quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Resenha de Paulo Emílio sobre Terra em Transe

-Terra em Transe- (Paulo Emílio Salles Gomes)

“Terra em Transe(1967), filme explosivo que trata de arte e política no terceiro mundo, representa a obra mais pessoal de Glauber Rocha, assim como sua mais brilhante contribuição a um cinema político. Certas circunstâncias atuais tornam necessária uma releitura do filme. Os recentes acontecimentos do Chile, onde um golpe de direita, apoiado pelos Estados Unidos, depôs um governo popularmente eleito, evoca o fato de que Terra em Transe foi realizado logo depois de um golpe militar que depôs João Goulart. Quando foi apresentado pela primeira vez, Terra em Transe foi erroneamente interpretado como um apelo romântico ao Guevarismo. Na verdade, como veremos, o filme está mais interessado em desmistificar a política populista que levou ao golpe do que em propor qualquer estratégia revolucionária específica.(...) O filme de Glauber Rocha é reflexivo-um verdadeiro ensaio sobre a interação de arte e política-mas não é apático nem sem emoção. O filme ressalta a importância das emoções na vida política mas nunca se limita a uma explosão meramente pessoal do cineasta ou a explorar os sentimentos do público através de sua identificação com personagens idealizados. Impregnado de ódio, eloqüência exacerbada, histeria individual e coletiva, Terra em Transe não é um filme Hollywoodiano porque analisa as emoções em vez de explorá-las.

A intriga de Terra em Transe se desenrola num país imaginário-Eldorado. Felipe Vieira, governador da província de Alecrim, decide não resistir ao golpe de estado, liderado pelo político de direita-Porfirio Diaz. Depois de uma acirrada discussão com Vieira, o protagonista-narrador, Paulo Martins, acompanhado por Sara, secretária de Vieira, foge do palácio do governador e é ferido mortalmente pela polícia. Enquanto vai perdendo a vida, lembra-se dos acontecimentos que culminaram com esta derrota pessoal e política. Quatro anos antes, ele tinha sido o poeta e protegido de Diaz, até o momento que o abandona a fim de se dedicar a uma poesia mais política. Ele vai a Alecrim para colaborar com a militante Sara na campanha eleitoral de Vieira, um político populista. Ganham as eleições, mas o governador eleito, devido às suas ligações com os latifundiários, quebra suas promessas eleitorais e solta os policiais contra os camponeses. Desiludido, Paulo se lança numa vida de orgias e de náusea existencial.

Mais tarde, quando Sara lhe pede para fazer um programa de TV a fim de destruir Diaz, agora aliado da Explint (leia-se imperialismo) Paulo, em nome do seu amor por Sara, aceita a proposta e faz um filme, “Biografia de Um Aventureiro”, contando as sucessivas traições políticas de Diaz. Denunciado como traidor por Diaz, Paulo se liga à eufórica campanha presidencial de Vieira. Numa atmosfera de festa popular perturbada somente por atos ocasionais de repressão violenta, o povo contribui para o crescente entusiasmo da campanha populista de Vieira. A direita, temendo uma derrota eleitoral, começa a preparar um golpe. Voltando ao ponto inicial do filme, vemos Paulo oferecer um revólver a Vieira, que o recusa. Numa montagem paralela assistimos os momentos finais da morte de Paulo se alternar à coroação de Diaz e o plano mostra Paulo com um fuzil erguido.

Organizada em torno das memórias de Paulo enquanto ele morre, a narrativa de Terra em Transe consiste em um relato lúcido de uma vida dominada por ilusões políticas conformando-se com o que tem sido chamado de “fórmula quixotesca de desencantamento sistemático”. Como para fazer ressaltar esta estrutura de encantamento-desencantamento, Paulo fala tanto no prólogo como no epílogo sobre a perda de sua fé, revelada como ingênua e impotente. Paulo devota a sua fé, primeiro a Porfirio Diaz, o “Deus” de sua juventude e em seguida ao seu “líder”, o demagogo Vieira. A palavra “líder”, na verdade, reverbera ironicamente o filme inteiro, culminando no grito de Paulo quando Vieira não resiste ao golpe: “Está vendo Sara, quem era o nosso líder? O nosso grande líder?” A contribuição particular de Glauber Rocha consiste na dimensão política que dá à fórmula cervântica. Paulo se desilude com todos os líderes políticos burgueses, sejam eles reacionários como Diaz ou liberais como Vieira. Essa desilusão é compartilhada por pessoas como o jornalista Álvaro e por militantes como Alto e Sara. Paulo divide este desencanto com o povo que “não pode acreditar em nenhum partido”.

O filme como um todo elabora o que pode ser chamado o tema da “diferença aparente”. Vieira e Diaz parecem ocupar lugares opostos no espectro político mas a montagem paralela de suas campanhas eleitorais, embora fazendo num nível superficial um contraste entre os dois políticos, funciona num nível mais profundo como uma irônica “mise-en-equivalence”. O magnata da imprensa, o nacionalista Fuentes, pensa que a sua posição difere da de Diaz; mas forças históricas mais fortes do que ambos tornam suas posições convergentes. Paulo pensa que não é um opressor mas ocasionalmente age como polícia de Vieira. Sara e os militantes parecem ser mais de esquerda, mas suas ações servem somente para reforçar Vieira e em última instância Diaz. Todos eles, com exceção de Diaz, alimentam a ilusão de sua própria pureza.

De uma certa maneira a luta entre Paulo e Diaz parece ser menos ideológica do que psicológica, um exemplo do artista lutando com seu alter-ego. Paulo nutre uma espécie de ódio edipiano por Diaz, seu pai político e espiritual. A nota edipiana é dada através da ironia das últimas palavras do filme “Biografia de Um Aventureiro”: “Eis quem é o pai da pátria”. Um estranho elo, quase sexual, liga Paulo a Diaz. Num determinado momento Paulo se imagina lutando com Diaz e, ao abandoná-lo, Diaz grita histericamente: “Sozinho Paulo! Sozinho!” em uma maneira parodicamente homossexual. A montagem do filme reforça o paralelo entre Paulo e Diaz. Uma montagem paralela justapõe a verdadeira agonia de Paulo com a agonia imaginada de Diaz. (Ele estava morrendo como eu, estávamos ambos sofrendo”). Em outro momento a voz “off-screen”de Paulo é sobreposta à imagem de Diaz movendo os lábios, como se Paulo estivesse falando através de Diaz. Esta identificação tem tanto uma dimensão social como psicólogica. Diaz personifica as origens imperiais do Brasil. Estas são as raízes podres a que Paulo se refere. Paulo tenta negar estas raízes ao gritar: “Ele não está no meu sangue”. Imagina-se matando Diaz mas ao fazer isso não está na verdade liquidando um indivíduo mas sim seu próprio passado individual e histórico. Socialmente falando ele é “uma cópia suja de Diaz”, como Alvaro o chama.

Terra em Transe atua como uma espécie de exorcismo artístico que é um paralelo à rejeição de Paulo ao seu próprio passado. Da mesma forma que Cervantes exorcizou seu amor pela literatura cavalheiresca através da paródia, Glauber purga seu próprio romantismo em Terra em Transe. Como ele mesmo admitiu, as ilusões de Paulo Martins foram as suas próprias. O filme mostra que atitudes românticas não tem mais lugar num mundo sujeito a convulsões. Na verdade o título original do filme fazia uma referência bastante clara ao romantismo. O título original era Maldorado, uma quádrupla alusão ao Chants de Maldoror, de Lautreámont; Eldorado; mal-adorado; mal-dourado. O que o impressionou em Les Chants de Maldoror, disse Rocha foi a atmosfera de “torture permanente” e o seu “realismo de vômito”. Mas como o filme demonstra, personagens como Maldoror não podem sobreviver num país como Eldorado. A paródia se caracteriza pela triste consciência de que certas atitudes literárias não são mais historicamente possíveis. O filme de Glauber Rocha tem a curiosa duplicidade da paródia, combinando afeição nostálgica com uma crítica sem piedade. Mas em última instância, o filme condena aqueles que cultivam uma sensibilidade pessoal irrelevante no mundo do putsch.

Os críticos literários têm considerado muitas vezes o “novel”, a partir de Dom Quixote, como “anti-romance”. A fome intelectual pelo ideal do “romance”, o “novel” contrapõe a fome concreta do picaresco, cuja motivação principal é sempre “el hambre”. A mesma dialética é evocada em alguns momentos críticos de Terra em Transe. Quando Paulo, citando Chateaubriand, fala de sua “fome de absoluto”, Sara, representando um Sancho terra a terra e ao mesmo tempo politizado, responde simplesmente ao seu sublime Don: “A fome”. Enquanto Paulo lamenta a “miséria de nossas almas”, Sara se preocupa sobretudo com a miséria social. A arte de Rocha recusa a tornar obscuro o fator fome. O filme trata a fome como assunto e como uma metáfora onipresente e estrutural. Uma de suas mais importantes declarações sobre princípios artísticos, não é de surpreender, se intitula “A Estética da Fome”.

A dialética central da arte e da realidade social é resumida no poema que comenta a morte de Paulo, que é uma colagem feita por Rocha de vários versos de Mário Faustino:

Epitáfio de Um Poeta

Não conseguiu firmar o nobre pacto

Entre o cosmo sangrento e a alma pura

Gladiador defunto mas intacto

(Tanta violência mas tanta ternura)

O cosmo sangrento e a alma pura, violência e ternura, são os pólos extremos em torno dos quais Terra em Transe gira. O filme revela a degradação do ideal no mundo real, onde “perdemos nossa pureza nestes jardins de males tropicais”. Violência e ternura são usadas em contraponto no filme, assim como a trilha sonora superpõe a crepitação das metralhadoras com as melodias de Villa-Lobos.

Paulo representa o poeta vagando no mundo da luta de classes e de golpes de estado. O seu modo habitual de expressão, simultaneamente frenético e solene, é a poesia. A lava das palavras explode repentinamente em metáfora, encantação, maldição. A poesia, onipresente em Terra em Transe, pontua, interrompe, sublinha e faz contraponto à narração. Na maioria das vezes, entretanto, ela expressa a voz interior do poeta, como os solilóquios de Hamlet. Muitas vezes Paulo aparece em “close” com voz-interior “off”, numa técnica reminiscente das adaptações welleseanas das tragédias de Shakespeare. (A voz de Jardel Filho lembra, por sinal, a do próprio Orson Welles). Paulo, aliás, tem traços significativos em comum com Hamlet -- uma imaginação desvairada, uma virtuosidade perversa de linguagem, um ceticismo rigoroso coexistindo com um idealismo desesperado. Como Hamlet, Paulo se vê como herdeiro legítimo do poder. E como crítico mais ou menos lúcido da corrupção ambiente da qual ele mesmo faz parte. Suas alusões obsessivas à morte, aos vermes, ao povo cujo sangue foi apodrecido pela tristeza, reforçam a atmosfera de malestar sufocante. Terra em Transe é Shakespeare na sua dialética (...)entre o pessoal e o político. Também são shakespeareanas as rupturas emocionais no texto: a calma lírica sucedendo as explosões violentas, assim como a interação complexa entre seqüências de amor e seqüências de ação política.

Além de utilizar a poesia para fins retóricos diversos, Terra em Transe focaliza também os diversos usos políticos da poesia. Enquanto trabalha como o protegido de Diaz, Paulo expressa timidamente o desejo de falar de política numa “poesia nova”. Diaz responde com condescendência que “somos todos radicais na juventude”. Em seguida, Paulo oferece seu serviço a Vieira, aparentemente mais receptivo. “O país precisa de bons poetas”, diz Vieira, “como aqueles românticos do passado”. Vieira aplaude quando Sara recita o poema de Castro Alves: “A praça é do povo, como o céu é do condor”. O poema reflete a ambiguidade histórica do romantismo; o mesmo movimento que produziu o narcisismo exacerbado de Lamartine e de Álvares de Azevedo engendrou também a poesia progressista de Shelley e de Castro Alves. A referência de Vieira a “aqueles românticos” evoca um momento da história brasileira quando movimentos artísticos e movimentos políticos agiam em simbiose. Os acontecimentos subseqüentes do filme, porém, revelam exatamente os limites políticos dentro dos quais operam não somente a poesia como também a arte em geral. Vieira, por exemplo, aprecia a poesia engajada na medida em que ela não implica mudanças radicais no presente. Quando Paulo tenta dissuadir Vieira de soltar a polícia contra os camponeses a voz “off” de Sérgio Ricardo canta “A praça é do povo”. O filme sugere, então, que é somente no mundo da poesia que a praça é do povo; no mundo real a praça é dos opressores.

Terra em Transe critica a noção ingênua de que a arte em si pode desencadear uma revolução. Paulo perde o entusiasmo inicial pela poesia política, concluindo que: “A poesia e a política são demais para um homem só.” Certos críticos, pressupondo que a opinião de Sara constitui o veredicto final de Glauber Rocha sobre a relação entre arte e política, não entendem a relação dialética que as coordena no filme. Não notam também a ironia flagrante da frase de Sara no contexto de Terra em Transe, visto que o filme não somente “inclui” poesia, mas também funciona duma maneira poética, constituindo o equivalente cinematográfico da poesia. Esquecem também uma outra interpretação possível da frase de Sara. Se a poesia e a política são demais para um homem só talvez não sejam demais para muitos homens juntos.

Nas referências à poesia, devemos entender também arte em geral, e cinema em particular. O interesse de Paulo em criar “formas novas” de poesia nos lembra, inevitavelmente, Rocha o cineasta, criando formas novas de cinema político. Quem saberia melhor do que ele que o poder estabelecido prefere que as penas (e câmeras) sejam servis e não agressivas nem radicais? Paulo se entusiasma pela poesia, embora tenha reservas quanto à eficácia social da poesia, uma ambivalência entre poesia e cinema. Num plano cujo “blacklighting” e composição retangular lembram Godard, vemos Paulo mirar a sua câmera através da janela do seu apartamento, enquanto a sua voz em “off” diz: “Eu, por exemplo, me dou ao vão exercício da poesia.”

Paulo, é preciso lembrar, é jornalista e cineasta, tanto quanto poeta. Ele filma “Biografia de um Aventureiro” a fim de destruir o seu ídolo caído, Diaz. Na “Biografia”, Diaz aparece rindo enquanto um comentário em “off” narra as traições sucessivas que explicam sua subida ao poder. Nós sabemos através do nouveau roman que romances-dentro-de-romances funcionam muitas vezes como micro-récits que resumem o romance como um todo. “A Biografia”constitui um micro-récit neste sentido, porque Terra em Transe como um todo também conta a ascensão de Diaz ao poder. Mas num nível mais profundo, a história da “Biografia”lembra a de um outro aventureiro -- a do próprio Paulo em Terra em Transe.

7 comentários:

Anonymous disse...

meu deus. até a resenha de filme é insuportável. um dos piores filmes que já vi na vida. desculpa :(

Penetralia disse...

Burrice é algo terrível. Veja o filme de novo e de novo e de novo e desligue a tv na hora da Caminho das Índias.

Penetralia disse...

Não desculpo, não.

Anônimo disse...

Esse esquerdismo barato...

Anônimo disse...

horrivellllllllllll

brunabora disse...

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Carla Manuela Morais disse...

Esquerdismo? Acho q quem afirma isso realmente n entendeu a real mensagem do filme. Terra en transe é uma verdadeira obra prima de Glauber Rocha e mostra as manipulações do jogo politico, no filme vemos q n há bom e mal, pq ambos os partidos políticos são falhos, almejam o poder e o fazem de tudo para conseguir, uma direita extremamente pretensiosa, com um mero discurso fascista e apelativo e uma esquerda covarde e fraca, com muitos ideais e pouca prática.
Achei o filme fantástico, as personalidades controversas e hipócritas dos personagens deixam o enredo um tanto complexo, mas n impossível de compreender, a atuação não é uma das melhores que já vi, visto que deixa um pouco a desejar em determinadas cenas, no entanto a narrativa poética, as frases metafóricas imersas nas entrelinhas do filme e os ideais desconstruídos ao longo do narrativa foi oq realmente me encantou!