quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Quarentena Poética: Palavras Que Abraçam

 

Quarentena Poética: Palavras Que Abraçam

 

O livro coletivo Quarentena Poética (Editora Literatura em Cena, 2020), organizado por Eduardo Lucas Andrade e ilustrado por Indries Andrade Simões, surge sob o signo do pesadelo que o coronavírus disseminou pelo mundo. Há, então, a necessidade de ser produtivo em meio a esse contexto que nos impõe isolamento social, quarentena, etc. As palavras, então, fazem o papel do abraço. Daí que todos são convidados a fazer poemas para suportar e entender esse momento histórico que estamos vivendo, bastante similar ao que passou-se no tempo da gripe espanhola.

Adriano Felipe da Silva utiliza as imagens míticas da Arvore e Terra para tratar da intensidade de um relacionamento amoroso. Ao final, quando o homem corta a árvore, ele corta seu contato com o “Homem de Olhos Verdes”. A Terra é um personagem que deixou que alguém criasse raízes em si e depois foi embora. O conto é para sublimar e ficcionalizar essa dor intensa. Sem dúvida, Adriano é um poeta intenso, mítico, caloroso.

Andressa Aguiar também lida com a dor. Primeiro, a dor de não conseguir escrever. Os poemas em prosa em prosa que produz chamam-se então, bem significativamente, Impasses: “Entre caos e frustração me vi olhando pela janela em um dia chuvoso, ouvindo uma canção francesa no fundo. Dias assim me são nostálgicos. Desperta-me para sentimentos que nem sei de onde vêm” (AGUIAR, 2020, p.27). 

A seguir, temos os pensamentos intermitentes de Claudete Maria Coutinho. Ela tratou de um tema dos mais delicados na pandemia: o lar, no poema Confissão ao Meu Lar. Ela conta que sentiu solidão, que falou sozinha, mas que superou rezando, ficando junto dos filhos, tratou da casa, dos torrões das paredes, dos rabiscos das crianças, fez sopa, plantou azaléias. Fez as pequenas coisas que podemos fazer para nos sentir melhor. Outro tema que ela abordou: a solidão, uma verdadeira doença da pandemia.

A pandemia e o contexto histórico foi o tema de um poema de Daniela Arêde: “Pandedia”: “Outro dia, mais um dia/Amanheceu o dia/O sol há de brilhar”. E ela também sublinha a necessidade de lutar contra o neoliberalismo e o fascismo que estão no poder no Brasil, dificultando ainda mais a vida social.

Elisabete Andrade Araújo trata de lembranças que, agora nos tempos da pandemia, precisamos resgatar. São os afetos da avó e da neta, contatos agora dificultados, mas que podem ser lembrados e transformados em poesia. São as recordações de infância em Patos de Minas: "Na minha infância, minha mãe fazia doces num lindo tacho de cobre". A pracinha onde brincávamos em nossa cidade do interior...Lembranças boas que, nesse momento de isolamento social, é muito aprazível retomar e transformar na saborosa prosa poética que ela produz, uma poesia doce como os pés de moleques, doces de ameixa, doces de leite e de queijo que aparecem maravilhosamente no poema Recordações de Infância (ARAUJO, 2020, P. 64).

            Evandro Vaz Santos, em seu Quarentologia, também aborda esse drama do esvaziamento das ruas, da falta do contato humano: “Acostumada estava...Tantas pessoas a andar na rua...E eu, em minha casinha, esculpida por mãos humanas, espreitava uma chance de contato...Sempre deixavam algo degustável, naquela Praça...Agora, vejo poucos por aqui...E, a maioria passa em disparada...” (SANTOS, 2020, p. 76).

            Felipe Perin é um analista atentou ao “Antes do Corona, Depois do Corona” e seus dilemas. Como viver numa casa onde a convivência sempre foi rasa? Fazer o quê dentro de casa? Ele vai bem no coração do drama que estamos vivendo: “Antes, não tínhamos tempo para fazer, depois, não temos mais o que fazer”. Nossa vida, segundo ele, passou a estar no passado. Antes estava no futuro. Ele alerta que é preciso viver o presente, é uma barra, alerta. Os poetas são a antena da raça mesmo, penso ao ler Soneto da Quarentena e Que, tratando da difícil necessidade de tocar, abraçar, transar, nesses tempos em que não se pode tocar, a não ser a si mesmo. Outra obrigação é sentir o tempo de outra forma, repensar o tempo.

Fernando Vincit tratou também da falta, sensação muito acirrada nos dias que correm, no seu poema Peixes: “Eu sinto falta do seu beijo morno, por que era assim que eu sentia quando seu cigarro estava ao lado”. Para Vincit, os poetas escrevem a verdade, nem que seja por um minuto.

Guilherme Camargo Meira fala, de um a dez, dos seres que andam com o coração no último grau de decomposição, mas que caminham com a carcaça feliz. Hildacira Gritti explica o nosso problema: “Corpo de Dor”: “Não sou furo, sou borda/ Infinitamente cortada à lâmina/não sou a dor de um corpo,/sou só um corpo de dor/eu não busco a morte/porque já flertamos/e ela também não me quis”. No poema Finitude, ela trata mais diretamente desses estranhos tempos em que perdemos a autonomia: “Eu vi a pressa nos funerais, o impedimento do adeus, a dor se acumulando num canto, para ser tratada e esquecida depois”.

Jefferson Guimarães Rodrigues fala de Minas. Em seus poemas, encontramos aço e flor fundidos. Há uma tocante homenagem a Marx, sutilíssima, uma crítica à Vale do Rio Doce que a vê como o demônio indígena Anhangá, assim como ele vê o futuro da catástrofe ecológica em Restituição de Posse. Muito me impressionou o poema Filha de Animais e Homens. Nele, a poética de Jefferson torna-se barroca no bom sentido, no sentido de Murilo Mendes: “Margarida selvagem, que brota do cemitério de cachorros, cães germinados, respiram o ar composto pelo pó, do meu avô, carbonizado” (RODRIGUES, 2020, p. 139).

Juliana Santos fala de forma muito cativante sobre um psicólogo, homenageando-o: “Aquele que te auxilia a suportar, e te mostra, que além da dor, existe a beleza de amar-se e o poder de ser seu próprio curador.” (NASCIMENTO, 2020, p. 143). É uma poema muito original e belo em homenagem a um psicólogo e a essa profissão. Como ela muitas vezes lida com o que há de mais repugnante em nós, suponho que poucas vezes origina poemas tão belos, ao menos na literatura brasileira.

Juliana é voltada para outros assuntos além da quarentena e da pandemia, adota temas líricos. É notável o contraste da poesia de Juliana com o tom mais amedrontado e sombrio de Larissa Wes Jorge, que trata dos temas da pandemia: “Luta contra um inimigo não conhecido assusta, ninguém sabe como tudo isso chegará ao fim. Como vamos estar e se esse final será bom ou ruim” (JORGE, 2020, p. 154). Os poemas de Larissa foram direto no essa quarentena nos faz sentir: “Acordei sem vontade de viver/Não quis ligar a TV/Nem ler o jornal”. Ela sente angústia diante das ruas que se fecharam, das pessoas que não mais olham.

Luana Gomes também é uma professora e estudiosa da psicanálise. Ela escreve de forma íntima, temos a impressão de que estamos invadindo sua privacidade, folheando seu diário. É um “veraneio contigo” mesmo, ela chama, atrai, seduz. Ela conta de uma cirurgia que teve de fazer e que implicava em altos riscos, conta de um amor à primeira vista e de uma ida dramática ao psicólogo, que me tocou profundamente: “Contou seus casos e no meio teve uma crise de choro que lhe doía o estômago”. Ela conta que recebeu “espaço infinito” de sua analista.

Luciane da Silva Queroga fala de um curioso teatro poético interno: “O Ato Sem o Amor”. Ela fala da necessidade de não deixarmos que o medo tome o papel de estrela do nosso palco interior. No teatro da alma, não pode valer o caos: temos de invadir o palco e decretar que o protagonista do teatro de nossas almas é sempre o amor, somos donos do espetáculo. O poema “Encaixe Perfeito” fala de um Romeu e uma Julieta modernos: “ela voava, porque ele se tornou suas asas”.

Esse encaixe ou desencaixe do amor e suas “variedades” é um dos grandes temas de Mirelli Barbosa Martins e de um texto dos mais curiosos, onde ela reflete sobre a fêmea ser o lugar de falta em “Buracos de Todos nós, Amém”, onde ela discorre sobre macho e fêmea não com ajuda da teoria da castração de Freud, mas com a teoria de um vendedor de lajotas: “Afinal, por que ter buraco era tão ruim para aquele vendedor? Talvez ele tivesse medo do que ele poderia fazer com os próprios buracos”. De fato, Derrida revê essa a teoria da bissexualidade de Freud e toma a mulher e não o homem como o modelo da sexualidade humana (MARTINS, 2020, P. 200).

Natália Abreu também trabalha na confluência de poesia e psicanálise e avisa que não é só uma, é muitas: “criança, menina, mulher, esposa, amiga, filha, profissional, espiritualista...são tantas que fica difícil listar. A compreensiva, educada e gentil, que sabe escutar. ” (MACHADO, 2020, p. 202). Sua poesia espelha a multiplicidade dessa mulher mágica, que trabalha na confluência do divino e da loucura.

Rafael de Sá Machado, numa outra chave, fala da modernidade líquida: “Nosso egoísmo e mesquinhez, apontando uns contra os outros, nossa falta de empatia, nossos tropeços, de uma breve existência”.(MACHADO, 2020, P. 244). Seus poemas funcionam como incêndios, é toda uma antologia poética. Mas é importante que ele pontua, em nossas vidas, a oposição entre artistas e fascistas: “Artistas, escritores, poetas, romancistas, lutaram como podiam, sem endurecer, para calar os fascistas” (MACHADO, 2020, p. 247).

            Saulo Mazagão é outro autor que me toca com seu bucolismo mineiro e suas pontuações bem colocadas, no sentido tanto do analista que vai ao ponto quanto do poeta que vai direto no sentimento. Ele me faz pensar numa das últimas, senão a última entrevista de Drummond, evidentemente deprimido, a um interlocutor que creio que era o Luiz Fernando Emediato. Em dado momento, Drummond comenta com ele que Emediato é mineiro, mas que Minas já foi um lugar que produzia boa literatura, mas não é mais. Os mineiros tendem a ser econômicos com as palavras, o que é essencial para produzir boa literatura, bons poemas. Saulo Mazagão, sendo grande admirador de Drummond, está aí para provar que Minas ainda produz bons poetas!

Raul Rizzo é um engenheiro da poesia que, mais do que o engenheiro de alma João Cabral de Melo Neto, espelha-se no momento atual para reescrever o Agora José de Drummond, texto muitíssimo atual. E agora? Stop, a vida parou, foi o dia em que a Terra parou do profeta Raul Seixas, atualíssimo também. Rizzo também fala de vivências fundamentais e atuais, a atual solidão compartilhada, algoritmada: “O celular é minha consciência, meu corpo, meu desejo e meu aflito. Como posso ser um celular, se sou bicho de pele, pé, boca e beijo”. Sem dúvida, nossas vidas estão agora nesses pequenos celulares, passamos a ser ferramenta. O celular passou a ser quase uma extensão de nosso corpo, de ferramenta, também nos tornou ferramenta, como explica Rizzo, diante dele e das redes sociais, somos “minimamente existência”.

Wildicleia Oliveira Lopes escreve poemas-cartas que dão asas aos desejos com bastante fineza. É linda a sutileza com a qual ela conta do ato de ajudar uma amiga a arrumar uma mala: “Pega as roupas velhas e surradas pela repetição do uso e põe como base para esta nova montagem, elas servirão de suporte caso a mala sofra um grande baque” (OLIVEIRA, 2020, p. 250).

Essas palavras dessa antologia poética são muito alvissareiras. Os poemas de todos esses poetas, alguns publicados pela primeira vez, literalmente nos emocionam e aquecem o coração!

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Elixir do Pajé, Origem e Orgia: Textos de Prazer

 

O Elixir do Pajé, Origem e Orgia: Textos de Prazer

 

O Elixir do Pajé (Editora O Sexo da Palavra, 2017), acoplado a outros dois saborosos textos, Origem do Mênstruo e Orgia dos Duendes, é um bom exemplo de texto de prazer. O prefácio de André Luís Gomes de Jesus também é muito preciso, situa muito bem o autor e essas obras.

É pensar que esses poemas são de 1875, ou seja, são contemporâneos das narrativas indianistas que satirizam! São tão modernos que parecem ter sido escritos um século depois! E Bernardo Guimarães foi também o autor da canônica Escrava Isaura...Consagrada depois no meio audiovisual e cuja trilha sonora, inesquecível, ainda ressoa nos ouvidos: “lá-iê-iê...lá...iê...iê”..

Como diz André Jesus no prefácio, o nosso cânone ocultou essa poesia  erótica. O Elixir é antes de mais nada um elixir contra a hipocrisia. A semelhança entre métrica e rima com o Canto do Guerreiro de Gonçalves Dias é mais que um diálogo, é hilária. Após criar uma “garrafada” com as “plantas cabalísticas” colhidas, graças a esse feitiço, o pajé passou a praticar a diversidade sexual, pois era visto com os machos e as fêmeas de sua aldeia: “Esse vejo pajé de pica mole/com uma gota do feitiço/Sentiu de novo renascer os brios de seu velho chouriço”. Não como não ouvir I Juca Pirama: “Meu canto de morte, guerreiros ouvi”. Recentemente, Elixir do Pajé foi transformado em filme por Helvécio Ratton, com participação do ator Paulo José.

A Origem do Mênstruo faz piada com os deuses do Olimpo, inventando o mito que deu origem à menstruação. Aparece como “fábula inédita de Ovídio”. A deusa Vênus, a quem a ninfa Galatéia quis pregar uma peça, rasgar acidentalmente sua genitália com uma navalha e pôs-se a sangrar: “Vê! Que fizeste, desastrada ninfa,/Que crime cometeste! /Que castigo há no céu, que punir possa um crime como esse?!/ Assim, por mais de um mês inutilizas/O vaso das delícias.../E em que hei de gastar das longas noites/As horas tão propícias?” Apolo, então, curou a deusa, mas lançou sobre todas as mulheres a maldição de sangrarem todos os meses: “Para punir tão bárbaro atentado, toda humana crica, de hoje em diante, lá de tempo em tempo, escorre sangue em bica...”

A Orgia dos Duendes, por sua vez, é a descrição de uma festa noturna macabra: “Lobisome apanhava os gravetos/ E a fogueira no chão escondia/revirando os compridos espetos/para a ceia da grande folia. Junto dele um vermelho diabo/Que saía do antro das focas/pendurado num pau pelo rabo/no borralho torrava pipocas”. É uma linguagem erótica e burlesca, ao meu ver, tanto para sua época quanto para a nossa. André de Jesus, no prefácio, recomenda a leitura do conto Onde Estivestes de Noite, de Clarice Lispector, como tendo intertextualidade com o poema de Guimarães. O conto refere-se a uma “viagem astral”, um ritual iniciático do qual participa uma figura andrógina, referida como “Lúcifer Querubim”. Duendes também participam desse ritual que, no texto de Clarice, se passa no imaginário. Já o poema de Guimarães é apresentado como real.

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 14 de fevereiro de 2021

Acabou Nosso Carnaval

 

Acabou Nosso Carnaval

Lúcio Jr

 

            Minha geração foi a última a ver as turmas de carnaval em Bom Despacho. E, com certeza, uma das últimas a ver os desfiles das escolas de samba. Lembro-me do desfile em 1988. Era especialmente fascinante a escola de Dona Sebastiana, composta só por negros.

            Conversando com parentes que viveram o período, contaram-me que o desfile das escolas de samba foi acabando aos poucos, pois implicava em gastos e dava trabalho.

            As turmas vestiam fantasias e havia o prêmio por fantasia. Lembro-me de ir ao Clube Social e ver as meninas da Unidos por Acaso vestidas com fantasias de capetinhas, de diabinhas. Pensei como devia ser sexy participar de uma turma. Havia outras: Tropicana, Staff, Oi Tentação. Os blocos alugavam uma sede, que era uma sede ou casa velha, à noite tinha o Clube Social e o concurso dos blocos. A cidade era toda decorada, Roniere Menezes fez uma marchinha que tocou no rádio graças ao Célio Luquini; que sem dúvida tem carinho pelas coisas da cidade.

 

NÓS DOIS PELA CIDADE

FOI NO JARDIM SEM FLOR

QUE EU COLHI VOCÊ

DEI UM SORRISO

ABRI MEU CORAÇÃO

VOU TE ABRAÇAR, TE LEVAR PELA CIDADE

LÁ NA BIQUINHA

MOLHEI SEU BELO ROSTO NA MINA

OUVI A SEREIA CANTANDO

MATANDO A SEDE DE MACUNAÍMA

NÓS DOIS, NÓS DOIS NA RUA DO CÉU, MEU AMOR

EM LUA DE MEL NO PARAÍSO

NÓS DOIS, NÓS DOIS, NA CRUZ DO MONTE

SE VOCÊ QUER UM BEIJO, EU TE DOU UM MONTE

NA TABA, TABA, TABATINGA

VI UMA NEGRA LINDA

FALAR EM OUTRA LÍNGUA

NA TABA, TABA, TABATINGA

VI BATUQUE E GINGA

MISTÉRIO DAS COLINAS

NA PRAÇA DA ESTAÇÃO

CHEGOU, CHEGOU A TURMA DO PRAZER

LARGUINHO, GARÇA, QUENTA-SOL

SÓ QUERO AMAR E DESPACHAR O MAL

LÁ NAS PALMEIRAS

VI UMA DONA DOIDA DE PORTA-BANDEIRA

CRIANÇAS DE ÍNDIO, ARLEQUIM FOLIÃO

É SÓ MAGIA, ALEGRIA GERAL NA MULTIDÃO

NÓS DOIS, NÓS DOIS PELA MATRIZ, MEU AMOR

SEM MAL-ME-QUER, SEM DIZ-QUE-DIZ

NÓS DÓIS, NÓS DOIS NA VILA AURORA

QUERO VIVER SETE VIDAS COMO AGORA

NA TABA, TABA, TABATINGA

VI UMA NEGRA LINDA

FALAR EM OUTRA LÍNGUA

NA TABA, TABA, TABATINGA

VI BATUQUE E GINGA

MISTÉRIO DAS COLINAS

 

            Havia um concurso de Rainha do Carnaval. Uma parente minha ganhou, mas era marmelada, pediram a ela para ceder o lugar a duas outras, pois era preciso desfilar no palco. Ela, tímida, ficou aliviada.

            Na minha época (anos 90) eram Ideograu, Locaia, Pelourinho. “Locaia” tinha o termo da Língua do Negro da Costa, “ocaia”, que é mulher. Depois da minha época, as turmas acabaram. Acabou nosso carnaval.

 

 

 

 

Poemas Sobre o Amor (Ou Não)

 

Poemas Sobre o Amor (ou Não)

 

            O livro Poemas Sobre o Amor (Ou Não), de Saulo Mazagão, com ilustrações de Ideraldo (Literatura em Cena, 2019) desperta muitíssimo meu interesse. Penso que é muito importante fazer o que ele faz nesse livro, retomar os poemas como rimas e com métrica. Ele é um poeta que mais diz sim à vida, do que veleja os mares do não.

            Nesse livro, de certa forma, Saulo passa naquilo que sua grande admiração mineira, Carlos Drummond de Andrade, chamou “serviço militar da métrica”, algo indispensável. É preciso resgatar a dicção parnasiana, como dizia Paulo Leminski.  Afinal, os parnasianos dominavam a forma. Isso só não basta, mas é muito importante.

            Para falar do amor, foi preciso que ele falasse do corpo, é há um bom poema e bem representativo de sua produção com esse nome. Tomemos uma sequência de frases que tomo das estrofes: “O corpo é um ambiente sagrado (...). O corpo é minha morada (...). E com ele, abraço minha amada”. É muito boa essa sonoridade, essa musicalidade que Saulo conseguiu atingir. Os poemas rimam, mas o ritmo é bastante singular, é um ritmo pessoal que Saulo busca para conquistar a própria voz.

            Ele também faz o elogio da escultura, dos quadros, da arte em geral. O poema Quadros diz: “São molduras de madeira de pinheiro, feitas para enfeitar a vida, com fotografias do momento que é passageiro, que retrata, relembra e me agrada esse vivenciar, encanto de sentimentos contido em um papel” (MAZAGÃO, 2019, p. 74).

É um diálogo muito necessário entre as artes. O escultor é apresentado como escritor: “Hoje é o dia do escultor! Escultor? Sim! Escultor de significados. Ele pega a palavra bruta, e transforma em obra prima, nas curvas e nas linhas, ressignifica palavras, faz o que for, transforma o pecado em alegria, ódio em amor, sentimentos em poesia, descreve o conto, a crônica e a poesia, diz de teoremas, sobre os sentimentos, diz de ciência, política e magia, ilustra os momentos. A caneta ou lápis, seus instrumentos são. Mas não posso ser careta e esquecer o principal: o coração. Da entonação ao pensamento, faz comédia do morrer, e descreve sobre seu descontentamento, faz tragédia do ato de existir ou viver” (MAZAGÃO, 2019, p. 54).

Saulo bem reflete sobre seu fazer poético em Tarde da Noite: “Tarde da noite/são quando as pessoas dormem,/É, eu escrevo cansado,/E meus olhos e dedos já sofrem/Mas meu cérebro respira aliviado. Mais letras, vomito para fora, cansado de transmutar, coisas que não sei se são de agora”. A transmutação ocorre com mais freqüência quando ele está em solidão. Para ele, como para Glauber Rocha, a morte é invenção da direita: “É inútil, Sr. Satã, sou ateu./E só vou morrer depois do fim”.

 Ele finaliza cantando tanto o aconchego da velha cabana quanto o vestido da amada. São ambos lugares do aconchego, do acolhimento, lugares que ele não deixa de desejar.

 

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

O Menino de Gouveia e Impotência, de João do Rio

 

O Menino de Gouveia e Impotência

 

            O Menino de Gouveia (Uberândia,Ed. Sexo da Palavra, 2017) é uma narrativa compilada da revista Rio Nu, revista carioca que existiu entre 1910 e 1916. A revista trazia mulheres nuas e narrativas eróticas, sendo considerada pornográfica e, depois de pressões religiosas, proibida. É bastante curioso que esse conto de temática gay tenha aparecido nessa revista voltado ao público heterossexual. No prefácio, Fábio Camargo e Edwilson Kennedy explicam que a existência desse conto deve-se ao fato de que a temática sexual vendia produtos já no início do século XX, abrangendo até mesmo a diversidade sexual.

A narrativa utiliza-se de fala popular e crua (usando termos como “mangalho”, “leitada”, “fanchono”) e foi narrada de forma bem coloquial e erótica por “Capadócio Maluco”, um pseudônimo. Mesmo no prefácio de Leandro não há informações sobre quem pudesse ser “Capadócio Maluco”.

A história de um rapaz que, ao declarar amor pelo tio, é expulso de casa e encontra um homem chamado Gouveia, homem que o acolhe. Um “Gouveia”, na época, era o homem maduro que bancava alguém. Daí o apelido do rapaz ser “Bembém”. Bembém é um tipo estereotipado, um homossexual afeminado que tem em seu ânus seu único órgão sexual capaz de lhe dar prazer. Bembém é relacionado com “bombom”. Na narrativa, Capadócio Maluco (pseudônimo do narrador) ouve Bembém falar de sua iniciação sexual com Gouveia, logo após Capadócio e Bembém também terem ficado juntos. São memórias de alcova, por assim dizer.

Ficção de estréia pouco conhecida de um autor depois consagrado, Impotência (Sexo da Palavra, Uberlândia, 2018) é um conto de João do Rio, escritor que completa esse ano o seu centenário de morte.  Não é uma crônica leve e sim uma passagem densa e dramática. Segundo Leandro Mendes, o conto possivelmente é uma narrativa que passa-se no cérebro de um homem gay do século XIX. Nesse tempo, 1899, João do Rio ainda escrevia com seu nome verdadeiro, Paulo Barreto. Esse primeiro conto, agora esquecido, foi editado em 1943 num volume com ilustrações de Oswaldo Goeldi, hoje muito prestigiado e reconhecido. A estética e a cor ocupam grande espaço nesse conto, pois Gustavo Barreto decorou a casa toda de rosa para agradar um amigo e depois passou a sentir o ambiente como insuportável. Note-se que o rosa é uma cor associada ao feminino. Gustavo passou a vida “deitado no divã de damasco rosa”, “pelo salão todo tapetado de rosa pálido, com grandes rosas vermelhas”, “abriu as cortinas do filó d´ ouro sobre um fundo de damasco rosa seco”. Essa monocromia rosa passou a ser uma das razões de sua agonia!

            Em suas primeiras resenhas para jornal, Paulo Barreto profetizou que a arte brasileira e seu futuro passariam pelo realismo naturalismo. Nisso acertou, pois são influenciadas por esse estilo tanto o romance de 30 quanto Nelson Rodrigues e, mais recentemente, o romance Cidade de Deus, de Paulo Lins.

 O narrador de Impotência é sobre a vida vazia de Gustavo Nogueira, um homem de 70 anos, solitário, que lembra seu passado e seus relacionamentos fracassados: seus colegas de tempo de escola, um jardineiro, uma lavadeira. É um conto de um escritor que, com dezoito anos, demonstrava muita erudição em resenhas em jornais defendendo o realismo naturalismo, em especial Zola e Flaubert. João do Rio ainda assina como Paulo Barreto e demonstra, nesse conto, influência do pessimismo schopenhaueriano.

 

 

 

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

Essas palavras não são dólar/Liberdade é um Ato de Linguagem

 

            Esse livro de Saulo Mazagão e Eduardo Andrade, que também tem o nome de “Trem com Tanta Coisa Escrita” (Editora Literatura em Cena, 2020) contêm dois livros em um, dois poetas coabitando e colorindo o espaço literário.

Saulo Mazagão gera a poesia a partir de registros que lembram diários e apresenta nostalgia das cartas. Num deles, Dias Cinzas, admite sentir inadaptação diante do mundo volátil como ele é hoje: “Ainda assim, é mais difícil encontrar quem nos leia com respeito e atenção”. Como ele explicou: “Para alguns, caracteres, mas para o escritor, a palavra se sente”.

Achei tocante a forma como Mazagão aproveitou uma assonância execrada pelos professores de Português, “a boca dela” para poder criar uma poesia expressando sua dor a respeito de um amor por uma mulher bonita, mas que o chamou de chato, não gostou de sua voz, dentre outros signos de rejeição. É um achado falar do feio de uma forma bela.

O poeta fala das coisas que o fazem sofrer, mas destaca as que lhe fazem feliz no poema Entre Livros e Cafés: “Cheiro de livro, cheiro de pessoas, de inteligência, cerveja ou café”. Muito agradável pensar nessa ambiência evocada pelo poeta. Seus poemas também são como cartas falando de suas estranhezas, referências boas ou ruins, suas singularidades e particularidades e do amor. Ele mesmo avisa que poetas falam do amor, falam de amores e, por vezes, são malditos. Em Um Escritor Como Outro Qualquer, ele fala também do amor correspondido, algo que acontece mesmo nesses tempos de internet, uma garota comprou o livro e acertou o seu coração em cheio. Apesar da volatilidade, da falta de tempo, o amor pode desabrochar, pode acontecer.

Mazagão é jovem, mas admira a maturidade, como em Ode à Maturidade. Ele admira Carlos Drummond de Andrade e conta que, no Rio, sua namorada, uma “guria" catarinense, tirou uma foto dele junto ao poeta, momento maravilhoso de amor que ele guarda dentro de si.

            Eduardo Lucas Andrade, nesse livro, estabelece conexões e retorna a alguns temas abordados em livros anteriores. Como um Sísifo poeta, ele repete, mas repete de outra forma.

            Eduardo Lucas continua a ligar poesia e psicanálise, desta vez, no primeiro poema do livro, tomando um mito, o da serpente Ouroboros, para poder diferenciar entre gozo e desejo. O ato repetitivo da serpente de destruir-se é o gozo. O desejo, motor do movimento, é justamente o espaço entre a cauda e a boca da serpente.

            As considerações de Eduardo são muito divertidas, ele mistura crônica, poesia e observação do cotidiano. A leitura me faz rir, quando, em A Automutilação dos Vínculos, ele comenta o quanto o diálogo é algo raro nos dias atuais. Em geral, a pessoa fala e o outro diz, às vezes no meio da fala do outro: “olha aquela abelha ali voando”! Quantas vezes isso não acontece no nosso dia a dia. Na ausência do simbólico, os jovens atuam na carne. Os poemas de Eduardo ensinam que somos como o lagarto que por vezes perde a cauda para fugir do predador: nós precisamos, também, livrar-nos de nossos predadores internos.

            Eduardo escreve uma carta, em 2018, para si mesmo, uma carta onde ele descobre que na doença encontrou o cuidado de si, o conhecimento da ciência médica como um prazer a mais. Ele demonstra, também, gratidão aos lugares onde foi acolhido, como o BH Hostel em Belo Horizonte, lugar onde deixou um livro e fez amizades, lugar onde esqueceu uma insulina e via-a cuidada, guardada. Um lugar onde, mais do que hospedar, simplesmente, há acolhida dos hóspedes como sujeitos, como pessoas.

            Ele também posiciona-se sobre o momento histórico em que vivemos, em que “esfakeamos” uns aos outros, ou seja, as pessoas passam fake news. A política virou futebol, onde uns fazem bullying uns com os outros. No contexto em que vivemos, uma música de Natal torna-se tortura. Ele alerta, em Legitimação do Pior, que não devemos tolerar o insuportável, o preconceito, a violência, a aniquilação das minorias.

            Eduardo também desenvolve o conceito de “superhorroridade”, também muito irônico: é a vontade de mostrar superioridade desnecessariamente, sendo algo que não leva a nada.

 

 

sábado, 30 de janeiro de 2021

Psicanálise e Vida Cotidiana 2


 

            Esse livro coletivo, editado pela editora Literatura Em Cena (2020, organizado por Paulo Cecarelli, Victor Cruz e Eduardo Lucas Andrade), inicia-se com um texto de Bartholomeu sobre a transferência, tema muito importante na análise. O segundo texto é sobre o xamã David Kopenawa que, em associação com Eduardo Viveiros de Castro, excelente antropólogo, faz uma antropologia do homem branco.

 A seguir, há o texto de Eduardo Lucas Andrade tratando do pagamento para o analista e as situações que ele cria. O texto é muito bem humorado e cita uma anedota contada por Ferenczi:

 

Mesmo o homem mais abastado faz cara feia quando tem que dar dinheiro ao médico. Um exemplo desconcertante ofertado por um paciente: doutor, se me ajudar lhe darei toda a minha fortuna. O médico respondeu: Me contentarei com as trinta coroas por sessão. Não é um preço muito salgado, doutor? Foi a resposta inesperada do paciente (FERENCZI, 1928, apud: ANDRADE, 2020, P. 57).

 

Eduardo trata das várias questões que o pagamento levanta. Mas finaliza dizendo que  nada na vida é tão cara quanto a doença e a estupidez. O texto de Elisabeth Roudinesco, biógrafa de Lacan, também tem colocações e provocações muito interessantes: ela observa como a psicanálise decaiu na França.

Os autores clássicos como Dolto, Lacan e outros continuam sendo editados e vendem bem, mas a produção contemporânea concentrou-se numa editora de Toulouse que edita apenas quinhentos exemplares de cada livro. E boa parte dos lançamentos é voltada para pedagogos e profissionais da saúde mental. Aliás, Roudinesco mostra que a psicanálise perdeu a posição que tinha anteriormente, prestigiada junto a marxistas e surrealistas. Hoje os psicanalistas são trabalhadores da saúde mental. Os psicanalistas não contam com apoio da psiquiatria, dentre outros problemas. Outro problema que ele aponta é a participação em programas de gosto duvidoso, forçando uma análise ruim ao colocar personagens públicas no divã, ao dizer coisas como “Macron não tem superego, casou-se com a mãe, é narcísico”. Roudinesco alerta que os psicanalistas brasileiros precisam evitar que aconteça com eles o que houve na França, onde a psicanálise passou a ter interesse histórico, virou coisa de museu, apenas.

O amor lésbico é assunto no texto muito arguto de Ivanildo e Monik. Um conto muito bom e vigoroso de Natália Polessa, Primeiras Vezes, é analisado. Há um texto de Lavarini sobre a transferência e a agressividade, bem como um de Leandro Alves sobre o tema do perdão e sua importância para o tratamento psicanalítico. Ligia Maria Durski fez um texto sobre um tema muito pertinente: a ligação entre a macropolítica e a micropolítica (em tempos de fascismo cotidiano). O atual contexto de pandemia e crise política e econômica gera situações em que a presença física do analista não pode acontecer como anteriormente e alguns pacientes não adaptam-se ao tratamento online. O bizarro é quando um paciente simplesmente acha exagerado o cuidado do analista, ou seja, alinha-se com a lógica dos fascismos cotidianos. Para trazer luz a um contexto tão adverso, Lígia Durski recorre a Foucault e sua análise de como poderia ser uma vida não-fascista.

Bem conectado ao tema proposto pelo livro, Michael Lopes analisa o infamiliar em uma série chamada A Maldição da Residência Hill. Mirelli Barbosa fala do amor e dos poetas, cita Fernando Pessoa e Platão. Lembra do nosso sofrimento e adoecimento em nome do amor. Monik, Stephanie e Ivanildo enveredam-se pelo fascinante universo de Nelson Rodrigues. Encontram um tema excelente: a rivalidade fraterna no conto Diabólica, de A Vida Como Ela É. Duas irmãs disputam o mesmo homem. Natália Paez analisa a relação entre Direito e Psicanálise tendo em mira nosso sistema prisional. Paulo Cecarelli levanta uma hipótese sobre a violência e o trabalho de cultura, citando a amada de Nietzsche e pensadora da minha grande admiração, Lou Salomé, que fala da hipocrisia da nossa civilização e nossa inadequação a ela.

O único artigo da coletânea a trazer ilustrações é de Roberto Barberene Grana sobre Winicott e Francis Bacon, o pintor, mas ele cita satiricamente algumas frases do filósofo também. E traz uma frase, a meu ver, marcante, seminal: “Do ponto de vista deste capítulo este Francis Bacon contemporâneo está se vendo no rosto de sua mãe, mas com certa distorção, nele ou nela, que o enlouquece ou nos enlouquece” (ANDRADE, 2020, 233).

Igualmente, o texto sobre a palavra e o significante na toxicomania, de autoria de Rodrigo Pardini, tratou da dificuldade em tratar os toxicômanos, iluminando problemas que, como professor, também encontro ao lidar com adolescentes que usam drogas e estão em idade escolar. E hoje eles são legião, são maioria. Observou que chegam muitas vezes drogados ao consultório, bem como eles vão ao consultório obrigados por alguém da família ou do trabalho. Ao lidar com os drogados, muitas vezes eles são rompidos com o instrumento de trabalho do analista. Sua fala não faz troca simbólica. Os significantes surgem e assim não é possível fazer aparecer o trabalho do inconsciente. O drogadito tem uma fala que é vazia de conteúdo. Monik contribui com um texto sobre a criatividade e por fim, Victor analisa o nosso difícil momento: o adoecer psíquico causado pela conjugação entre isolamento social, pandemia e crise.

Esse é o tema de O Colapso Brasileiro em 2020. É um drama atualíssimo e que ainda estamos vivendo em 2021. O analista conta que pacientes com obesidade passaram a trancar-se dentro de casa e obter significativo ganho de peso. Para muitos pacientes, a pandemia agravou suas patologias e tornou ainda mais difíceis de tratar. Uma frase citada é muito bela “o luto indizível instala no interior do sujeito uma sepultura secreta”. Há quem até tenha pesadelo com uma situação em que está sem máscara, num salto de consciência dentro do próprio sonho. O sonho é invadido por restos angustiados do consciente Felizmente, diz ele, os sonhos estão em plena atividade, reconciliando-nos com a nossa capacidade de imaginar um futuro melhor.