendo que vai chegar!

Para quem quiser ler o artigo original, o blog do Erik é:

http://materialismofilosofia.blogspot.com/2012/02/erick-fishuk-inevitabilidade-do.html

2 comentários:

Erick Fishuk disse...

Estimado! Obrigado pela resposta, não sabia que ela viria tão rápido ;)

Estou sem tempo agora, leio depois e faço uma resposta, ainda não sei se por comentário mesmo ou por um novo artigo. Aliás, me permite republicar sua carta no meu blogue?

Abraços!

Revistacidadesol disse...

Oi, Erick!

Claro! Vamos conversando.

Não estou citando bibliografia, mas estou me baseando mais no que li de Fernando Henrique sobre o empresário nacional e o desenvolvimento econômico, O Princípe da Moeda do Gilberto Vasconcellos e outros livros dele, assim como Grover Furr, Yuri Zhukov, Arch Getty, Mark Tauget e outros que leio em inglês.

Abs do Lúcio jr!