Um observatório da imprensa para a cidade de Bom Despacho e os arquivos do blog Penetrália
sábado, 25 de julho de 2009
Oswald Thomas e a Montagem de Romeu e Julieta no Tabuleiro de Xadrez
Ontem, Oswald Thomas fez uma montagem fantástica de Romeu e Julieta, colocando-os num palco que era um tabuleiro de xadrez e onde eles eram vestidos como peões. Outros estavam vestidos de cavalos e torres. Os atores reclamavam que mal conseguiam se mover com a complexa roupa que usavam. Oswald ficava atormentado, desejando mais cinza, menos luz. Eis que de repente ele mudou de ideia, gritando: "I´m feeling!"
Logo em seguida teve uma sequência ótima: ele introduziu uma dinâmica, diz ele, do teatro Oficina onde todos os atores se lambuzavam com tinta no escuro. Essa dinâmica, disse ele, era para repor toda a sensualidade da peça, que inicialmente ele tinha tirado. As imagens de mãos e corpos coloridos no escuros, além de gritos, foram acompanhadas de uma música dos Mutantes. Foi uma das melhores sequências da minissérie.
A montagem de Romeu e Julieta que Oswald Thomas fez me pareceu ter uma "quarta parede" entre os personagens e o palco, composta de cortinas. Ela não me pareceu tão ousada quanto a montagem "tabuleiro de xadrez" onde eles eram meros peões do "Jogo da Vida" e que tinha me feito rir bastante.
No núcleo Felipe Camargo da novela, digo, da minissérie, Dante ficou com Ellen, espantou o fantasma de Oliveira, vingou-se de Henrique/Macbeth desnudando-o de surpresa no palco, etc.
Oswald Thomas, que já era um personagem caricato do diretor de vanguarda à la Peter Brook no original, foi turbinado pelo Meirelles com alguns traços paródicos de Gerald Thomas, mas mesmo assim foi o melhor personagem da minissérie a meu ver.
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Oswald Thomas: "Romeu e Julieta são apenas personagens!"
A história dos dois atores foi se misturando com a de Romeu e Julieta, tal como se os dois fossem Felipe Camargo e Vera Fischer apaixonando-se num amor incestuoso ao viverem Édipo e Jocasta, amor da Globo ao dinheiro e ao apoio do Estado. É interessante saber que Caetano Veloso também partilha desse amor e que a Veja sofre desse amor rejeitado.
Dante (Felipe) é tão bom em resolver problemas dessa ordem que até heterossexualizou o jovem Romeu, que desabrochara ao interpretar Julieta: "ah, meu sonho era interpretar Julieta..." Ainda bem que não rolou um cross-dressing. Romeu chegou até a perder a virgindade heterossexual com Julieta.
"Romeu e Julieta são apenas personagens!" Gritou ele com a atriz.
"Não! Eles são jovens apaixonados!"
Pior é que, embora o olhar da minissérie seja totalmente contra o Oswald Thomas, acho que nisso ele está certo. Ninguém deve viver exatamente aquilo que está vivendo numa representação no palco. Afinal, arte é representação, construção, fingimento. Hamlet algum resistiria ao realismo da Globo. Se eu fosse adaptar Hamlet para a Globo ia tirar um sarro com o realismo da novela, ia colocar ele como um esquizofrênico ouvindo a voz do fantasma de Leonel Brizola, chamando-o de traidor e homossexual e atormentando-o com o aviso de que o usurpador Roberto Marinho matou Getúlio Vargas.
Dante quer Macbeth nu e isso será um momento-chave para o final da peça, que é hoje. O ator parece que entrará em parafuso com essa orientação de Dante, pois ele e esse ator são inimigos mortais. Parece-me que Zé Celso fez um Ham-let (nos anos 90) onde o fantasma do pai de Hamlet aparecia nu.
Soube que Bárbara Heliodora reprovou as traduções de Shakespeare usadas na série, assim como mostrou não gostar dessa comparação dela com o Bárbaro nem com a do Oswald/Gerald Thomas.
Em Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde, acontece algo assim: a atriz, até então talentosa, representa uma Julieta monstruosa, desastrosa, horripilante. A cena do balcão mostra-se tão ruim que Dorian Gray sente nojo dela, uma moça bonita que ele está seduzindo. Ao final da peça, a atriz, até então relutante, diz-se loucamente apaixonada por Dorian e por isso fez o papel tão mal. Horrorizado, Dorian rejeita-a por sua horrenda interpretação e deixa-a só, desesperada.
Essa passagem ilustra a relação arte/vida para Oscar Wilde: não se representa paixão se você está tomado por ela. A arte é artifício, faz-se a partir da falta, do falso. Eu concordo, pelo menos em relação aos conceitos realistas retrôs da Globo (e, por extensão, da O2 e de Fernando Meirelles).
A Globo está mais para Shakespeare in Love, roteiro caça-níqueis do Tom Stoppard para garantir o caviar nosso de cada dia, onde Shakespeare vivia Romeu e Julieta e duelava com o Conde de Essex. Já o Shakespeare histórico dedicou sentidos poemas ao Conde (que era seu mecenas), poemas que levaram muitos críticos, entre os quais Oscar Wilde, a suspeitarem que os dois eram amantes.
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
Metafísica do Amor e do Ódio
Marcelo Castilho Avelar escreveu um texto muito bom sobre Romeu e Julieta no Pensar de 13 de setembro de 2008. Romeu e Julieta, defende ele, não é uma narrativa realista nos termos em que conhecemos. “Bombardeados pela opção realista do cinema americano e o naturalismo da televisão brasileira, os aprendizes de teatro costumam pensar o realismo como possibilidade supostamente natural da narrativa. E, se natural, então não-histórica, já que teria existido desde sempre.”
Como explica Marcelo, em Romeu e Julieta, Teobaldo odeia Romeu sem que a narrativa se preocupe em explicar o porquê. Já pensou se as personagens da novela, Donatela e Flora, se odiassem sem motivo explicado? Será que o colapso de audiência seria maior do que o anunciado? Quando Teobaldo e Romeu se encontram na festa dos Capuleto, Teobaldo já odeia Romeu: logo em seguida é humilhado por causa dele pelo tio, um velho Capuleto que não aceita que Teobaldo moleste o Romeu que acaba de entrar de penetra na festa.
Mais adiante, continua Marcelo: “Hoje, como os paradigmas que norteiam nossa visão de mundo fazem com que sejamos incapazes de construir personagens metafísicas, temos dificuldade, também, em reconstruir metafisicamente tais criações de outros tempos. O ator contemporâneo buscará, desesperado, as motivações de Teobaldo (observação minha: principalmente se seguir o método de Stanislavski), mesmo sem perceber que todas as respostas que dá estão fora do texto. Já se falou dos traumas de Teobaldo como príncipe menor (possivelmente órfão de pais que não puderam criá-lo, de uma família que tem como herdeira uma mulher, já se falou de possíveis desvios sexuais, já se falou da intenção metafórica do autor). São caminhos que possibilitam o trabalho do intérprete ou do encenador contemporâneo, mas não alteram em nada o conteúdo de um texto, o que ele não nos diz: a possibilidade do mal em forma pura, independentemente de motivações, um mal quase divino ou demoníaco, emocionante exatamente por estar além de nossa frágil compreensão”.