segunda-feira, 19 de julho de 2021

Poeta à Procura de Editor

 

Poeta à Procura de Editor

 

Belo Horizonte, tarde da noite. Um rapaz andava furtivo pelas ruas do Centro, entre as criaturas que circulavam na região: michês, vagabundos, boêmios, travestis, funcionários de bares e boates.

De repente, um spray. Gesto felino, Picasso dando uma pincelada num quadro, escrevia um poema na parede de um prédio ou casa. Para exercer aquele seu talento, o jovem jornalista André Duarte, que usava o sucinto pseudônimo de Spider, precisava ser rápido e ter olho de lince: a qualquer momento poderiam surgir gangues de pichadores que disputavam com ele o território. Se o pegassem escrevendo, a surra era certa. Ele só julgava que duas gangues faziam pichações interessantes, mais próximas das grafites: os Leiloeiros e os Falsários. Ele implicava com Leiloeiros: apreciava mais os Falsários. Os Leiloeiros faziam estranhas garatujas gestuais, como se pintassem quadros de Pollock ou Basquiat. Por não gostar desses dois pintores, Spider os desprezava e às vezes pichava: “fora os Leiloeiros, viva os Falsários” em algum canto de muro, muito discretamente, buscando evitar represálias. Os Falsários tinham como referência não a pintura ocidental, mas sim os ideogramas chineses e japoneses; assim como os alfabetos árabe e cirílico. Mas, principalmente, Spider era fascinado pelo aproveitamento que eles faziam do alfabeto georgiano, como na pichação transcrita adiante: “ანოტაციების მსოფლიო ცენტრი 34 ენაზე!”

Certa feita, o “poeta à procura de editor”, como ele se intitulava, escreveu na parede de um consultório de dentista, bem próximo à Rua da Bahia: “remédio contra a cárie: poesia”. Na parede de uma peixaria, lascou: “o peixe existencialista: nada”. Um dia revelou à grande imprensa que o “poeta à procura de editor” era ele. Pouco depois, obteve grande sucesso editorial, não com a poesia, mas com o best-seller educativo “Docência e Insanidade” e o clássico da Administração: “Quem Cuspiu no Meu Chope?”. Mas isso foi antes que ele enlouquecesse. Foi internado num subúrbio da cidade de Barbacena. Eu o visitei no manicômio e esqueci de tirar o meu brinco. Ele me entregou uma rosa e, apontando para a própria orelha, disse: “eu não sou bicha não, mas você, hein...” Devido à qualidade de seus escritos literários, jamais reunidos em livro enquanto André Duarte, digo, Spider, ainda tinha lucidez, reproduzo aqui o início do conto Vindima, que faz parte do livro Parafernália Teratoscópica (agora sou eu quem está em busca de editor!): “Por mais que eu deseje descer ao Inferno, as luzes estão apagadas, não há ninguém em casa e amanhã todos ainda estarão bêbados demais, incapazes de me receber”.

 

 

 

 

 

 

 

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